Às vezes, eu costumava matar aula
no colégio para ir ao cinema, outras vezes, vejam só, para ir à biblioteca da
escola mesmo. Foi estranho quando, um dia, o meu professor de literatura da
época me encontrou numa dessas vezes entre as estantes, procurando um livro.
Naquela hora, na minha turma, era a aula dele. Por algum motivo, ele precisou
deixar a sala e ir à biblioteca rapidamente. Teve um espanto ao me ver ali. Não
sei se porque eu matava a sua aula, ou porque fazia isso na biblioteca, com um
livro nas mãos. Ele me olhava e olhava o livro. Ia e voltava com os olhos,
perplexo. Eu não soube, por um instante, se devia justificar a minha ausência
na sala ou o fato de ter escolhido um lugar cheio de livros para faltar à aula
de literatura. Quando enfim comecei a gaguejar alguma coisa, ele se afastou,
transtornado, e saiu, mas não antes de olhar mais uma vez o livro que eu tinha
nas mãos, com evidente ressentimento.
Eu havia cometido algum delito
grave para aquele professor. O fundo em meu estômago dizia isso. Não podia ser
só a aula. Outros alunos também a matavam de vez em quando, e ele depois lhes
chamava a atenção com uma seriedade divertida e irônica. Nada de perplexidades
constrangidas. Olhares graves e ressentidos. Aquela reação perturbadora ele
havia reservado apenas para mim. Mas, tampouco, devia ser a biblioteca, ou era?
O livro suava em minhas mãos, assumindo talvez a culpa. Levei-o para casa,
apertando-o em meu peito. Éramos cúmplices, nós dois, de um ato horrível e misterioso
contra o professor. Naquela noite, tive pesadelos. Os olhos do professor
tomavam inteiramente o seu rosto, e me enfrentavam indignados e ofendidos.
Na aula seguinte, tentei me
comportar da melhor maneira possível. Não passei o tempo olhando para a janela,
como costumava fazer, em busca de um horizonte qualquer. Nem me distraí com
rabiscos, desenhos e frases inúteis no caderno. Fixava o professor com atenção
exagerada, tentando absorver e compreender tudo o que ele dizia sobre o estilo
de época Arcadismo, anotando bucolismo e pastoralismo com
caligrafia exemplar, e assentindo com a cabeça toda a vez que seus olhos
passavam por mim e não me viam. Ao contrário do meu pesadelo, o professor não
me olhava mais. Era dessa forma retraída que ele lidava com o ressentimento.
Eu, por outro lado, assumia todas as culpas na medida em que ele
silenciosamente me acusava. No corredor, evitava cruzar comigo, e se me via no
pátio lendo um livro, como eu gostava de fazer, mudava de direção como se
estivesse diante de um obstáculo intransponível. Era sempre à noite, na
escuridão da insônia, que eu ruminava as atitudes do professor e repassava a
matéria. Romantismo: nacionalismo, exaltação do eu. Realismo: racionalismo,
crítica social. Não sei por que, naquele dia, eu achei que ele tremera
um pouco durante a aula, a voz rasgando a garganta, ao dizer, crítica social.
Semanas depois, eu percebi: o
professor não fazia mais a barba, engordava, e, como se não tivesse mais nada a
fazer, envelhecia. Se antes não era alegre nem triste, agora não era,
simplesmente. Entrava na sala de aula resignado, dizia algumas coisas, escrevia
outras, para depois desaparecer. A sua apatia era tão grande que um dia ele
deve ter se esquecido que sua presença era aguardada e realmente desapareceu. “Viajou”,
explicou a diretora, como se o fato de alguém ir de um lugar para o outro
explicasse tudo. E assim os anos se passaram sem notícias do professor.
Nos encontramos anos depois, por acaso,
numa livraria. Eu a frequentava sempre, e não sabia que, desde que entrei pela
primeira vez ali, era observada pelo professor. Já sentia o livro suando em
minhas mãos, quando ele me cumprimentou, perguntando se eu era eu, a sua aluna.
Sim, confirmei. Ele me olhava e olhava o livro, como nosso constrangido
encontro na biblioteca da escola. De repente, me abraçou, com uma gratidão que
eu não pude entender. Mas, em seguida, o professor foi de uma claridade
imprevista, de fechar os olhos. Uma de suas alegrias era me ver ali em sua
livraria, ele disse. E sorriu, confirmando, sim, sou livreiro. E pegando um
livro, levou-o ao peito. A capa sobre o coração, enquanto ele confirmava a
satisfação de ver que eu continuava a gostar de ler, apesar de suas aulas.
Aquele dia na biblioteca ressurgiu então entre nós. Me ver matar a aula de
literatura para ler foi a gota d’água para o professor. Havia passado a noite
anterior preparando uma aula de literatura, elencando, não poetas e escritores,
seus textos e suas poesias, mas características, datas e nomes que os alunos
não podiam deixar de saber, porque ia cair na prova, porque estava no currículo
do semestre. Às vezes, conseguia uma aula ou outra para os textos, mas era
pouco, muito pouco. Até me ver na biblioteca, o professor me julgava uma aluna
desinteressada e desinteressante, daquelas que não se avista o futuro. Não me
imaginava abrindo um livro, como podia supor que eu era uma leitora? Mas eu
era, e, para ele, havia sido como um marido, que sempre considerara a esposa
frígida, descobrir que ela tem um amante. Eu, que já tinha idade e altura para
sorrir dessa imagem, sorri, profundamente feliz. O professor abraçava o livro,
apaixonado. Contou que um dia, se levantou da cama, se arrumou para ir
trabalhar, saiu de casa, mas, em vez de ir à escola, foi para uma livraria. No
dia seguinte, pediu demissão. Juntou dinheiro, conseguiu um empréstimo e abriu
uma pequena livraria, que se expandira em outras. “Eu queria estar perto dos
livros”, explicou. “Antes, eu achava que podia ser professor de literatura
impunemente”, disse. O professor entrara na escola cheio de esperanças de mudar
o modo em que é feito o ensino da literatura, de driblar, dia a dia, o sistema.
Mas foi ao contrário, era o sistema que estava, pouco a pouco, mudando o
professor, encurralando-o numa sala escura. “Até te ver na biblioteca, eu não
tinha a real consciência da dimensão do que eu fazia. A cada aula, eu matava um
livro. A cada aula, um leitor morria.”