quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Homem não chora

Estava aqui, mergulhada nas milhares de coisas pra fazer e nos pensamentos desnecessários que insistiam em me atrapalhar... A TV ligada no programa da manhã... uma companhia apenas para esses dias de uma solidão esquisita. E então, o tema do programa me lançou para aquele dia, o dia do ponto final, o fim de nós dois. Não senti saudade ou qualquer tristeza, esses sentimentos nunca estiveram presentes em mim depois que nos separamos (tá bom, talvez naquele fim de semana da piscina... odeio admitir isso!).
“Homem não deve chorar”, esse era o tema em discussão, e esse também era o seu lema, por longos anos! Nem chorar, nem demonstrar qualquer tristeza ou sentimento quanto à nossa relação. Seus sentimentos sempre tão ocupados com o trabalho! A cada vez que eu me desesperava tentando salvar o que um dia fomos, eu buscava uma única lágrima no fundo dos seus olhos, algo que demonstrasse que você também sentia algo. Mas você estava seco! Minhas lágrimas incessantes banhavam meu rosto, blusa, travesseiro, meu soluço ecoava pelos cômodos da casa. Enquanto isso você dormia impassível. O mundo caia, mas você não se importava, você nem sentia! Eu falava, pedia, esperava. Tudo em vão! Engraçado isso... eu que sempre fiz de tudo pra ver os outros felizes, sonhava com o dia em que veria uma lágrima brotar dos seus olhos.
E então, esse dia chegou... chegou tarde, quando na verdade nem era mais importante. Naquele dia trocamos nossos papéis. Eu não tinha mais lágrimas, sentimentos... eu também estava seca, vazia. Minhas ações eram mecânicas e enquanto você falava (eu nem me lembro o quê!), eu apenas concordava. Eu não tinha mais forças pra lutar, eu havia “jogado a toalha” já há algum tempo.
Quando levantei meus olhos e mirei os seus, eles estavam tomados de um vermelho intenso, e elas estavam lá, as lágrimas que eu tanto esperei, mas que naquele instante não me traziam qualquer satisfação ou tristeza. Eu sabia porém que, tudo o que eu senti naquelas inúmeras vezes em que a sua falta de sensibilidade me magoou, você sentia naquele momento, o que se confirmou no breve diálogo que custou a sair...
- Você não vai dizer nada? Não sente nada?
- Não... não tem nada mais dentro de mim...
- Agora eu sei o que você sentia quando você sofria com as coisas e eu não demonstrava nada. Dói demais...
- ...
A sociedade infelizmente ainda prega uma masculinidade idiota! A imagem de um homem que não deve demonstrar seus sentimentos, que não chora, não sofre. Da mesma forma, ainda há uma réstia da “mulher sexo frágil”, que, no entanto, já se desfez um tanto mais, se comparada com a do homem “machão”.
Acontece que todos nós esperamos ver o sentimento no outro, seja alegria, tristeza, saudade, dor, amor. É desesperador conviver com alguém que se faz de rocha, coração gelado, extrema frieza. Quem não gosta de ver o amor nos olhos do outro quando diz “eu te amo”? Receber aquele abraço forte... ouvir que o outro também tem medo... notar que se algo vai mal, o outro também se preocupa, também sente?
É tão bom sentir junto, sorrir junto, e também chorar junto. Porque sentir sozinho “dói demais” e, às vezes, pode ser tão tarde e doloroso pra se descobrir isso...

Sinta!!! Mas principalmente, compartilhe o seu sentimento com quem oferece o mesmo pra você!

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Quero não lembrar...

É engraçado como algumas cenas jamais abandonam a nossa mente. E é mais engraçado ainda notar que normalmente não são bons momentos... sabe-se lá o porquê de a nossa memória insistir em guardar certas dores, em reprisá-las nos momentos mais inadequados... Parece que os bons momentos devem ser realmente INCRÍVEIS para se fixarem em nossas lembranças; o dia do casamento (enquanto ainda vai bem), o nascimento de um filho, um sonho alcançado...
A minha memória então é extremamente teimosa! E sem dúvida segue a regra de “memória de elefante”, se apegando em fatos dolorosos. É fantástico a capacidade que tem em me mostrar em “alta definição” alguns momentos. Por mais que o tempo passe, as imagens continuam perfeitas, assim como o som e a sensação que provocam.

Eu sei, é preciso “deixar ir”, perdoar, esquecer... mas... alguém pode me ensinar como se faz isso? É tão involuntário! Essa história de não viver de passado, de tristezas e tal é muito bonita, mas não é real! Alguns fatos nos servem de lições, mas outros só estão ali pra fazer doer e, por mais que façamos, não nos abandonam nunca! Você conta pra um amigo, escreve num papel pra desabafar (minha mania), chora, e pensa “pronto, agora acabou!”. Mero engano! Num momento de descuido, lá está tudo de volta! Não adianta fechar os olhos, tapar os ouvidos, balançar a cabeça pra se livrar daquilo... não adianta! 

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Sobre finais...

Cá estou eu em mais um fim de domingo daqueles... os raios de sol atravessam as árvores, sopra uma brisa suave que balança as folhas e emite uma música nostálgica, não há uma nuvem no céu. Muitas pessoas caminham com seus cães, companheiros, crianças, ninguém só. Domingo é mesmo dia de presença, de aquecer o coração para iniciar a rotina na segunda. Sei porém que, assim como eu, outros estão em suas janelas observando esse mesmo sol, também em suas solidões, e divagando em seus pensamentos.
Hoje penso nos “finais”, talvez algo triste demais para um dia já triste por natureza, mas eu não consegui pensar em outra coisa... minha mente, meu corpo, minha alma viviam esse tema. Fiquei aqui olhando o nada e me questionando o porquê de termos tanta dificuldade em lidar com finais. Finais de ciclos, finais de filmes, novela, relacionamentos... É como se a gente morresse naquele final pra depois tentar renascer, fazer do ponto uma vírgula e seguir adiante. A gente tem essa mania de aumentar o parágrafo, continuar até realmente ter esgotado todas as possibilidades de seguir por ali. A gente apaga tudo e tenta escrever com uma letra menor pra fazer caber mais coisa, corrige aqui e ali, insiste e pensa “desistir nunca!”, mas acontece que não dá!
A gente tenta adiar a mudança pra outra casa, cidade, estado, país... teme a mudança de emprego, mas principalmente o “the end” nos capítulos das nossas vidas. E aí, quando acaba, a gente pensa que deveria ter colocado esse ponto final antes, pois teria evitado algumas dores, algumas lágrimas, algumas decepções, algumas marcas a mais pra se carregar.
Eu particularmente sofro muito com todos esses finais, me apego aos bons filmes que assisto, e que nunca quero que terminem, às séries de TV e livros, desenhos, sagas... Sofro demais, como professora, ao deixar uma turma produtiva e com a qual criei algum vínculo, sabendo que não os terei novamente ocupando as carteiras à minha frente. Meus alunos de Morro Agudo que digam, já que nos separamos há sete anos e eu consegui reencontrá-los através do meu querido facebook  e matar um pouquinho daquela saudade doída, continuar o parágrafo que eu não consegui colocar um ponto final, e que, no máximo terá reticências. Quase morri quando tive que me mudar pra Campinas, encerrando um ciclo e iniciando outro. Mas também vi meu mundo cair quando tive que voltar.
E assim fui vivendo meus finais... Me lembro quando o relacionamento com meu primeiro namoradinho chegou ao fim... de início uma tristeza e um vazio sem tamanho e aí, peguei minha malinha e me enfurnei no rancho, longe de tudo, chorando dia e noite na piscina, na rede, na mesa, na grama, na cama (os adolescentes sempre tão dramáticos!). Quando não havia mais o que chorar, olhei pro mundo que continuava ali, indiferente à minha dor e avisei “eu to voltando!”. Em casa, deixei minhas coisas pelo chão e fui parar no salão mais próximo, fazendo a loucura de cortar meus cabelos enormes, um pouco acima dos ombros. A cada mecha que ia ao chão, eu desejava que fossem também as tristezas e lembranças. Quando me vi no espelho, tive um choque, mas era preciso matar a outra.
O mesmo com o amor louco de colegial. Ahhh... se todos os nossos amores fossem assim... como a gente seria feliz! Carinho constante, um sempre ao lado do outro, todos os dias, e quando não fisicamente, pendurados no telefone. Ele me ligava pela manhã, era o meu despertador... e quando eu chegava na escola, não teve um só dia em que ele não estivesse me esperando com pães de queijo pra tomarmos café juntos. E não era só isso! A última aula terminava às 12h10, mas nunca íamos embora. Sentávamos debaixo das árvores e ficávamos ali até as 16h, meu limite pra voltar pra casa. E então seguiam seus telefonemas que indicavam o que íamos fazer... tomar banho, ouvir uma certa música e até fumar um “gudan”, quando eu ouvia seu sopro do outro lado do telefone enquanto me desesperava em espantar a fumaça de dentro de casa. Nunca ouve uma briga, absolutamente nenhum desentendimento ou mágoa pra fazer aquele momento um pouco mais fácil de ser vivido. Terminamos o Ensino Médio e ele precisou seguir por outro caminho, outra cidade um tanto distante e que, para nós ainda adolescentes em suas tantas impossibilidades , se tornava ainda mais longe. Nos falamos por telefone algumas vezes, mas era tão doloroso ouvir o choro um do outro e as palavras que não conseguiam sair, que então pegamos a caneta e juntos, assim como sempre foi, colocamos um dolorido ponto final em nosso feliz capítulo (sem dúvida esse capítulo merece ser contado em detalhes... e será em breve!).
Mas alguns “fins” foram mais tranquilos. Acho que são exatamente aqueles que prolongamos, que esgotamos as tentativas, que insistimos nas vírgulas e que leva todas as nossas forças. Tanto que quando acaba não há lágrimas, não há dor, só vazio... Assim foi meu, até agora, último fim, depois de uma luta exaurível para tentar fazer de um capítulo, um livro inteiro. Bem... foi um capítulo longo, sentimentos intensos, trabalho árduo, cicatrizes eternas, profundas. E quando o fim chegou, foi o “nada”. Sem alarde, sem tristeza, drama ou lágrimas. Sem festa pra comemorar, sem um porre pra enlouquecer. Nada disso... Foram malas cheias e coração vazio.

Bem... não dá pra escapar, a vida tem mesmo os seus finais e seus recomeços. Às vezes nem nos recuperamos de um “the end” e tome outro! Aquela sensação de que a sua vida está toda errada, de que você é uma incompetente, que nada mais dará certo... que a felicidade nunca irá ficar por muito tempo. E então você se despede dela, que já estava mesmo no portão de saída, pois a tristeza tomara seu lugar. Você escreve vagarosamente a última palavra com as lágrimas incessantes caindo sobre o fim do seu capítulo. E aí você distancia a caneta do papel, respira, soluça, sente uma dor insuportável no coração e enfim pousa e repousa o seu ponto ali, no final. É preciso coragem pra terminar... é preciso coragem pra recomeçar!