Sempre
surgem para aqueles que já foram casados ou viveram com alguém por um tempo
algumas brincadeiras relacionadas ao assunto... “hummm vai casar de novo”,
“gato escaldado tem medo de água fria”, “aprendeu a lição né?”, “insistir no
erro é burrice”, “já pagou os pecados nessa vida” e por aí vai. Nós que já
passamos por um relacionamento assim que por motivos adversos chegou ao fim,
acreditamos que realmente é “um pouco impossível” entrar nessa outra vez.
Relacionamentos
não são coisas fáceis, não na maioria. Vez ou outra conhecemos casais raros em
que a vida conjunta flui tão em harmonia, cada um carregando partes iguais
dessa partilha. Mas, para mim, e posso estar enganada, sinto que há muitos que
carregam um peso bem maior, chegando em um momento em que a força se esvai.
Como
mulher ainda sinto, e muito, as regras das construções sociais dos
relacionamentos na época de minhas avós e mãe. Não sei o que falta para que a
mudança ocorrida em alguns raros se torne a mudança de todos. Não sei se falta
maturidade e que talvez homens mais velhos estejam mais “dispostos” a partilhar
a rotina de um relacionamento, não conheço muito o universo dos “mais velhos”.
Não sei se falta vivência para que cada um saiba que em alguns dias, trabalhar
o dia todo, chegar em casa e ainda ter que se preocupar com os afazeres da casa
é exaustivo. Talvez as mães que desejam para seus filhos um bom relacionamento
devessem auxiliar um pouco aí e não acostumar os filhos a ter tudo sempre
pronto e acreditando que deve ser sempre assim. Em tempos modernos e tão
difíceis tornou-se necessário que todos tenham um trabalho com renda para
conseguir sobreviver. Como já escrevi outras vezes, muitas mulheres precisaram
sair para o mundo do trabalho, o que era socialmente visto como função do
homem. Então, onde formos hoje em dia, lojas, empresas, repartições públicas e
tudo o mais, veremos mulheres trabalhando e isso não despertará a nossa atenção
e espanto pois já se tornou corriqueiro, necessário, rotina. Porém, todas as
vezes em que vemos um homem limpando a casa por exemplo, passando roupas ou
cozinhando, achamos “bonitinho” e damos parabéns por ser esse exemplar raro.
Por que tanta resistência? Por que tanta dificuldade em entender que é preciso
mudar isso?
Eu
não tive relacionamentos de partilha por igual. Tive parceiros filhos de mães
que sempre fizeram de tudo. Nenhum sabia o que era preparar um almoço, colocar
as roupas na máquina de lavar, passar um “paninho” no chão. Nenhum sabia o quão
difícil era pensar todos os dias no que fazer pra comer, almoço e jantar, o que
tinha em casa e o que era preciso comprar no mercado. Nos dias em que eu estava
absurdamente cansada não ouvi um “vai pra casa descansar que eu vou
fazer/comprar algo para comermos”, “vais assistir TV e relaxar que eu coloco a
roupa na máquina”. Ao contrário, estar cansada significava aguentar o outro de
cara feia porque, sabe-se lá por qual razão, eu não tinha esse direito. Nunca
recebi uma mensagem perguntando se “precisa de algo pra hoje?” ou mesmo com
atitude, coisa tão em falta, num “estou levando uma pizza, não se preocupe com
nada hoje”. Afinal, eu também quero me afundar na cama ou sofá depois de um dia
de trabalho e não ter mais absolutamente nada pra fazer. Não é possível que as
pessoas ainda não perceberam que isso é necessário, que não é ajuda não, faz
parte do dia a dia de quem se propôs a ter uma vida a dois, seja namoro, seja
casamento, seja lá o que for.
Por
isso, somos sim o gato escaldado! Por isso tantas pessoas depois de um
“casamento” prometem nunca mais embarcar nessa outra vez. É difícil, mas não me
parece impossível. Não totalmente desacreditada, desejo e quero crer que assim
como as mulheres se adaptaram às novas exigências sociais, os homens também um
dia se adaptem a elas. Quem sabe as jovens que estão por aí tenham ao lado
reais companheiros e que isso não pareça bonitinho e digno de palmas, mas sim
que se torne parte da vida de todos. Que a união verdadeira e o companheirismo
e respeito pelo outro deixem de ser raridades. Precisamos de amor, mas só ele
não constrói nem sustenta relacionamentos, é preciso mais, é preciso disposição
(e muita) pra se viver os dias não tão fáceis e assim aproveitar aqueles que se
tornarão as melhores lembranças.

