terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Ela...

Ela é forte, independente, tem um jeitinho único e uma beleza rara. Não é mais uma menina, é uma mulher, e talvez isso o assuste se você não estiver realmente preparado para estar ao lado de uma MULHER de verdade.
Ela já viveu muitas coisas, enfrentou algumas tempestades que a tornaram ainda mais forte, e talvez um pouco mais triste. Mas lá dentro existem ainda muitos sorrisos guardados, que com carinho, você será capaz de trazer de volta aos seus lábios. Só não a faça derramar mais lágrimas, seus olhos já estão cansados de transbordarem... e seu coração também.
Sim, ela tem um passado que muitas vezes tenta esconder. Não quer que as pessoas saibam de suas tristezas e a vejam como “coitadinha”. Se orgulha de ter vencido tantas batalhas, mas como se diz por aí, são águas passadas. Então, não faça desses acontecimentos uma constante em seus dias. Viva com ela o presente, e vez ou outra, quem sabe, sonhe com o futuro, mesmo que seja incerto. Afinal, se quiser uma pessoa sem passado, precisará de alguém com graves distúrbios de memória.
Ah! Ela se preocupa com tudo e com todos, menos com ela mesma. Se você está com problemas, triste, tenha certeza que ela fará de tudo pra ajudar. À noite, antes de dormir, você estará em suas orações. Ela pedirá ao próprio anjo que vá cuidar de você, pois é forte o suficiente pra ficar algum tempo sem ele (talvez nesses momentos, ela até esteja precisando mais dele do que você...). Sem pensar, ela fará promessas absurdas, como ficar sem comer chocolate por um mês todo (louca!), ou bloquear o facebook por um tempo (mais louca ainda!) caso os pedidos que fez pra você em suas orações sejam atendidos.
Então, saiba que, quando ela der tudo de si pra você, talvez precise de um pouquinho de você com ela. Seus momentos de tristeza ficam escondidos, ela vive suas fases difíceis em silêncio, mas se ela os deixar transparecer, dê sua mão, um abraço, abrigo... Entenda que são poucos os seus momentos frágeis e será a hora exata de você mostrar que está ali, que ela tem com quem contar, que se ela fraquejar, terá em você apoio e não mais um “garoto mimado” que só pensa nos seus próprios problemas, e foge feito um bichinho acuado para não estar ao lado dela nesses dias difíceis.
Se  você conseguir arrancar seus sorrisos, viver cada momento intensamente, estar ao seu lado não só quando ela brilha, mas principalmente quando uma sombra triste tira a luz de seus olhos, terá sempre nela uma verdadeira companheira!
Não tente invadir seu coração e tomá-lo para si se não for para realmente se entregar. Ela já tem suas cicatrizes e não precisa de novas feridas. Se não é capaz de amar de verdade e sentir por ela o mínimo dessa loucura que ela sente ou sentirá por você, não lhe traga momentos pesarosos para se transformarem em mais recordações tristes. Ela é forte, mas sem dúvida também precisa (e deseja muito) de alguém com que possa vez ou outra, ser o “sexo frágil”!

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Minha alegria é você!

Às vezes a gente passa por uns momentos engraçados de reflexão, que surgem do nada ou de algo tão simples. Foi assim comigo ontem... Dirigia pelo mesmo caminho de sempre, indo para o trabalho. A avenida espaçosa, as árvores, o vento, tudo era quase igual. Quase... porque dessa vez havia algo tão simples, mas que fazia toda a diferença... eu sorria! Sim... eu sentia uma alegria daquelas que invadem a alma e causam suspiros, uma da qual nem me lembrava mais que existia. Sorriam meus lábios, meus olhos, meu coração...
Inevitavelmente veio em minha mente aquele retrospecto dos últimos meses... 2013 não foi um ano fácil! As tempestades quase tiraram o navio da rota e digo sem nenhuma dúvida, que em todos os dias desse ano, eu nunca sentira nem uma pontinha dessa paz que me invadia.
Muitas vezes, no mesmo caminho, observava a paisagem, os carros, a avenida, mas tudo turvado pelas lágrimas que saltavam displicentes dos meus olhos. De repente essa tristeza pareceu tão distante, incapaz de me afetar novamente e de tirar o tal sorriso bobo dos meus lábios.
E então foi bom saber que passei por tudo, e que estava novamente seguindo por aquele caminho sem a sombra que me acompanhava. Aliás, eu brilhava, tenho certeza! Mas não era uma luz própria, ela vinha de você! É você que me acende, em todos os sentidos! Foi pensando em você que no lugar das lágrimas havia sorrisos, e por quem novamente me invadiu uma louca vontade de viver e ser feliz... de assistir milhares de filmes no escurinho do cinema, de passar horas conversando e namorando no carro, na pracinha, em qualquer lugar (me lembro vagamente de ter feito isso aos... 16 anos!!!). De ver as nuvens “correndo”, a lua chegando junto com as estrelas, assistir a cada amanhecer e anoitecer com você! Vontade de ouvir sua voz o tempo todo, pois estou completamente viciada nela, de recostar a cabeça em seu peito para ouvir sua respiração, as batidas do seu coração, pra ter certeza de que você está ali, e não é só um sonho. De enroscar meus dedos em seus cabelos, sentir seu calor, te ver dormir...
Você chegou assim tão de repente e tomou conta de tudo... da minha vida, dos meus pensamentos, do meu coração... E ainda que às vezes eu pense “por que você não apareceu antes?”, sei que foi tudo no momento certo para que então se tornasse tão especial. É tudo tão bom com você que às vezes ainda acho que vou acordar, despertar desse sonho lindo! E é fantástico te ver, te ouvir, te tocar, saber que é real, que estamos juntos, que posso me aconchegar em seu abraço, o espaço onde eu adoraria morar!
Com você todos os traumas e medos desaparecem e eu me sinto segura, posso ser quem realmente sou! Você me trouxe de volta e nada que eu faça por você será tão importante e especial quanto o que você fez por mim.
Obrigada por existir... e me fazer voltar a existir também...

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Você...

Teu abraço é o gesto que me conforta, o único calor que verdadeiramente me aquece o corpo, e a alma! Teu olhar encantador é o mar onde eu mergulharia sem medo, e o seu riso contagiante, a melodia que adoro ouvir.
Seu cheiro vicia e surge de repente, como mágica, quando penso em você, me deixando ainda mais saudade.
Seu beijo tem o encaixe perfeito ao meu, e a sua voz cantando em meus ouvidos, arrepia cada parte do meu corpo, despertando os mais variados sentimentos.
Seu jeito poucas vezes tímido, e em todas as outras safado, me fascina! Quando você começa a dizer suas bobagens, que eu adoro, me faz sorrir com vontade. Aliás, você me faz rir a todo momento. É capaz de conseguir de mim o que ninguém um dia conseguiu. Você me faz tão bem... tão feliz... tão...

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Minha garota...

Quem nunca teve um acesso de romantismo e pensou em apelidos “carinhosos” para receber e também atribuir para a pessoa amada que atire a primeira pétala, que dizer... pedra. Confesso que hoje já não passo muito por essas crises sentimentais, coisa do tempo, algumas decepções aqui e ali e o realismo acaba tomando conta de tudo, muitas vezes até cedendo um breve espaço para o pessimismo!
Mas num flerte aqui, outro lá, eis que leio numa deliciosa troca de mensagens o “minha garota”. E... caramba! Que sensação gostosa! Primeiro por conta do pronome possessivo, que eu a-do-ro! Sem perceber sempre os emprego constantemente e, sim, gosto de me apossar de tudo! Gosto de dizer que é meu! Mas... de repente, ser algo de alguém foi tão mais importante. É tão bom quando o outro se apodera. É como um abraço apertado, um calor gostoso, uma sensação de proteção. Segundo, porque, sendo novamente realista, estou longe da “garota”, mas puxa... eu me senti assim. Não que me sinta velha, que a idade me preocupe, nada disso... estou muito bem comigo mesma e a maturidade que tenho hoje, mas me vi como uma adolescente e as intensidades dessa fase... apaixonada, enlouquecida, dramática!
Como algo tão simples, bobo até, que deve ter passado despercebido por quem escreveu, conseguiu mexer tanto comigo?! Talvez fosse meu desejo agora, e também de longa data, ser a garota de alguém... Ter alguém que se apoderasse de mim, que exercesse algum tipo de domínio... meio que 50 tons?!!! Sem todas aquelas extravagâncias desnecessárias, mas sim... exatamente isso... posse... dominação.
Bem, pelo visto, apelidos carinhosos (ou não) podem enfim revelar alguns desejos perdidos no íntimo de cada um... Eu não trocaria o “minha garota” por nenhum outro, é exatamente perfeito! E só de escrevê-lo, algumas coisas em mim despertam por aqui, imagine então quando ouvi-lo, bem no pé do ouvido... entre um abraço forte e um beijo inebriante... Uau!!!

Portas fechadas??? Pule a janela!!!

Às vezes a vida vai fechando portas, estrondos incessantes... a cada vez que você se aproxima e tenta atravessar para o outro lado, não dá, não consegue, a porta não abre! De repente você se sente sufocar, pensa ter encontrado uma fresta, se agarra à luz que vem dela, coloca ali toda a sua vida, todas as expectativas. Mas eis que, assim como um oásis num deserto, aquilo não passa de uma ilusão. Não há frestas, portas abertas, não há luz!
O medo se faz presente “e agora, o que fazer, que caminho seguir?”. Você não consegue ver um futuro, há um abismo logo à frente, e o nada... Mas, de repente, quando você não acreditava mais, quando já havia desistido de tudo e aceitado a sua vida ali, na escuridão, na clausura, um pequeno feixe de luz...
Você olha vacilante, já se enganou antes e não quer mais criar falsas expectativas. A luz vem do alto, você olha fixamente, reflete, hesita, se questiona. Mas... sim, é real! Ela brilha através de uma bela e enorme janela e é pra lá que você caminha, passos lentos, contidos, tentando não correr e se jogar em mais uma falsa esperança.
Enfim você a alcança, solta a trava que a mantinha fechada. E vê! Tem um mundo lá fora! Tanto tempo ali no escuro, na solidão, você até havia se esquecido que a vida pulsava lá fora, alegre, colorida, quente...
Agora é sair, pular, saltar para o mundo, a liberdade! Suas mãos se agarram aos batentes da janela, impulsionam e sustentam o corpo a subir. Por um instante você ainda observa o que está lá atrás, seu antigo escuro, a luz em sua frente brilha forte, amedronta, mas... é preciso se arriscar! E então você mergulha de cabeça nas possíveis aventuras que se descortinam bem ali. Dane-se o medo, os riscos, as inseguranças... A vida fechou as portas, mas você pulou a janela, e nada melhor do que não ser convencional, nada como vencer obstáculos. O mundo é seu e a vida te espera para vivê-la intensamente! Então... se joga!!!

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Vai!!!


E dizem por aí, que quando alguma lembrança machuca muito, um acontecimento que não dá pra esquecer, a falta de alguém, um sentimento que faz doer, é preciso tirar isso de dentro de si, porque essas dores ocupam muito espaço, e comprimem o coração. Como tirar? Conforme a lenda, escrevendo... Isso mesmo! Colocando no papel tudo o que está aí, preso dentro de você. Bem, isso nunca foi novidade pra mim... minhas tristezas ocupam muitos cadernos por aqui. A novidade foi que as letras também não podem permanecer por aí, escritas ocupando outros espaços, elas precisam seguir, voar, sumir... e aí, continua toda a história, acrescentando que essa tristeza, escrita num papel, deve ser queimada, consumida pelo fogo, de preferência ao vento, para que ele leve um pouco de tudo o que estava ali... nas cinzas, na fumaça... Pra quem tá por aí com o coração quase perdido em meio às angústias, é hora de fazer uma fogueira... abrir espaço para as alegrias, amenizar os sofrimentos. Para outros, com aquela dorzinha de sempre, insistente, que não quer abrir mão do seu lugar, uma folha qualquer serve... transfira para ela, saia por aí... encontre um bom lugar, uma janela alta, o telhado, em meio às árvores, numa rua qualquer... acenda o fogo, queime, mande pelos ares cada lágrima derramada, cada suspiro de dor, e quando a chama se apagar, acenda a do seu coração, faça sua alma brilhar, iluminar seus olhos, seus sorrisos. Não custa tentar... vamos incendiar as tristezas... e que o vento que as levar pra longe, traga dias mais leves, e espaços prontos para serem preenchidos com muito amor!!! Estamos muito precisando disso...
Eu agora, peguei aquela minha história... aquela que tá doendo faz um tempo... a que vem acompanhada por uma bela trilha sonora, e também repleta de impossibilidades. Não precisei escrever, ela já ocupava muitas folhas por aqui, as quais tantas vezes eu reli... buscando no papel um pouco do carinho que eu tanto desejava. Estão aqui, sobre a cama, me esperando... Daqui a alguns segundos, se você olhar da sua janela, vai notar a fumaça cinzenta, vai ouvir meu suspiro profundo, meus olhos vão arder... da fumaça, da dor, e de tudo o mais que eu guardei aqui dentro do meu coração pra esperar por aquele alguém. Não! Eu não vou ficar esperando, assim como a canção me disse pra fazer... Eu preciso de mais, eu mereço mais! E que amanhã, as cinzas também já tenham desaparecido e com elas cada lágrima derramada, cada segundo de espera, e todo esse louco amor sem sentido...

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

A outra - Clarissa Corrêa

Um dia seus olhares se cruzam. Você sente uma coisa que nunca sentiu. Seu coração acelera. Seu corpo arrepia. Seu olhar ilumina. Sua boca fica seca. Sua barriga sente um frio interminável. Borboletas dançam uma dança bonita no seu estômago. O mundo de repente para por um segundo. E você pensa oi, sorte.
Um dia sua boca encontra a dele. Seu corpo encontra abrigo. Sua mão acha a metade da laranja. Seu coração estremece. Não existe língua mais macia, braços mais seguros, pescoço mais cheiroso, voz mais deliciosa. Não existe nada igual. Você se sente linda, poderosa, nas nuvens. Você se sente como n-u-n-c-a sentiu. Ele pede seu telefone, você dá. E vocês marcam mais encontros e encontros. Ele pede um beijo, você dá. Ele pede atenção, você dá. Ele pede um sorriso, você dá. Você dá, você dá, você dá.
Um dia ele te deixa esperando feito pateta. Outro dia ele te deixa esperando feito pateta. Outro dia ele te deixa esperando feito pateta. Esses dias se repetem e você pensa cadê o começo de tudo? Cadê aquele gentil, amoroso, carinhoso, cadê aqueles olhos que me olhavam fundo? Então, ele não te deixa mais esperando e você pensa ufa, era uma fase. Até que ele volta a te deixar no pause. E você pensa tem algo errado ou é impressão minha? Você pressiona e ele diz sou casado, tenho namorada, tenho noiva, tenho uma ficante, tenho uma ex-mulher, tenho uma amante, tenho algum rolo, tenho alguma coisa. Em outras palavras: ele não é livre pra você.
Um dia você descobre as causas de tantas mentiras. De ter ficado esperando tantas vezes ao lado do telefone. E você junta uma coisa na outra: claro, era por isso que de vez em quando o celular ficava desligado, era por isso que eu não tinha o telefone da casa dele, era por isso que eu não sabia onde ele trabalhava exatamente, era por isso que nos finais de semana eu ficava sozinha e infeliz.
Um dia ele te conta tudo. Que o casamento vai mal. Que a namorada não trepa mais. Que a ficante pintou o cabelo de preto e ele se amarra em uma loira igual a você. Que ele só está com ela porque as crianças são pequenas. Que ele está esperando o divórcio sair. Que ela não trabalha e não tem dinheiro. Que ela não tem onde morar. Que as coisas estão mal. Que ele está com ela por pena. Que o pai dela é o chefe dele e ele precisa desesperadamente daquele emprego.
Um dia você fica sabendo onde ele mora. O telefone da casa e do escritório, o nome da mulher e das crianças. O presente que ele ganhou de casamento. O número que ela calça. E você vê as fotos. E você descobre as coisas. E você mobiliza as amigas detetives de plantão e levanta toda a ficha da outra, que no caso, é a mulher dele.
Um dia você decide que não quer mais essa vida. Que ele não vale um centavo. Que se quisesse mesmo separar já tinha separado. Que não dá pra esperar por quem não vem. Que ele não te valoriza. Que só quer sexo. Que só quer te contar os problemas. Que te usa como fuga. Que não passa o natal com você. Que seu ano novo foi triste e você nunca mais quer repetir essa dose. Que ele é um cretino.
Um dia você volta atrás. Ele te convence. Chora. Te pega de jeito. E você lembra que ninguém beija como ele, que ninguém abraça como ele, ninguém olha como ele, ninguém ri como ele, ninguém te come como ele, ninguém te enlouquece como ele. E você decide que ele é o homem da sua vida, afinal, se já sofreu tanto, se envolveu tanto, se ferrou tanto, meu Deus do céu, tem uma coisa muito boa guardada pra mim. Ninguém sofre tanto assim sem recompensa. Se vocês já passaram por tanta coisa juntos é porque o final vai ser feliz.
Um dia você reflete e analisa toda a história. Ninguém entra na vida do outro por acaso. Tudo tem motivo, a gente aprende com cada acontecimento. E você acredita de verdade que ele é o seu amor. E que ele um dia vai ser só seu. E que os finais de semana nunca mais serão solitários. E que seu amor não vai se resumir a duas ou três horas duas ou três vezes por semana. Que sua vida amorosa não vai se resumir a estar falando no telefone com ele e de repente ouvir um tu-tu-tu. Ele não vai mais precisar se esconder pra falar com você. Vocês vão poder sair de mãos dadas no meio da rua. Vão poder se abraçar. Ter filhos. Casar. Você vai poder viver esse amor com todas as forças. Você, que sonha com isso diariamente, vai poder ter uma casa com ele. Você sente lá no fundo do seu peito que ele é, mesmo, o homem certo.
Um dia você cansa das mentiras. E decide terminar de novo. E o tempo passa. Você bebe, fala mal do amor, se entope de carboidrato e chocolate, atormenta amigos gays dizendo que na próxima vida vai ser lésbica. E chora e decide ligar de um número desconhecido só pra ouvir a voz dele bem rapidinho, pois bateu saudade. E ouve e se derrete. E decide só passar bem rapidinho pela frente da casa dele pra ver se, por acaso, algo acontece. E bem na hora você vê ele saindo de casa bem abraçado com a mulher e de mãozinha dada com o filhote mais velho. E seu mundo se rasga. E você decide que é uma boa hora pra morrer.  Mas como você ama ele, perdoa. Volta atrás, apaga com uma borracha os momentos ruins, conversa com ele e os dois decidem começar do zero. Novas promessas, novos horizontes, novos planos. E você acredita e fica nesse círculo vicioso. Até que.
Um dia o tempo passa. E você se dá conta de que nunca vai ter de volta o tempo que perdeu com essa pessoa que, no fundo, nunca te quis.

Em : www.clarissacorrea.com.br

domingo, 29 de setembro de 2013

Te esperando...

         Quando a saudade deixou de ser apenas por conta da distância física, dos poucos quilômetros que nos separavam, e passou a ser também por conta da sua total ausência, por falta das suas mensagens, do seu “bom dia” e das respostas ao meu “bom dia” e às tantas declarações sutis de amor que eu ainda insistia em mandar... nesse momento eu tive a certeza de que estava realmente apaixonada, de que não era uma ilusão tola, uma brincadeira, apesar de nunca ter tratado a situação dessa forma. Eu estava tomada pelo amor. Em mim só havia você!
         E então, de repente, eu me vi perdida no mundo. Eu passei a me sentir só, uma solidão tão profunda, tão doída...
         Agora, eu abro os olhos de manhã e não quero me levantar, não quero enfrentar mais um dia sem você, convivendo com sua ausência, brigando com meus sentimentos, com minhas lágrimas. Não quero passar o dia e a noite checando o celular a cada segundo para ver se não há uma mensagem sua, perdida por ali, e quando não há, o que atualmente acontece em todas as vezes, eu insisto em acreditar que “esse celular está com problema”, ou “a operadora está sem serviço”, eu tento me enganar sempre! Isso sem contar as milhares de vezes em que me pego já começando a lhe escrever, ou ainda pronta para clicar no “ok” e enviar mais e mais frases de amor e saudade escritas sobre a imagem de um casal em uma linda paisagem. E então eu me censuro, eu apago, eu “cancelo”. Permaneço ali, celular na mão, olhos marejados, coração disparado...
         Ah, você não imagina o quanto isso é realmente forte, como esse amor me invadiu, se cravou no meu coração, e como tem me machucado, aberto antigas e novas feridas. Sem contar esse medo... medo de que sua ausência seja para sempre e eu não consiga mais conviver com ela. E um medo ainda maior porque sei que estou tão envolvida, que seria capaz de tudo por você! Eu abandonaria a minha vida pra fazer parte da sua. Eu desistiria de mim, para ter um pouquinho de você. E acontece que essa não sou eu! Eu queria entender o que você fez comigo... quando me roubou de mim?! E... eu ia dizer que gostaria de voltar no tempo pra fazer tudo diferente, pra fazer com que aquele único encontro não acontecesse... mas estaria mentindo. Mesmo sabendo das consequências eu não abriria mão de estar com você, mesmo que uma única vez e mesmo que essa única vez tenha me causado todo esse sofrimento, toda essa dor, tantas lágrimas, noites em claro e o desejo insistente de não acordar amanhã, pra não viver essa angústia da espera.
         E mesmo sabendo que provavelmente não estaremos juntos outra vez, eu continuarei a esperar... por sua atenção, por suas mensagens, sua voz, seu toque... por você!

domingo, 22 de setembro de 2013

Eu só queria que você soubesse...

E todos os dias eu peço pra você me deixar, sair de dentro do meu coração, abandonar os meus pensamentos, me tornar novamente vazia. Eu lutei tanto para que isso não acontecesse... mas eu perdi! Eu não estava preparada... eu não queria me apaixonar, eu precisava tanto de um longo tempo pra cuidar de mim, do meu vazio, da minha solidão. Eu precisava me amar de novo, para então amar um outro alguém.
Sabe... era pra ser como das outras vezes, só um encontro, algumas horas de diversão e depois disso, um ou outro “oi”, “bom dia!”, “td bem?”, em dias cada vez mais espaçados, até que pouco ou nada restasse na memória. Mas não... você foi se tornando mais presente a cada dia, você foi pedindo por mim, e eu fui me dando pra você, mesmo sabendo que era um grande erro. Não havia futuro para nós, não teria um amanhã com beijos, abraços e presença física. A sua história não se cruzaria mais com a minha. E mesmo sabendo de tudo isso eu fiz a grande besteira de te amar. E quando eu me entreguei totalmente à você, aos poucos você me mostrou que queria me devolver! Quando eu não imaginava mais os meus dias sem você, de repente, sem qualquer motivo, você passou a se ausentar deles. No seu lugar, as minhas lágrimas. No espaço reservado para suas mensagens, um abismo, a solidão que você havia arrancado de mim estava de volta.
E todos os dias, quando eu não te “leio”, eu perco o chão, o rumo e a vontade de enfrentar mais um dia. E todas as vezes que suas respostas não surgem, um pedaço de mim me abandona e eu já nem sei mais o que ainda resta. E essa tristeza que não escolhe a hora de doer e que me destrói sem piedade...
Eu me procuro novamente, mas em mim eu só encontro você! Eu peço...  “Me deixe! Me devolva!” Mas lá dentro, meu coração grita “Fica comigo! Eu não consigo mais sem você!”

sábado, 14 de setembro de 2013

O coração sente!!!

Diz o ditado que “o que os olhos não veem, o coração não sente”... e isso é uma mentira sem tamanho! O coração sente sim... Sente sem ver, sem tocar, sem ouvir, sente até sem sentir. Pro coração não é preciso imagem, som, cheiro, não é necessária presença física alguma. O coração ama! Ama sem razão, ama sem ver, ama quando não deve e quem não deve... ele tem essa tola mania de contrariar.
Na verdade, o que os olhos não veem, o coração sente ainda mais... sente o vazio, a saudade... Trava uma luta constante contra as lágrimas, contra a tristeza profunda e a vontade de simplesmente desaparecer. A cada dia que os olhos não veem, o coração sente doer ainda mais, e você se pergunta de onde vem tanto amor?!
Quando os olhos não veem, você tenta de todas as formas esquecer, mas por mais que eles não vejam, você já tem uma imagem gravada... na mente... no coração... na alma... E nada, absolutamente nada que você faça apaga essa imagem, nada afasta esse sentimento.
Você jura a si mesma que não vai ligar, não vai escrever, não vai pensar... e no fim você se sente exausta ao perceber que não adianta, você sempre perde! E então é conviver com a dor, a saudade... É guardar no peito tanto amor, e tentar não se sufocar, e tentar não se entregar, e simplesmente... tentar...

Eu te amo. Mesmo negando. Mesmo deixando você ir. Mesmo não te pedindo pra ficar. Mesmo não olhando mais nos teus olhos. Mesmo não ouvindo a tua voz. Mesmo não fazendo parte dos seus dias. Mesmo estando longe, eu te amo. E amo mesmo. Mesmo não sabendo amar.”
– Caio Fernando Abreu

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Eu quero amar!!!

Estávamos hoje em uma discussão fervorosa sobre o tema “amor”. É sempre assim quando se encontram alguns românticos com outros desiludidos realistas (estou no segundo grupo, rsrsrs). Falávamos, um amigo eu eu, os únicos do grupo 2, sobre a idealização que se faz do amor, sobre a magia que se cria... o homem ideal, a mulher perfeita, as almas gêmeas, o grande e único amor... E talvez seja por isso que sofremos tanto, esperando por algo que não existe e deixando de viver as coisas boas e reais, aguardando a magia acontecer. Mágico mesmo é deixar o coração livre e pronto para amar não uma vez, mas inúmeras vezes; o namoradinho da infância quando se tem tanta vergonha que nem os olhares se cruzam, na adolescência quando tudo é tão intenso e vivido em extremos... alegria demais ou tristeza demais. Longos namoros da juventude, quando um deles pode se tornar o companheiro da maturidade.
O ideal será realmente guardar todo o nosso amor para uma única pessoa? Isso realmente existe? Não consigo aceitar essa ilusão! Às vezes uma mesma panela pode ter várias tampas que lhe sirvam bem. É preciso abandonar certos idealismos, certos arquétipos criados e arraigados na sociedade. Para amar baste ter disposição! Disposição para doar esse amor e recebê-lo de volta, ou não! É um risco que se assume várias vezes durante a vida, e que vai nos levando a um maior amadurecimento emocional.
É bom amar alguém por uma noite apenas, um encontro, horas, minutos. Sim... abrir o coração naquele momento e sentir o que a ocasião tem a oferecer. Sabe quando você bate o olho em alguém na rua e pensa “uau!”, quando cruza olhares insistentes com aquela pessoa na balada, quando rola aquele papinho cheio de segundas intenções no chat? Sempre temos nesses instantes um sorriso no rosto e uma sensação gostosa que nos invade. E isso é amor? E por que não ser? Por que um sentimento tão lindo precisa vir tão carregado de comprometimentos, responsabilidades, cerimônias, rituais, pressão? Essa “coisa” pesada com certeza não é amor!
Se o Roberto Carlos queria ter um milhão de amigos, eu quero ter, além dos amigos, um milhão de amores... amores soltos, leves, alegres, que deixem saudade e sempre algo de bom! E assim como Florbela Espanca, com que tanto me identifico, através de seus belos poemas...
Amar!

“Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: Aqui... além...
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente
Amar! Amar! E não amar ninguém!

Recordar? Esquecer? Indiferente!...
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma Primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder... pra me encontrar...”

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Eu, modo de usar - Martha Medeiros


Para o novo, que está me flertando, quero dizer, que pode invadir ou chegar com delicadeza, mas não tão devagar que me faça dormir. Não grite comigo, tenho o péssimo hábito de revidar. Acordo pela manhã com ótimo humor mas … permita que eu escove os dentes primeiro.

Toque muito em mim, principalmente nos cabelos e minta sobre minha nocauteante beleza. Tenho vida própria, me faça sentir saudades, conte algumas coisas que me façam rir, mas não conte piadas e nem seja preconceituoso, não perca tempo, cultivando este tipo de herança de seus pais.
Viaje antes de me conhecer, sofra antes de mim para reconhecer-me um porto, um albergue da juventude. Eu saio em conta, você não gastará muito comigo. Acredite nas verdades que digo e também nas mentiras, elas serão raras e sempre por uma boa causa.
Respeite meu choro, me deixe sozinha, só volte quando eu chamar e, não me obedeça sempre que eu também gosto de ser contrariada. ( Então fique comigo quando eu chorar, combinado?).

Seja mais forte que eu e menos altruísta! Não se vista tão bem… gosto de camisa para fora da calça, gosto de braços, gosto de pernas e muito de pescoço. Reverenciarei tudo em você que estiver a meu gosto: boca, cabelos, os pelos do peito e um joelho esfolado, você tem que se esfolar as vezes, mesmo na sua idade.
Leia, escolha seus próprios livros, releia-os. Odeie a vida doméstica e os agitos noturnos. Seja um pouco caseiro e um pouco da vida, não de boate que isto é coisa de gente triste. Não seja escravo da televisão, nem xiita contra.
Nem escravo meu, nem filho meu, nem meu pai. Escolha um papel para você que ainda não tenha sido preenchido e o invente muitas vezes.

Me enlouqueça uma vez por mês mas, me faça uma louca boa, uma louca que ache graça em tudo que rime com louca: loba, boba, rouca, boca …
Goste de música e de sexo. Goste de um esporte não muito banal. Não invente de querer muitos filhos, me carregar pra a missa, apresentar sua familia… isso a gente vê depois … se calhar …
Deixa eu dirigir o seu carro, que você adora. Quero ver você nervoso, inquieto, olhe para outras mulheres, tenha amigos e digam muitas bobagens juntos. Não me conte seus segredos … me faça massagem nas costas. Não fume, beba, chore, eleja algumas contravenções. Me rapte!

Se nada disso funcionar … experimente me amar.

 

sexta-feira, 7 de junho de 2013

O príncipe moderno


Sim... os príncipes existem!!! Não aqueles dos antigos contos de fadas, que levavam cem anos para enfim beijar a bela donzela, já petrificada de tanto esperar na cama da torre mais alta de um castelo. Nem mesmo o que chegou depois da mordida na maçã, e menos ainda aquele que permitiu a fuga da doce princesa, nas badaladas da meia noite, fazendo a coitada, inclusive, perder o sapatinho de cristal.
Hoje em dia, os príncipes não precisam atravessar vales e montanhas, cavalgando e enfrentando perigos, o automóvel é muito mais prático e rápido, além de muito mais confortável. Também não vem envoltos naquelas roupas tão deselegantes; calça legging e botas passaram para o vestuário feminino. No lugar da espada, uma boa garrafa de vinho.
Afinal, atualmente, as mulheres também não se deixam enganar por suas madrastas ou por qualquer bruxa que ande por aí, não ficam em casa limpando e cozinhando para os sete anões e nem perdendo anos de suas vidas em um sono profundo, de cem anos, por conta de uma roca idiota e retrógada. Hoje, as princesas saem para trabalhar, estão por aí na noite, curtindo uma balada, são independentes e não precisam do beijo de determinado príncipe para seguir a vida. Apesar de todas essas mudanças, alguma coisa ainda permanece. Sim... por mais que nós, mulheres, não gostamos de admitir, é fantástico receber certos mimos de um príncipe moderno, aquele belo homem alto, enorme, cabelos sedosos, olhos brilhantes (perdão por expor minhas preferências, mas sou uma mignon que adora um modelo king size), que consegue ao mesmo tempo ter aquela pegada, e também um lado romântico e carinhoso. Tudo bem que é querer demais! Não há muitos por aí, infelizmente, pois se fossem a maioria, viríamos mais mulheres radiantes flutuando por aí.

O certo é que, com o novo estilo feminino de vida, isso faz falta. Se dividir entre o trabalho, a casa, filhos, parentes, amigos, ufa! Realmente não tem sido fácil... e também é preciso pensar na saúde, no corpo, ter uma alimentação controlada, fazer exercícios físicos, unha, cabelo, depilação em dia, pele viçosa e ainda tem que sobrar um tempinho para a diversão, o amor, as paixões, que ninguém é de ferro! Com tudo isso, encontrar em um único exemplar todas as características acima é sorte rara, muito mais difícil que acertar os números da mega sena. E é por isso, que para muitas, não passa de um mito, até que um belo dia... pelas curvas da vida, você se depara com ele. O príncipe moderno tem atitude, coisa que também está em falta por aí, sabe tomar iniciativa sem se abalar com a independência feminina. Também tem o beijo perfeito, aquele que você não quer que termine nunca... ficaria todas as faixas de um CD beijando e ainda colocaria no modo repeat. O seu príncipe moderno tem os braços perfeitos para que você se encaixe ali dentro e sinta-se protegida, como se nada mais existisse fora daquele aconchego. Ele te aquece nas noites de frio como nenhum cobertor seria capaz, faz aquele cafuné gostoso, suas mãos e boca causam arrepios quando tocam em qualquer parte do seu corpo, o que te deixa intrigada pensando em como ele consegue fazer isso. Além de tudo, vez ou outra, tem aquelas atitudes românticas, que hoje se tornaram até engraçadas de se ver, como abrir a porta do carro para você entrar (claro, com aquele sorriso besta, custando a admitir que adorou!), dar a mão para te ajudar em algo, como... sair da banheira de hidromassagem... (vamos ser realistas, não será para atravessar uma poça de água da chuva, e é muito melhor assim!). Quem sabe, em dias especiais, não cozinhe algo para você ou mesmo traga o jantar pronto, depois de lhe enviar aquela mensagem dizendo “o jantar hoje é por minha conta”. Talvez esteja lhe aguardando com duas taças para tomar aquele vinho que substituiu a espada (que boa troca!). E, mais que tudo isso, o seu príncipe lhe fará se sentir uma princesa, a mais bela, e às vezes a mais frágil, só para cuidar de você, se esquecendo por alguns instantes que você talvez seja mais forte que ele.

É difícil admitir, mas quem não gostaria de encontrar um príncipe desses por aí e se sentir a princesa do castelo? Não para furar o dedo na roca e dormir, nem para morder a maçã envenenada ou perder os sapatos correndo à meia noite, mas simplesmente por ter a possibilidade de alguns minutos de fragilidade nos braços do seu “salvador”.
E mesmo que ele não venha na sua imponente carruagem, ou no seu forte e magnífico cavalo branco, talvez de repente, você encontre uma flor, dessas roubada por aí, deixada no vidro do seu carro, ou na porta da sua casa, e vai tentar novamente esconder a alegria que isso lhe trouxe e a vontade de se beliscar pra ver se não é mesmo um sonho, se você não caiu em um conto de fadas por acaso!

Se você já esbarrou com um príncipe assim por aí, sabe bem do que estou falando, mas se ainda não teve esse prazer, não se desespere! Mas também não vá ficar trancada na torre mais alta do castelo, esperando por um beijo mágico. A magia está em viver, e a vida está do lado de fora, assim como o seu príncipe. Portanto, calce seus sapatinhos (que não precisam ser de cristal), pegue sua própria maçã (é saudável e faz bem para a voz, coisa de professora), faça um belo corte nos cabelos (nada de estilo Rapunzel) e vá para os bailes da vida. Dance, divirta-se e quem sabe o seu exemplar de príncipe, aquele que é o seu tamanho e se encaixa perfeitamente em você, esteja por aí, só aguardando para dar-lhe um doce beijo, que indica o final do conto na ficção, mas que na realidade é apenas o começo de tudo... porque “felizes para sempre” é tempo demais, futuro demais, e a felicidade nem sempre é perpétua e sim fugaz, portanto aproveite os momento mágicos do seu conto, da sua vida, mesmo que seu encontro com o príncipe não dure mais que algumas horas... o encanto nunca acabará!

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Mulher balzaquiana


E um belo dia você acorda balzaquiana (me diverti pensando no que aqueles que não conhecem o termo poderiam imaginar). Não tenho dúvidas que pra toda mulher é um marco! Valsa de quinze anos, habilitação aos dezoito, independência total aos 21... isso não é nada! Naquele dia em que você acordou 30, parece que iniciou uma nova vida. Primeiro pelos quilos a mais... dá a sensação de que eles estavam esperando a meia noite da virada dos 29 para os 30 para se infiltrarem... 80% claro, na barriga! Depois aquela sensação de “Quem sou eu?, Quem eu era?, No que me transformei?”
Apesar de ser a mesma diferença numérica, parece que os 20 da juventude estão muito, muito distantes, e os 40 da grande maturidade logo ali!
O lema que passa a reger as horas de uma mulher de 30 é o “foda-se!”, e a cada ano nessa dezena, ele se intensifica mais. Ciúmes doentios deixam de existir. Sair com um cara só pra fazer sexo (e não amor!) deixa de ser um total absurdo. E não ligar no dia seguinte passa a ser um alívio. Nos 30 a gente descobre que não era bem quem pensava que fosse. Que pode gostar de outras coisas e detestar o que, até então, acreditava  gostar.

Experimentar!!! Tudo... tudo o que der vontade, desde novas bebidas, comidas, companhias, músicas... São tantas vidas em uma só! Às vezes a gente até se perde, tentando se encontrar. São tantos caminhos... que vão dar em tão diferentes destinos. Mas que destino? Pra que pensar nisso? No ponto do 30, tudo é conjugado no presente, não sobra muito tempo pro passado, que quase já foi completamente esquecido... e nem pro futuro, que insiste em bater na porta, sem ninguém pra abrir.
Coisas novas chovem aos litros, muitas delas boas, outras nem tanto. Mas não há tempo para lamentações, nem vontade e paciência para perder tempo com isso.
Aos 30 o sol brilha mais, a lua é muito mais bela, as estrelas são pontos perfeitos de luz, cada nuvem parece de novo um floquinho de algodão, assim como na infância. Tudo parece tão bonito e isso provavelmente pela leveza que se passa a ter. Vestidos esvoaçantes adornam perfeitamente uma mulher de trinta, um gloss nos lábios, a redescoberta... Uma nova mulher nasce ali, ou talvez o termo adequado seja uma mulher “de verdade”, forte, decidida, sem medo de encarar a vida de frente com tudo o que ela tem pra oferecer.

É bem assim... tudo isso, ou só isso. A mulher balzaquiana é acima de tudo livre, não se permite prender, precisa bater suas asas, precisa de voos intensos. E nessa liberdade, vai realizando seus sonhos, que por tanto tempo permaneceram guardados, e vai sonhando outros... vai deixando as amarras de um casulo que se formou novamente em volta de si, vai se tornando de novo a mais colorida e bela das borboletas... E agora, vou também voar, meu casulo já se rompeu, e minhas asas pedem pelo vento, pelo azul do céu, pelo brilho do sol... Voe também... o infinito te espera!!!

domingo, 2 de junho de 2013

Uma mulher entre parênteses - Martha Medeiros


Era como ela catalogava as pessoas: através dos sinais de pontuação. Irritava-se com as amigas que terminavam as frases com reticências... Eram mulheres que nunca definiam suas opiniões, que davam a entender que poderiam mudar de ideia dali a dois segundos e que abusavam da melancolia. Por outro lado, tampouco se sentia à vontade com as mulheres em estado constante de exclamação. Tudo nelas causava impacto!! Consideravam-se mais importantes do que as outras!! Ela, não. Ela era mais discreta. A mais discreta de todas.

Também não era do tipo mulher dois pontos: aquela que está sempre prestes a dizer uma verdade inquestionável, que merece destaque. Também não era daquelas perguntadeiras xaropes que não acreditam no que ouvem, não acreditam no que veem e estão sempre querendo conferir se os outros possuem as mesmas dúvidas: será, será, será? Ela possuía suas interrogações, claro, mas não as expunha.

Era uma mulher entre parênteses.

Fazia parte do universo, mas vivia isolada em seus próprios pensamentos e emoções.

Era como se ela fosse um sussurro, um segredo. Como uma amante que não pode ser exibida à luz do dia. Às vezes, sentia um certo incômodo com a situação, parecia que estava sendo discriminada, que não deveria interagir com o restante das pessoas por possuir algum vírus contagioso. Outras vezes, avaliava sua situação com olhos mais românticos e concluía que tudo não passava de proteção. Ela era tão especial que seria uma temeridade misturar-se com mulheres óbvias e transparentes em excesso. A mulher entre parênteses tinha algo a dizer, mas jamais aos gritos, jamais com ênfase, jamais invocando uma reação. Ela havia sido adestrada para falar para dentro, apenas consigo mesma.

Tudo muito elegante.

Aos poucos, no entanto, ela passou a perceber que viver entre parênteses começava a sufocá-la. Ela mantinha suas verdades (e suas fantasias) numa redoma, e isso a livrava de uma existência vulgar, mas que graça tinha? Resolveu um dia comentar sobre o assunto com o marido, que achou muito estranho ela reivindicar mais liberdade de expressão. Ora, manter-se entre parênteses era um charmoso confinamento. “Minha linda, você é uma mulher que guarda a sua alma.”

Um dia ela acordou e descobriu que não queria mais guardar a sua alma. Não queria mais ser um esclarecimento oculto. Ela queria fazer parte da confusão.

“Mas, minha linda...”

E não quis mais, também, aquele homem entre aspas.

 

sábado, 25 de maio de 2013

Sábado não combina com saudade


Hoje é sábado (...) e justamente hoje, a saudade decidiu vir bater à porta do meu quarto para me acordar. Chegou de forma sorrateira, acordou-me e não me deixou mais. O sol está brilhando lá fora e a saudade está aqui; queimando meu peito. Mas hoje é sábado. O dia mais esperado da semana. Sábado não é dia de sentir saudade. Não combina de jeito nenhum.
Sábado é dia de muita coisa: de praia com os amigos; de tomar cerveja bem gelada; de comer caranguejo e lamber os dedos. De comer ginga com tapioca. De ver o sol se por na Ponta do Morcego. Sábado é dia de andar descalça pela praia, enquanto as ondas beijam meus pés. É dia de acordar tarde; de fazer compras; de ir ao cabeleireiro; andar despreocupadamente, sem se importar com o relógio. Decididamente, sábado não é dia de sentir saudade.
É dia de fazer faxina: na casa e na alma. É dia de ir à livraria e procurar aquele livro especial; ir ao caixa eletrônico e consultar o saldo bancário; dia de pagar contas e acertar as contas; fazer a feira do mês; ir à feira do Alecrim comprar frutas e verduras; sábado é dia de comprar CD e DVD; assistir filme depois do almoço; dormir sem hora para acordar. É dia de manicura e pedicura. De cuidar de unha encravada.

Dia de fazer trabalhos escolares; de revisar matérias; corrigir provas; de arrumar os livros na estante; arrumar as gavetas, os armários e as despensas. É dia de arrumar os pensamentos; lavar as roupas; os cabelos; as sandálias e o tênis. Mandar os cachorros para o banho, tosa e depois levá-los para caminhar na praça. Decididamente, sábado com saudade não combina.
É um dia ideal para curtir cultura inútil: assistir Luciano Huck e Rodrigo Faro na TV; ler Contigo e Tititi. Dia de tomar banho de bica, de piscina ou de cachoeira. É dia de visitar amigos queridos; de dirigir sem um lugar definido para chegar; de se perder em pensamentos; é dia de fazer planos: de viagens; de férias; de aula. Planos para o futuro.
Sábado é dia de boemia. De juntar amigos para uma cantoria, numa folia ou simplesmente para jogar conversa fora. É dia de fofocar, contar piada. Dia de alegria, churrasco ou feijoada. Dia de bom humor; é proibido estresse no trânsito e preocupação com a hora. Afinal, sábado não é dia de trabalhar. É dia de “malandrar”. Não é dia de bater ponto. Portanto, sábado não é dia para a saudade.

Dia de fazer juramento, portanto, somente hoje não me aborrecerei; não me preocuparei; serei gentil e amável com todas as formas de vida; trabalharei duro e honestamente; agradecerei por todas as bênçãos recebidas. Sábado é dia de cuidar do espírito; rezar para Nossa Senhora e para o anjo da guarda.
É dia de banhos demorados; de cuidar do corpo, com óleos, cremes e hidratantes perfumados; ficar cheirosa, dengosa, sentir-se estrela. Vestir roupa nova. Sábado é dia de se atrasar: perder a hora de acordar, a hora do café, do almoço e do jantar. Dia de esquecer o relógio num canto qualquer. Ora, sábado não é dia de compromissos formais. Isto significa que não é dia para sentir saudade.

Sábado é dia de agitar-se; correr na esteira, na praia ou na academia. Sair para pedalar, nadar, badalar, se mostrar, ou simplesmente para “biritar”. É dia de passear no shopping; marcar encontro com as amigas na cafeteria; comer pizza com guaraná; camarão com vinho tinto só pra variar. É dia de ler jornais e revistas para se informar, ou apenas ler gibis, voltar a ser criança e se divertir.
Mas, a saudade que me acordou neste sábado, tem nome e sobrenome; identidade e CPF; endereço fixo e profissão; conta bancária, cartão de crédito; certidão de nascimento; carrão da hora... Porém descobri a duras penas, que a saudade, assim como a raiva, o ressentimento, a mágoa, a tristeza, o medo e o desejo de vingança, passa; tudo vira cinza; tudo é transformado em pó; tudo fica para trás. Enfim, tudo é esquecido. Saudade, na minha vida não há mais lugar pra você. Vade retro; xô, passa fora. Vai embora e deixa-me viver...

- Nadja Lira 27/04/2013

sexta-feira, 24 de maio de 2013


Tomara
Que você volte depressa
Que você não se despeça
Nunca mais do meu carinho
E chore, se arrependa
E pense muito
Que é melhor se sofrer junto
Que viver feliz sozinho

Tomara
Que a tristeza te convença
Que a saudade não compensa
E que a ausência não dá paz
E o verdadeiro amor de quem se ama
Tece a mesma antiga trama
Que não se desfaz

E a coisa mais divina
Que há no mundo
É viver cada segundo
Como nunca mais.

                Vinícius de Moraes

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Uma fábula sobre a fábula


 
Allah Hu Akbar! Allah Hu Akbar!

Deus criou a mulher e junto com ela criou a fantasia. Foi assim que uma vez a Verdade desejou conhecer um palácio por dentro e es­colheu o mais suntuoso de todos, onde vivia o grande sultão Haroun Al-Raschid. Vestiu seu corpo apenas com um véu transparente e pou­co depois chegou à porta do magnífico palácio. Assim que o guarda apa­receu e viu aquela bela mulher sem nenhuma roupa, ficou desconcer­tado e perguntou quem ela era. E a Verdade respondeu com firmeza:
- Eu sou a Verdade e desejo encontrar-me com seu senhor, o sul­tão Haroun Al-Raschid.
O guarda entrou e foi falar com o grão-vizir. Inclinando-se diante dele, disse:
- Senhor, lá fora está uma mulher pedindo para falar com nosso sultão, mas ela só traz um véu completamente transparente cobrindo seu corpo.
- Quem é essa mulher? - perguntou o grão-vizir com viva curiosi­dade.
- Ela disse que se chama Verdade, senhor - respondeu o guarda. O grão-vizir arregalou os olhos e quase gaguejou:
- O quê? A Verdade em nosso palácio? De jeito nenhum, isso eu não posso permitir. Imagine o que ia ser de mim e de todos aqui se a Verdade aparecesse diante de nós? Estaríamos todos perdidos, sem ex­ceção. Pode mandar essa mulher embora, imediatamente.
O guarda voltou e transmitiu à Verdade a resposta do seu superior. A Verdade teve que ir embora, muito triste.
Acontece que...
Deus criou a mulher e junto com ela criou a teimosia. A Verdade não se deu por vencida e foi procurar roupas para vestir. Cobriu-se dos pés à cabeça com peles grosseiras, deixando apenas o rosto de fora e foi direto, é claro, para o palácio do sultão Haroun Al-Raschid.
Quando o chefe da guarda abriu a porta e encontrou aquela mu­lher tão horrivelmente vestida, perguntou seu nome e o que ela queria.
Com voz severa ela respondeu:
- Sou a Acusação e exijo uma audiência com o grande senhor des­te palácio.
Lá se foi o guarda falar com o grão-vizir e, ajoelhando-se diante de­le, disse:
- Senhor, uma estranha mulher envolvida em vestes malcheiro­sas deseja falar com nosso sultão.
- Como é que ela se chama? - perguntou o grão-vizir.
- O nome dela é Acusação, Excelência.
O grão-vizir começou a tremer, morto de medo:
- Nem pensar. Já imaginou o que seria de mim, de todos aqui, se a Acusação entrasse nesse palácio? Estaríamos todos perdidos, sem exceção. Mande essa mulher embora imediatamente.
Outra vez a Verdade virou as costas e se foi tristemente pelo cami­nho. Ainda dessa vez ela não se deu por vencida.
E isso porque...
Deus criou a mulher e junto com ela criou o capricho.
A Verdade buscou pelo mundo as vestes mais lindas que pôde en­contrar: veludos e brocados, bordados com fios de todas as cores do arco-íris. Enfeitou-se com magníficos colares de pedras preciosas, anéis, brincos e pulseiras do mais fino ouro e perfumou-se com essência de rosas. Cobriu o rosto com um véu bordado de fios de seda dourados e prateados e voltou, é claro, ao palácio do sultão Haroun Al-Raschid.
Quando o chefe da guarda viu aquela mulher deslumbrante como a Lua, perguntou quem ela era.
E ela respondeu, com voz doce e melodiosa:
- Eu sou a Fábula e gostaria muito de encontrar-me, se possível, com o sultão deste palácio.
O chefe da guarda foi correndo falar com o grão-vizir, até esque­ceu de ajoelhar-se diante dele e foi logo dizendo:
- Senhor, está lá fora uma mulher tão linda, mas tão linda, que mais parece uma rainha. Ela deseja falar com nosso sultão.
Os olhos do grão-vizir brilharam:
- Como é que ela se chama?
- Se entendi bem, senhor, o nome dela é Fábula.
- O quê? - disse o grão-vizir, completamente encantado. – A Fábula quer entrar em nosso palácio? Mas que grande notícia! Para que ela seja recebida como merece, ordeno que cem escravas a espe­rem com presentes magníficos, flores perfumadas, danças e músicas festivas.
As portas do grande palácio de Bagdá se abriram graciosamente, e por elas finalmente a bela andarilha foi convidada a passar.
Foi desse modo que a Verdade, vestida de Fábula, conseguiu conhe­cer um grande palácio e encontrar-se com Haroun Al-Raschid, o mais fabuloso sultão de todos os tempos.

Regina Machado
 

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Nas curvas da vida...


E a vida vai dando suas voltas e a gente rodopia junto. Uma vez cá, outra vez lá, escapando pelas curvas, voltando para o caminho, escolhendo novos destinos, novas estradas, alguns atalhos, o caminho mais longo, misterioso... louco! Não há um percurso certo, não tem como ligar o GPS e indicar um destino, pois este ainda não existe, ninguém tem certeza absoluta de onde vai estar daqui a algum tempo e isso é o fantástico da vida! Não se ver obrigado a seguir as placas... Analisar as opções ou seguir por instinto e assim, sinuosamente, avançar... devagar ou correndo... em linha reta ou escolhendo as curvas... sem pesos extras, só mesmo o essencial. Gastar os sapatos, afrouxar os cadarços, encontrar surpresas, se desfazer do que já não serve mais. Dançar, cantar, sorrir pelo caminho, chorar se isso deixar a alma mais leve. Colher as flores dos que as deixaram plantadas pelo caminho... jogar as sementes para que novas flores alegrem os próximos viajantes.

Rodopiar, voar, sonhar, amar, se deixar levar...

A vida é deliciosa, saboreie sem moderação!!!

domingo, 12 de maio de 2013

Mãe...


“Deus não pode estar em todos os lugares e por isso fez as mães.”

                                                                                                                                            Ditado judaico

sexta-feira, 10 de maio de 2013

O meu professor de Literatura - Cláudia Lage


Às vezes, eu costumava matar aula no colégio para ir ao cinema, outras vezes, vejam só, para ir à biblioteca da escola mesmo. Foi estranho quando, um dia, o meu professor de literatura da época me encontrou numa dessas vezes entre as estantes, procurando um livro. Naquela hora, na minha turma, era a aula dele. Por algum motivo, ele precisou deixar a sala e ir à biblioteca rapidamente. Teve um espanto ao me ver ali. Não sei se porque eu matava a sua aula, ou porque fazia isso na biblioteca, com um livro nas mãos. Ele me olhava e olhava o livro. Ia e voltava com os olhos, perplexo. Eu não soube, por um instante, se devia justificar a minha ausência na sala ou o fato de ter escolhido um lugar cheio de livros para faltar à aula de literatura. Quando enfim comecei a gaguejar alguma coisa, ele se afastou, transtornado, e saiu, mas não antes de olhar mais uma vez o livro que eu tinha nas mãos, com evidente ressentimento.
Eu havia cometido algum delito grave para aquele professor. O fundo em meu estômago dizia isso. Não podia ser só a aula. Outros alunos também a matavam de vez em quando, e ele depois lhes chamava a atenção com uma seriedade divertida e irônica. Nada de perplexidades constrangidas. Olhares graves e ressentidos. Aquela reação perturbadora ele havia reservado apenas para mim. Mas, tampouco, devia ser a biblioteca, ou era? O livro suava em minhas mãos, assumindo talvez a culpa. Levei-o para casa, apertando-o em meu peito. Éramos cúmplices, nós dois, de um ato horrível e misterioso contra o professor. Naquela noite, tive pesadelos. Os olhos do professor tomavam inteiramente o seu rosto, e me enfrentavam indignados e ofendidos.

Na aula seguinte, tentei me comportar da melhor maneira possível. Não passei o tempo olhando para a janela, como costumava fazer, em busca de um horizonte qualquer. Nem me distraí com rabiscos, desenhos e frases inúteis no caderno. Fixava o professor com atenção exagerada, tentando absorver e compreender tudo o que ele dizia sobre o estilo de época Arcadismo, anotando bucolismo e pastoralismo com caligrafia exemplar, e assentindo com a cabeça toda a vez que seus olhos passavam por mim e não me viam. Ao contrário do meu pesadelo, o professor não me olhava mais. Era dessa forma retraída que ele lidava com o ressentimento. Eu, por outro lado, assumia todas as culpas na medida em que ele silenciosamente me acusava. No corredor, evitava cruzar comigo, e se me via no pátio lendo um livro, como eu gostava de fazer, mudava de direção como se estivesse diante de um obstáculo intransponível. Era sempre à noite, na escuridão da insônia, que eu ruminava as atitudes do professor e repassava a matéria. Romantismo: nacionalismo, exaltação do eu. Realismo: racionalismo, crítica social. Não sei por que, naquele dia, eu achei que ele tremera um pouco durante a aula, a voz rasgando a garganta, ao dizer, crítica social.
Semanas depois, eu percebi: o professor não fazia mais a barba, engordava, e, como se não tivesse mais nada a fazer, envelhecia. Se antes não era alegre nem triste, agora não era, simplesmente. Entrava na sala de aula resignado, dizia algumas coisas, escrevia outras, para depois desaparecer. A sua apatia era tão grande que um dia ele deve ter se esquecido que sua presença era aguardada e realmente desapareceu. “Viajou”, explicou a diretora, como se o fato de alguém ir de um lugar para o outro explicasse tudo. E assim os anos se passaram sem notícias do professor.

Nos encontramos anos depois, por acaso, numa livraria. Eu a frequentava sempre, e não sabia que, desde que entrei pela primeira vez ali, era observada pelo professor. Já sentia o livro suando em minhas mãos, quando ele me cumprimentou, perguntando se eu era eu, a sua aluna. Sim, confirmei. Ele me olhava e olhava o livro, como nosso constrangido encontro na biblioteca da escola. De repente, me abraçou, com uma gratidão que eu não pude entender. Mas, em seguida, o professor foi de uma claridade imprevista, de fechar os olhos. Uma de suas alegrias era me ver ali em sua livraria, ele disse. E sorriu, confirmando, sim, sou livreiro. E pegando um livro, levou-o ao peito. A capa sobre o coração, enquanto ele confirmava a satisfação de ver que eu continuava a gostar de ler, apesar de suas aulas. Aquele dia na biblioteca ressurgiu então entre nós. Me ver matar a aula de literatura para ler foi a gota d’água para o professor. Havia passado a noite anterior preparando uma aula de literatura, elencando, não poetas e escritores, seus textos e suas poesias, mas características, datas e nomes que os alunos não podiam deixar de saber, porque ia cair na prova, porque estava no currículo do semestre. Às vezes, conseguia uma aula ou outra para os textos, mas era pouco, muito pouco. Até me ver na biblioteca, o professor me julgava uma aluna desinteressada e desinteressante, daquelas que não se avista o futuro. Não me imaginava abrindo um livro, como podia supor que eu era uma leitora? Mas eu era, e, para ele, havia sido como um marido, que sempre considerara a esposa frígida, descobrir que ela tem um amante. Eu, que já tinha idade e altura para sorrir dessa imagem, sorri, profundamente feliz. O professor abraçava o livro, apaixonado. Contou que um dia, se levantou da cama, se arrumou para ir trabalhar, saiu de casa, mas, em vez de ir à escola, foi para uma livraria. No dia seguinte, pediu demissão. Juntou dinheiro, conseguiu um empréstimo e abriu uma pequena livraria, que se expandira em outras. “Eu queria estar perto dos livros”, explicou. “Antes, eu achava que podia ser professor de literatura impunemente”, disse. O professor entrara na escola cheio de esperanças de mudar o modo em que é feito o ensino da literatura, de driblar, dia a dia, o sistema. Mas foi ao contrário, era o sistema que estava, pouco a pouco, mudando o professor, encurralando-o numa sala escura. “Até te ver na biblioteca, eu não tinha a real consciência da dimensão do que eu fazia. A cada aula, eu matava um livro. A cada aula, um leitor morria.”