Ela
era uma mulher dessas fortes, que já passaram por momentos difíceis aos quais
enfrentou sozinha e venceu. Mas aquele vazio sempre estaria ali... aquela
espera por um amor espontâneo, a vontade de um dia ser a primeira opção.
As
lembranças da infância jamais deixariam de doer profundamente, a imagem de si
mesma... o mesmo corpo magro, cabelos finos e loiros e, naquela época, tão
lisos... Ela sempre o aguardava, todos os dias, por longos anos, sempre no
mesmo horário. Esperava ansiosamente o relógio alcançar o tempo preciso,
ponteiro pequeno no cinco e ponteiro grande no doze... 17 horas! De banho
tomado, caminhava pelo corredor com chão de terra e parava no portão. Então
seguia uma espera de quinze minutos. Nenhum dia foi antes disso, porém muitos
foram depois. Em alguns deles sua espera continuava na cama, com a mãe brigando
para que dormisse.
A
espera acabava com o ruído do motor, e o carro surgindo na esquina. Ela se
apressava em abrir o portão com suas pequenas mãos de criança. O carro entrava
e ela observava aquele homem a quem tanto temia, mas que em sua inocência
infantil, era capaz de amar. Fechava o portão e corria ao encontro dele... seus
olhos miravam ao alto para poder observá-lo enquanto aguardava um abraço... um
abraço que nunca veio... um abraço que ela desejou por anos, numa esperança
renovada a cada vez que o relógio alcançava as 17 horas de vários, vários dias.
Nunca houve abraço, carinho, atenção. Nunca ouviu aquelas perguntas rotineiras
sobre a escola, as provas, a lição de casa, se havia melhorado do resfriado, da
pneumonia, das frequentes noites em febres que batiam os 40 graus do Rio no
verão. Mas enfim ela cresceu, e junto com ela uma mágoa profunda.
O
tempo foi passando, mas aquele vazio continuava lá. Sabia que nada e nem
ninguém seria capaz de preenchê-lo, era seu, só seu, e pra sempre!
Pelos
caminhos da vida encontrou aquele garoto... e se apaixonou! Eram tão
diferentes... ela já formada, um bom trabalho e algumas comodidades. Ele nem
havia começado a vida, ainda era um jovenzinho no colegial. Mas isso não era
importante pra ela, queria apenas que estivesse ali, do lado dela, que fossem
companheiros e buscassem a realização dos seus sonhos juntos. Ela fez de tudo
por ele, muito mais do que deveria. Em pouco tempo ajudara aquele garoto a
realizar cada sonho... trabalho, estudos, viagens... tantas vezes abrindo mão
dos seus próprios e se sentindo tão feliz por cada realização dele. Ela era seu
apoio, ele sabia que podia contar com ela pra absolutamente tudo. Ela o ajudou
a construir um mundo e ele...bem, fez com que aquele vazio da infância tivesse
um companheiro, um outro vazio ali do lado.
Por
anos viveu a mesma espera, dia e noite aguardando aquele amor espontâneo,
querendo ser por um breve momento a número um da lista. Porém, havia tantas
coisas antes... o trabalho, a academia, o trabalho, a família, o trabalho...
Esperou sua vez assim como na infância, coração esperançoso, mas todo carinho
recebido não passava de migalhas mendigadas. Chorou, brigou, implorou inúmeras
vezes, deixando de lado qualquer orgulho, pediu pra ser amada, se esquecendo de
que amor não se pede.
Como
uma garotinha empolgada em sua primeira apresentação de balé, ela sonhava em um
dia ser a estrela principal, em se sentir importante, especial, mas isso nunca
aconteceu. Ficou com as migalhas por longos anos. Inúmeras vezes se levantava
da cama durante a madrugada para chorar na sala. Nos momentos em que a dor era
insuportável, se trancava no banheiro, sentava-se ali mesmo, no chão, e abafava
o choro com a toalha. Depois se enfiava debaixo do chuveiro, suas lágrimas
misturadas com a água que ela pedia para que levasse aquela dor, o que não
passava de mais um pedido em vão.
Claro
que um dia aquilo chegou ao fim. E quando isso aconteceu, ela não conseguiu
chorar, não conseguiu sentir... nem tristeza, nem alegria ou alívio. Estava
completamente vazia.
No
exato dia em que saiu com o carro carregado com as últimas caixas que levavam
os últimos pertences da sua até então casa, ela olhou para o vazio lá dentro, e
depois para “os vazios” de si mesma. Duas marcas profundas e aquele amor que
nunca veio. Então fitou o céu e jurou nunca mais implorar por ele, jamais
mendigar as migalhas. Tinha o carinho de bons amigos, o infinito amor de mãe.
E... mesmo que nunca fosse admitir, naquele momento, sob o céu azul de outono,
pediu secretamente, em um fraco sussurro, que algum dia o tal “amor espontâneo”
surgisse pra lhe acarinhar, pra colocá-la em seus braços e fazê-la se sentir
segura. Mais que isso... num último desejo, com o coração ferido, pediu que não
surgissem novos vazios, ela não seria capaz de conviver com eles.

