Estava aqui, mergulhada nas
milhares de coisas pra fazer e nos pensamentos desnecessários que insistiam em
me atrapalhar... A TV ligada no programa da manhã... uma companhia apenas para
esses dias de uma solidão esquisita. E então, o tema do programa me lançou para
aquele dia, o dia do ponto final, o fim de nós dois. Não senti saudade ou
qualquer tristeza, esses sentimentos nunca estiveram presentes em mim depois que
nos separamos (tá bom, talvez naquele fim de semana da piscina... odeio admitir
isso!).
“Homem não deve chorar”, esse
era o tema em discussão, e esse também era o seu lema, por longos anos! Nem
chorar, nem demonstrar qualquer tristeza ou sentimento quanto à nossa relação.
Seus sentimentos sempre tão ocupados com o trabalho! A cada vez que eu me
desesperava tentando salvar o que um dia fomos, eu buscava uma única lágrima no
fundo dos seus olhos, algo que demonstrasse que você também sentia algo. Mas
você estava seco! Minhas lágrimas incessantes banhavam meu rosto, blusa,
travesseiro, meu soluço ecoava pelos cômodos da casa. Enquanto isso você dormia
impassível. O mundo caia, mas você não se importava, você nem sentia! Eu
falava, pedia, esperava. Tudo em vão! Engraçado isso... eu que sempre fiz de
tudo pra ver os outros felizes, sonhava com o dia em que veria uma lágrima
brotar dos seus olhos.
E então, esse dia chegou...
chegou tarde, quando na verdade nem era mais importante. Naquele dia trocamos
nossos papéis. Eu não tinha mais lágrimas, sentimentos... eu também estava
seca, vazia. Minhas ações eram mecânicas e enquanto você falava (eu nem me
lembro o quê!), eu apenas concordava. Eu não tinha mais forças pra lutar, eu
havia “jogado a toalha” já há algum tempo.
Quando levantei meus olhos e
mirei os seus, eles estavam tomados de um vermelho intenso, e elas estavam lá,
as lágrimas que eu tanto esperei, mas que naquele instante não me traziam
qualquer satisfação ou tristeza. Eu sabia porém que, tudo o que eu senti
naquelas inúmeras vezes em que a sua falta de sensibilidade me magoou, você
sentia naquele momento, o que se confirmou no breve diálogo que custou a
sair...
- Você não vai dizer nada? Não
sente nada?
- Não... não tem nada mais
dentro de mim...
- Agora eu sei o que você
sentia quando você sofria com as coisas e eu não demonstrava nada. Dói
demais...
- ...
A sociedade infelizmente ainda
prega uma masculinidade idiota! A imagem de um homem que não deve demonstrar
seus sentimentos, que não chora, não sofre. Da mesma forma, ainda há uma réstia
da “mulher sexo frágil”, que, no entanto, já se desfez um tanto mais, se
comparada com a do homem “machão”.
Acontece que todos nós
esperamos ver o sentimento no outro, seja alegria, tristeza, saudade, dor,
amor. É desesperador conviver com alguém que se faz de rocha, coração gelado,
extrema frieza. Quem não gosta de ver o amor nos olhos do outro quando diz “eu
te amo”? Receber aquele abraço forte... ouvir que o outro também tem medo...
notar que se algo vai mal, o outro também se preocupa, também sente?
É tão bom sentir junto, sorrir
junto, e também chorar junto. Porque sentir sozinho “dói demais” e, às vezes,
pode ser tão tarde e doloroso pra se descobrir isso...
Sinta!!! Mas principalmente,
compartilhe o seu sentimento com quem oferece o mesmo pra você!


