domingo, 7 de dezembro de 2014

Demônios

Nem sempre se tem total controle da vida, algumas vezes o destino implacável nos leva para caminhos surpreendentes, às vezes bons, outras nem tanto. 
Rachel abriu os olhos. Apesar de já ser dia, as cortinas escuras não permitiam a entrada de luz. O quarto enegrecido como sua alma, as paredes frias como seu corpo e como aquele dia de inverno, brancas como sua pele onde o sangue ia secando, o coração quase sem pulso, entregando os pontos em busca de alívio. 
Pelo chão e sobre a cama inúmeras cartas, todas com a mesma letra, a dela. O papel derramando seus sentimentos. Por anos ela lhe escrevera, sem nunca enviar uma carta e, mesmo que quisesse, que tivesse coragem, não saberia o endereço a ser colocado no remetente, não fazia a menor ideia de onde poderia estar o seu grande amor.
Vivera todos aqueles anos escondendo a verdade, calando no peito aquele sentimento que rugia como uma fera tentando se livrar das grades que lhe cercavam. Seus demônios escondidos no escuro de sua alma, nas trevas de um passado nunca esquecido, mas o qual ela acreditava nunca ser remexido novamente. Até aquele último mês, um outubro de estranhas descobertas. Ele surgiu de repente, e da mesma forma todo aquele amor enlouquecedor voltara lhe arrebatando em cheio, abalando aquela nova mulher que lutara para reerguer. Rachel sentia-se fraca, perdida, a vida não tinha mais sentido. Em um dia de contato ele se tornara novamente o ar essencial pra que ela se mantesse  de pé, e então, ela sabia que, não podia tê-lo. O destino se encarregara de tornar seus sonhos, uma impossibilidade. Não poderia sentir seu calor em um abraço, olhar nos olhos dele, ter seus lábios em um beijo.
Olhou as cartas espalhadas, “tudo pra você”. Não queria esconder aquilo dele, mas não poderia simplesmente lançar seu amor nas mãos de Seth. Só de pensar em seu nome as lágrimas caiam numa torrente incontrolável. Queria guardar a luz que irradiava daquele que foi seu primeiro e único verdadeiro amor, não queria fugir, queria que ele lhe dissesse algo, que a fizesse acreditar que sim, era possível! Queria que ele a salvasse.
Abriu uma fresta na cortina, observou o mundo lá fora. Pegou a última carta, escrita durante aquela madrugada. Ali, tentara expressar todo aquele amor, e como lhe era impossível aceitar que teria que seguir sem ele, que seus caminhos não se tornariam um só, que não se olhariam ainda uma última vez, que não haveria um beijo de adeus. A respiração difícil, as mãos gélidas, o coração num pulsar vagaroso e ainda mais fraco.
As cortinas então se fecharam, pela última vez. Nenhuma luz.
- Tenho que deixar você ir, meu destino é o inferno.
Deitou sobre os papéis, a alma envolvida por seus demônios. Eles venceram...
- Me levem daqui...
Sussurrou o nome dele mais uma vez, o corpo já sem vida ainda carregava uma marca daquele amor, a tatuagem feita há tanto tempo, logo que a vida se encarregou de separá-los, a estrela que representava toda a luz que ele trouxera para Rachel e, dentro dela, bem no centro, um “S”. Seth fora a razão pela qual ela passara por tantas adversidades, tantas rasteiras da vida... a cada luta vencida, acreditava que ele estaria esperando por ela, um sorriso no rosto lhe transmitindo a certeza de que dali por diante, tudo ficaria bem. Agora, ela não poderia mais...
O silêncio no quarto, apenas quebrado pelo vento lá fora, embalava aquele momento. A última carta ainda ali, próxima de suas mãos, junto com duas cartelas vazias de algum medicamento. A vida seguia lá fora, a morte dormia ali dentro.


Inspirado na canção Demons da banda Imagine Dragons

domingo, 23 de novembro de 2014

Seja o meu futuro!

E o que eu posso dizer sobre nós? Na verdade, eu não poderia ou deveria dizer nada, mas já passei da fase de obedecer regras. Então, eu grito pra quem quiser ouvir que sim... eu te amo! Cada parte do meu corpo deseja você, cada batida do meu coração diz o seu nome, cada inspiração e expiração é por você. Eu posso dizer que a cada manhã em que abro meus olhos, você é o primeiro pensamento que me vem à mente, e na maioria das vezes, sem nem perceber, lá estou eu com o celular na mão, lendo nossas conversas e mais uma vez voltando no tempo. De repente é isso que tem me mantido viva.
Também posso dizer que passo o dia esperando por você, por uma palavra, por um sinal. Que quando assoprei as velas do bolo esse ano, meu pedido foi você, e que o “parabéns” mais especial seria o seu, e eu o esperei até o último minuto do dia, que doeu perceber que não viria e que então... eu chorei! Aliás, tenho chorado e, pode parecer estranho, mas tem sido tão bom, depois de um tempo eu enfim consegui sentir algo. Na verdade, senti tanta coisa depois de você e isso me dá medo e me deixa perdida. Não sei o que fazer, ou talvez saiba mas me recuse a colocar em prática, já que implicaria em esquecer isso tudo, em calar de novo as emoções e, de repente é tão bom sentir!
Se eu pudesse, além disso tudo, eu também diria “fica comigo?”, e que dessa vez fosse para sempre. Eu não faço ideia de como seria a realidade, mas muitas vezes tenho me permitido sonhar, ainda que saiba que meus sonhos não passarão disso. Já me vi cozinhando enquanto ali, sentado, você me contava sobre seu dia. Já te vi assistindo futebol (sou mulherzinha mas adoro!) e implicando comigo porque não paro de comentar, de brigar com os jogadores, técnicos, juízes e até a torcida. E numa dessas em que eu pulo do sofá e chuto a bola imaginária para o gol (sim, eu faço isso!), você me pega pela cintura e então vamos pro nosso jogo, ali no sofá! Já imaginei nossas manhãs com cheirinho de café, nossos domingos preguiçosos, beijos de “bom dia, bom trabalho e eu te amo”, e os mesmos beijos ao nos reencontramos (nossa... como eu sentiria saudade). Criei mensagens que eu lhe enviaria às vezes, durante o dia (adoro as mais provocantes!). Pensei nas nossas viagens... praia com caminhada ao por do sol de mãos dadas, serra com aqueles hotéis charmosos e tão inspiradores! É... parece que eu planejei tudo e... nossa... escrevendo isso agora, me dá um aperto no coração, um vazio tão grande, uma vontade louca de estar em seus braços e uma dor profunda em saber que isso pode nunca acontecer.

Me sinto parada numa encruzilhada em que tantos caminhos se abrem e eu não sei por onde seguir. Continuar na mesma estrada em que nada faz sentido, é tudo sempre igual e de uma forma que tem me sufocado? Mudar pro desconhecido, em que tudo é novo e sem previsão do que pode acontecer? Esperar??? Esperar que você venha, segure minha mão pra trilharmos um caminho nosso (ah, como eu queria!) e que também é imprevisível, mas que me dá uma certeza tão grande de felicidade. Sei que construí essa ideia sobre algo tão... talvez ilusório, abstrato... sobre uma lembrança boba que sobreviveu ao passar do tempo. É que no fundo, eu nunca deixei de desejar isso, nem por um dia! O que eu posso dizer novamente é que é amor... sempre foi e sempre será! E... eu não sei o que fazer com ele, eu não faço ideia de quais são as possibilidades, as nossas possibilidades... então, se você souber, eu estou no mesmo ponto da estrada, mande um sinal okay?

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Meu primeiro e sempre amor...

Sim... eu procurei por ele nas redes sociais, e o encontrei. Mas... não! Não tive coragem pra ir além disso. Não acho que tenha esse direito. Passei horas olhando para aquela foto, senti falta dos seus cabelos compridos que eu amava, mas encontrei o mesmo olhar que me encantou no primeiro dia.
Eu ainda me lembro como se fosse hoje. Aula de história, professor Chico, a sala não estava muito organizada, pra não dizer que reinava uma bagunça geral. Eu me sentava na terceira carteira, na fila de frente ao professor, próximo a mim, meus amigos inseparáveis e com quem eu me divertia muito. De repente o mundo parou, não havia ninguém mais à minha volta, apenas ele, apesar de toda a barulheira, eu ouvia só aqueles sininhos famosos tocando, imagino a cara de tonta que eu devo ter feito e ficado por alguns longos minutos. É engraçado, mas foi exatamente como se vê nos filmes, tudo acontecendo em câmera lenta... a música celestial, os feixes de luz, o meu coração explodindo no peito, e a prova de que existe amor à primeira vista! E então, um amigo fez a maldade de me tirar daquele mundo dos sonhos. Eu soltei um “que?” assustado e meio irritado, e imediatamente procurei onde havia uma carteira vazia. O universo conspirava a meu favor, havia uma logo atrás de mim, e as outras todas longe demais... eu precisava de sorte e talvez, pela única vez na vida, eu a tive!
Ele passou por mim, que hipnotizada, acompanhei cada movimento dele. Era tanta energia eclodindo de mim que eu podia vê-la ao meu redor. Eu precisava fazer alguma coisa, precisava chamar sua atenção, mas não fazia a menor ideia de como. Enquanto tentava responder alguns exercícios, pensava numa estratégia, e qual não foi a minha surpresa quando ouvi um “oi, você tem uma borracha pra me emprestar?”. Uma borracha... só uma borracha?! Eu já seria capaz de lhe entregar a minha vida! A borracha foi então para as mãos dele, e eu queria ir junto. Voltou com um “obrigado” na sua voz que era a melodia perfeita para meus ouvidos, e que eu seria capaz de passar a vida ouvindo.
Dali por diante, tudo foi tão rápido, e para mim, tão intenso. O “resto” daquela escola, por sinal enorme, não existia mais. Nada mais tinha importância... apenas estar ali perto dele, sentindo sua energia tomar conta de mim. Logo veio a festa de encerramento do ano... uma brincadeira aqui, outra ali, e o pobre do meu coração vivia uma disritmia sem fim.
E enfim, aconteceu! Lá, no famoso cantinho do pátio da escola. Só de lembrar, sinto as pernas bambas como naquele exato momento. Ele já estava lá, esperando. Eu só precisava atravessar as enormes portas de madeira, descer os cinco degraus, atravessar metade do pátio... mais uma vez a efeito da câmera lenta. Meus amigos me empurravam, rindo, gritando, mas como no primeiro dia em que o vi, não existia ninguém mais, o mundo estava em stand by... congelado... mudo.
Ali, naquele colégio, ficou guardado nosso primeiro beijo... o primeiro de muitos, sempre tão apaixonados. Ele era o garoto perfeito, o sonho de toda adolescente, e eu que não era muito de “grude” e de coisas “melosas”, me tornei uma boba, totalmente dependente dele.
Estudávamos no período da manhã, mas quando as aulas acabavam, não queríamos saber de voltar pra casa. Ficávamos ali, sentados na calçada, debaixo das árvores que ainda estão lá, como testemunhas de todo o amor que eu senti. Todas as vezes em que passo por aquele lugar, um sorriso surge em meus lábios, meu coração já surrado pela vida, ousa bater mais forte, e sempre uma lágrima turva o cenário e salta displicente dos meus olhos, levando um pedaço dessa saudade.
Éramos companheiros de uma forma que nunca mais vivi com outro alguém. Eu voltava pra casa quando já começava a entardecer, e assim que chegava, o telefone denunciava que ele continuava presente. E ainda que ele não ligasse, que não nos falássemos mais naquele restante de dia, ele nunca estava ausente pra mim. Sua imagem me acompanhava sempre, em todos os segundos, em cada sonho, tomando todo meu ser.
Bom, mas a vida nunca facilitou muito as coisas pra mim. O ano chegou ao fim, ele iria se mudar e eu... eu queria me acabar junto com o ano. Pra que viver? Nada mais tinha sentido. Eu não ouviria mais sua voz, não sentiria seus braços me envolvendo, não teria mais seus beijos e todo o carinho e a proteção que só ele me transmitia. Não veria mais seus olhos brilhando e olhando pra mim.
Meus dias se resumiam em segurar a foto dele nas mãos, vagando pela casa e chorando infinitamente. Às vezes, sentava na cama e ficava horas olhando para o telefone, como se eu fosse capaz de fazê-lo tocar apenas com a minha vontade, e então ter aquela voz do outro lado, pra acalmar a minha dor. Um grande pedaço de mim morreu sem ele, algo que eu nunca mais consegui recuperar.
Ainda nos encontramos por acaso, numa manhã, enquanto eu acompanhava minha mãe ao banco. Ouvi meu nome em sua voz que eu amava tanto e... puxa! Como foi difícil segurar a tempestade que aconteceu dentro de mim. Eu queria abraçá-lo pra nunca mais soltar, eu trocaria o resto da minha vida pra estar aquele único dia com ele. Mas... de que valem os sonhos exagerados e ilusórios de uma garota de dezoito anos?!
Essa foi então a última vez em que pude sentir seu toque em mim... seu toque físico, porque a forma como ele tocou minha alma, isso nunca se apagou. Todo mundo me dizia que essas “paixões adolescentes” passam, mas não passou, e não passou porque não era só uma paixão breve que logo seria esquecida, não pra mim. Era amor. Eu o amava mais a cada batida do meu coração, ainda que distante, ainda que nunca mais o visse. Eu sabia do meu amor, mas hoje, bem mais madura, depois de tanto tempo, tenho ainda mais certeza, porque quando comparo os meus sentimentos em cada relacionamento que vivi, sei que com ele foi tão mais forte.
Algumas pessoas são para sempre, alguns amores são para sempre... e ele é um desses que nunca deixará meu coração, é um inquilino fiel, cativo, pra eternidade. As lembranças daquele pouco tempo em que estivemos juntos nunca abandonarão a minha memória, estarão aqui pra me trazer um sorriso cheio de saudade e a certeza de que alguns momentos valem toda uma vida!


“Amor da minha vida, daqui até a eternidade” ... “só enquanto eu respirar, vou me lembrar de você” ... “de janeiro a janeiro, até o mundo acabar”.

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Escolhas

A vida é um jogo de azar... ou de sorte. Desde que, ainda na infância, passamos a ter consciência dos nossos atos, somos levados a fazer escolhas e a conviver com as consequências das mesmas. Até uma determinada idade, essas escolhas pouco irão influenciar em nosso futuro... que roupa vestir, que lanche levar pra escola, o que assistir na TV, e outras coisas do tipo. Mas então o futuro começa a entrar em jogo. Decidir uma profissão pra seguir e buscar formação nesta, analisar opções de trabalho, iniciar/continuar/terminar relacionamentos, ir... ficar... Chegamos então em um ponto da vida que, em cada esquina, surge um leque imenso de opções.
Escolher dá medo porque, inevitavelmente, ao optar por algo, se está excluindo o restante. Quando se escolhe um caminho e segue-se nele por um longo tempo, muitas vezes não dá pra voltar e optar por outro. A gente se sente num labirinto, parado, observando atentamente as portas abertas sem saber por qual seguir... é preciso ter sorte!
Infelizmente não dá pra prever o futuro, dar uma espiadinha lá na frente pra saber se é por ali que devemos ir. De repente a gente segue por um caminho por longos anos, acredita que foi a escolha certa, mas então, quando já percorreu quilômetros, descobre que a saída não é por ali. Dá raiva! A gente se culpa, sente uma profunda frustração “Eu sabia! Devia ter escolhido a outra opção! Claro que isso não daria certo!” O fracasso bate na porta... tudo o que se construiu, cai por terra e é preciso recomeçar! De onde tirar forças? E se fizer novamente uma escolha errada?
É inevitável! Sempre que uma das opções que seguimos se mostrar inadequada, cairemos no mesmo poço do arrependimento, sentiremos a mesma vontade de voltar no tempo e fazer tudo diferente... acontece que não dá! Não somos o personagem do excelente filme “Questão de tempo”, que até uma determinada época da vida, poderia voltar no tempo e “consertar” o que julgava não ter saído “de acordo”. Temos que conviver com as consequências de nossas escolhas e, alguns arrependimentos talvez nos acompanhem até nossos últimos dias. O que pode amenizar um pouco essa sensação de fracasso é pensar que, nada nos garante que a outra opção, a que não foi escolhida, realmente seria melhor, o caminho ideal, a porta que nos levaria até o fim do labirinto. De repente seria um caminho ainda mais tortuoso, difícil, desgastante, e que nos levaria a “lugar nenhum”. Vai saber?!!!
O que podemos fazer é sempre avaliar a caminhada, pensar se ela nos dá prazer e alegrias, apesar das dificuldades, dos obstáculos. Observar se nos traz conhecimento, se nos faz amadurecer e nos tornamos pessoas melhores. Porque nenhum caminho é fácil de ser percorrido, mas quando este nos faz mais tristes, cansados, desanimados de prosseguir, sem perspectivas e ausente de sonhos, algo está errado. É preciso parar, refletir. Algumas vezes ter coragem de assumir que, mesmo depois de tantos quilômetros, não é por ali! Porque quanto mais à frente se vai, mais difícil é o retorno e a busca por uma nova estrada.
Não dá pra acertar sempre, mas em todas as vezes, podemos absorver algum aprendizado, que nos fará mais preparados para a próxima etapa. Nada é em vão... há um propósito para tudo. Não é uma questão apenas de destino, afinal a vida não nos obriga a escolher esse ou aquele caminho, mas, independente de por onde seguimos, nunca será tempo perdido. Jamais saímos de uma situação sem nada levar dela...
As dúvidas estarão sempre presentes, e isso é ótimo, pois não nos permite acomodar. Uma vida de certezas é uma vida sem sonhos, estagnada, chata! Nossos caminhos são montanhas russas, é preciso aproveitar os “altos” e neles se fortalecer, para que, no momento dos “baixos” saibamos ter paciência, fé e a certeza de que é preciso também passar por ali. Ninguém chega no topo da montanha sem começar a caminhada lá de baixo.

Enfim... que tenhamos essa coragem e essa sabedoria sempre... de duvidar, abandonar o que não nos faz mais bem e nos arriscar em novas jornadas... Para nós todos... sorte!!!

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Só um menino

Ele era só um menino... ainda perdido em  seu mundo egoísta, em seus dramas de quem está começando a vida, e pouco sabe das dores que ainda irá enfrentar, das reais mazelas sociais.
Ele era só um menino, preocupado em gritar sua solidão aos quatro cantos do mundo, quando na verdade ainda não estava pronto para partilhar um relacionamento, uma vida, sonhos, momentos...
Ele era só um menino, ocupado demais com seus problemas, envolvido demais em suas conquistas, perdido entre tantas dúvidas e incapaz de aceitar suas certezas.
Ele era só um menino, daqueles que ainda precisam afirmar sua imagem nas redes sociais em busca de um olhar... só um menino à procura de atenção, de ouvidos capazes de receberem suas histórias, seus sonhos, sua inquietude, de mãos para afagarem seu rosto de barba ainda falha, de colo para acolher suas fraquezas, de um corpo para lhe dar prazer. Mas, por ser só um menino, ainda não sabia ouvir, suas mãos estavam ocupadas demais para oferecer carinho, seu colo indisponível e que ainda não era capaz de acolher um outro alguém.
Ele era só um menino que não tinha ideia da força de um verdadeiro amor, porque simplesmente ainda não havia amado.
Só um menino, incapaz de avaliar suas atitudes, suas palavras, e usá-las para o bem, um menino que não conseguia perceber que essa sua inconsequência causava dor, arrancava lágrimas de olhos que ansiavam por vê-lo sempre bem.
Ele era só um menino e, ainda assim... eu me apaixonei... me apaixonei exatamente por sua meninice. Eu lhe ofereci meus ouvidos, mãos, colo, lhe entreguei meu corpo, meus dias, minhas esperanças, meu coração.
Mas, ele era só um menino com meu coração nas mãos e, sem querer, num momento de descuido, suas mãos cederam... meu coração foi ao chão.
Ele era só um menino, e eu, perto da sua juventude inconsequente, senti os anos pesarem em meus ombros, em meus dias, em minha vida. Por ser um menino, ele me fez sentir velha, incapaz, imprestável. Pra ele a vida era um começo e pra mim já era o fim, ele tinha sonhos pra realizar, enquanto a mim não era nem mesmo dado o direito de sonhar.
Ele era só um menino, em busca de uma garota... e eu... eu já não era mais uma garota...

Ele ainda é um menino, ainda envolvido em suas inquietudes, ainda em busca da sua garota... e eu... eu nem mesmo sei o que sou, mas sei que ele continua sendo o “meu menino”.

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Tarde demais para um conto de fadas...

Um dia a felicidade bateu à porta dela. No primeiro “toc”, a madeira rangeu e se afastou, cansada que estava das idas e vindas, de ser aberta com carinho, mas fechada com batidas secas e fortes. Ninguém atendeu, e então ela entrou sorrateira, o trazendo pela mão... era ele... o príncipe tão esperado, que surgia agora para salvar sua princesa. Cabelos negros, voz segura, sorriso doce e modos requintados. Chamou por ela, mas não recebeu resposta. Subiu um lance de escadas e então seus olhos pousaram naquele corpo frágil e pálido, que repousava em lençóis brancos, ao lado de uma janela em que o vento soprava, esvoaçando uma fina cortina. Mais uma vez chamou e... nada.
Aproximou-se e tocou seu rosto, o corpo frio, mas que ainda escondia um sopro de vida. No chão, mechas de cabelos, sem dúvida eram dela, cortados tão displicentemente. Logo ao lado, uma maçã que ainda retinha a marca de batom onde a mordida fora dada. Onde a mão dela repousava, gotas de sangue e um ponto vermelho no dedo. Deu a volta na cama e observou cristais partidos em algo que lhe parecia um sapatinho. Sua princesa passara por cada dor, de cada conto de fada. Fora “salva” inúmeras vezes por príncipes que ao final, nem mesmo serviriam para o papel de sapo.
Mais uma vez ele a contemplou. Se aproximou e, seguindo a regra, depositou um doce beijo em seus lábios de um rosa que se esvaía a cada segundo. E então ela se mexeu, abriu lentamente os olhos tão sem brilho, deu um suspiro profundo, entre um gemido, como se lhe doesse respirar, e pousou nele o seu olhar. Um leve sorriso tomou conta de seus lábios, tão desacostumados daquilo. Seu coração quis pulsar forte, ainda que corresse o risco de ter os cacos novamente se descolando em mil pedaços. Porém, ali, em seu agora príncipe, ela sentiu uma confiança há tanto quebrada, não tinha medo.
A felicidade, parada na porta, queria entrar, mas ainda não havia espaço pra ela... dor, tristeza, decepção, frustração, arrependimento tomavam conta de tudo.
Sentada na cama ela chorava... se revoltava contra o mundo e consigo mesma, porque era só dela a culpa por cada pedaço do seu coração não saber mais como bater.
A felicidade se retirou, partiu em busca de uma nova protagonista, mas avisou que talvez, um dia, voltasse. Mas ele, o príncipe, ainda ficou por ali, tentando acalmar aquela princesa que há muito perdera seu encanto. Num fio de voz, entre lágrimas e soluços, ela lhe disse:
- Eu te esperei... pedi à vida que me proporcionasse esse encontro, esse momento, mas o destino impiedoso e com a minha permissão, te trouxe tão tarde. Em cada decepção eu pedia pra que você fosse o próximo... mas nunca era, e sempre vinha um novo erro. E então, agora que você veio, o meu “felizes para sempre” já passou, e eu o perdi. Eu sonhei inúmeras vezes que você me salvava, mas enquanto você não vinha, era eu quem precisava salvar alguém e agora, novamente essa função é minha, eu preciso me salvar de mim mesma...

Dizendo isso, ela caiu novamente em um sono profundo, como se dormir por cem anos aliviasse tanta dor, trouxesse o esquecimento. Como se, quando acordasse, não houvesse mais nada além do seu príncipe real, e ela fosse capaz de lhe oferecer todo o amor que tanto gostaria.

domingo, 3 de agosto de 2014

Mais sobre o amor...

O amor verdadeiro (se é que existe falso amor), quando o coração se abre e se entrega, esse não escolhe quando acontecer. Você não ama alguém pelo que a pessoa possui, não escolhe classe social, modelo de carro, casa ampla com piscina, conta bancária... e isso é o que há de mais bonito nesse sentimento. Ama-se alguém sem motivos concretos, ama-se o olhar, o toque na pele, a voz que acaricia os ouvidos e a alma. E isso vem do que cada um é, e não do que possui, tanto materialmente, quanto psicologicamente. Isso porque lá dentro, somos como potes em que vamos acumulando experiências. Há pessoas que ainda são potes vazios, o que não impede de serem amadas por quem já possui algum conteúdo, porém não são ainda capazes de oferecer algo em troca. Mas nem isso o amor vê, ele acontece! É fácil “amar” quem está bem, num momento feliz, quem está estruturado. É fácil se ligar em alguém pronto. Há quem decida esperar a tempestade do outro passar para então “amar”, e coloco a palavra entre aspas porque isso jamais será amor. Você ama quando enfrenta junto o que há também de ruim, você sorri euforicamente com cada conquista do outro, e vê nele a admiração pelas suas (que na verdade é o que mais vale). Você passa a se inteirar de assuntos que interessam ao outro e que você não tem conhecimento algum, porque aquilo também é parte do que você ama. E vê que o outro faz o mesmo, assiste um filme que você adora, pra poder conversar sobre ele, ouve uma canção melosa que você vive ouvindo e até repete o refrão, só pra te agradar.

Esse amor, que para mim é o único, não acaba, nunca deixa de ser, não diminui de intensidade. Quando se ama quem alguém é, por mais que o tempo e a distância se façam presentes, o amor não abandonará o coração. Quando você ama alguém, passará a vida desejando o bem para aquela pessoa, rezando em silêncio para que seus sonhos se realizem, e que tudo sempre corra bem. Isso porque ninguém perde a essência do que se é. Materialmente nossa vida passa por inúmeras transformações, ganhamos e perdemos o tempo todo. Podemos em um dia ter a vida dos sonhos, a casa ideal, carro luxuoso, e condições para ainda mais, e então, dali a pouco, tudo se desmorona. Quem “ama” o que o outro tem possui um “amor” em constante risco. Quem ama o que o outro é, ama a segurança de algo que não vai desmoronar. A paixão, que sempre acompanha o amor, principalmente no início dos relacionamentos, essa sim pode ceder, diminuir, se tornar esporádica, vindo à tona em alguns momentos, mas o amor, o carinho e a admiração que se nutre por alguém, aquela coisa gostosa que aquece o coração, isso nunca se vai. E não se restringe a uma pessoa só, o “grande amor de uma vida”... somos capazes de muito mais que isso! E de amar algumas pessoas durante toda a vida, mesmo que já não estejam presentes em nossos dias. Mas... entender o amor leva tempo, e vivê-lo mais ainda. É preciso um pote cheio de experiências. É preciso saber o que não é amor, para então descobrir o que verdadeiramente é, porque o amor também é comparativo. Você só consegue precisar o quanto ama ou amou alguém quando passa por experiências que colocam os sentimentos à prova. Algumas vezes levamos anos em inúmeros momentos e relacionamentos, para perceber que, lá atrás, com aquele alguém, era amor! E será para sempre... Vemos tantas histórias de reencontros, pessoas que tiveram seus caminhos separados, mas permaneceram unidas pelo coração. E então, um belo dia, a vida oferece a chance de retomar esse amor. Questão de sorte? Destino? Quem sabe? Como se diz por aí “coisas do amor”. E copiando o poeta Renato Russo, em uma de suas tantas canções que tratam sobre o amor “Quem inventou o amor, me explica, por favor?!” E você... sabe explicar? Sabe sentir? Sabe viver o amor? Está pronto para recebê-lo? É capaz de também oferecer? Afinal, de que vale um coração no peito, se ele não for capaz de passar pelas arritmias descompassadas de quem ama?

A outra

Parada na frente do espelho ela tenta se desvendar, se encontrar. Não sabe se daqui em diante será essa na qual se transformou, ou se a de antes voltará para tomar de novo seu lugar. Ela olha... pensa... se assusta. Não consegue ainda processar tamanha mudança, não sabe como em tão pouco tempo, sua alma adquiriu essa nova forma. E mais que tudo isso, ainda não sabe quem prefere... qual é a melhor: se a antiga, intensa e eterna apaixonada,  sem medo de mergulhar de cabeça em lagos rasos, ou se a atual, tão racional, que lhe parece tantas vezes até fria. Ela sabe que precisa cuidar de seu coração, não há espaço para novas feridas. Mas seu novo eu, que veio sem ser convidado, talvez para garantir-lhe a sobrevivência, assusta! Um vazio estranho lhe toma conta, como se nada mais existisse dentro de si, um corpo oco, livre de sentimentos. Nessa nova vida, os dias passam sem sentido, maquinalmente, e nada lhe desperta para o mundo... o olhar sem brilho, a pele fria, o coração que já não bate. Ali, mirando seu reflexo, toca o rosto pálido, antes talvez houvesse lágrimas em seus olhos, mas hoje, nem isso. Da mesma forma que essa outra não consegue sorrir, também não é capaz de chorar. Ela sabe... pedira tanto para ser exatamente assim, agir com a razão, colocar o cérebro no comando, mas agora começara a notar que, a vida não fazia sentido algum sem um pouco de paixão, dor, intensidade. Se questionava como determinadas pessoas conseguiam conviver com essa forma de ser. Em poucos meses ela já sentia falta de quem fora. Começava a preocupar-se com o que poderia oferecer a alguém, se seria um dia capaz de sentir algo mais forte, de ter o amor lhe invadindo a alma, os olhos brilhando novamente, o sangue correndo quente, e o coração pulsando no peito. O passado a havia destruído, e não queria dar a alguém os escombros que ficaram pelo chão. Precisava estar inteira para então partilhar seu todo... precisava de força para reerguer as paredes, mas ao ver tanta destruição a vontade que tinha era de abandonar tudo. Sentia-se fraca, cansada e com um medo inconsciente de uma nova tempestade. Mirou novamente seu reflexo no espelho, a mão no peito procurando o tamborilar da vida que ainda houvesse por ali, mas o que ouvia era seu novo e incômodo silêncio, o frio do corpo e da alma, ou talvez a falta dela. Um nada que tomara conta de tudo. Sentia-se perdida num mundo estranho... Comparando aquela com essa, talvez preferisse voltar... voltar a sentir, a chorar, a sorrir... voltar a ter vida, e algo mais dentro de si, perdera sua alma e talvez fosse tarde demais para reencontrá-la.

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Meu querido "ex"... para aquelas pessoas que escolhem ser um eterno sorriso em nossas vidas.

Hoje tinha tudo pra ser um “dia daqueles”. Depois de uma noite sem dormir, numa crise alérgica absurda, que ainda não passou, e um dia cheio de obrigações (sim, nas férias!). Levantei-me com a pior cara possível e não fiz questão de escondê-la com maquiagem. Vesti qualquer roupa, a primeira que apareceu, peguei minha bolsa, mil papéis e tudo o mais que iria precisar e fui me irritar ainda mais (se é que fosse possível), dirigindo até os lugares todos que necessitava ir. Quase acabando a etapa das tarefas da manhã, entrando no carro para ir almoçar, escuto alguém me chamando, aquela voz familiar, há muito ausente dos meus dias... me virei  e de longe vi seu sorriso... sempre tão contagiante, e não consegui deixar de sorrir também.
Ele fora um daqueles casos raros de namorados (pra mim o único), com quem consegui continuar “sendo só amigos”. Tivemos um relacionamento há muitos anos (nossa, muitos mesmo) e que foi incrível. Não me lembro de nenhuma briga, as minhas lembranças estão carregadas das nossas gargalhadas, das brincadeiras, da aposta pra ver quanto tempo ficávamos nos beijando sem parar (contávamos o tempo pelas músicas que íamos ouvindo). Acredito que não tenhamos ficado um único dia sem nos encontrarmos, vivíamos colados, envolvidos em momentos de diversão e paixão.
Bom... então ele veio ao meu encontro e me deu aquele abraço que toca a alma, quente, demorado e cheio de um carinho que o tempo nunca será capaz de nos roubar. Retribuí e o abracei forte, olhos fechados, aspirando seu cheiro e numa vontade de nunca mais sair dali... pela demora, acho que também era a vontade dele. É engraçado pensar como que, de um dia para o outro, um possível amor ou paixão deu lugar para uma bela amizade. Na época, nossas diferenças e ideais pesaram para que o relacionamento continuasse, mas nunca foram um empecilho para que haja uma festa a cada vez que nos reencontramos. Nunca houve raiva, mágoa ou qualquer sentimento negativo. Isso porque o carinho que sentíamos um pelo outro, nos impediu de dizer qualquer coisa que pudesse causar dor, tristeza, lágrimas. Nos apoiamos por um bom tempo, de maneira mais presente, pois a vida assim permitiu. Assisti seu casamento, vi seus filhos nascerem e crescerem, e ele também acompanhou o desenrolar da minha vida. Enfim, cada um seguiu seu caminho, o que nos afastou fisicamente. Ainda assim, carregamos um ao outro no coração, num lugar muito especial, e cada vez que a vida nos permite esses reencontros, eu agradeço por tê-lo conhecido. Por mais que o tempo passe, ele continua aquele “moleque terrível” com quem eu rolava pela grama brincando de “lutinha” e jogando futebol, que me obrigava a dançar com ele no meio da rua, que me jogava pra cima e me pegava de novo nos braços, com quem eu fazia guerras deliciosas de sorvete, que me escrevia... bilhetes, cartas, músicas... me levava flores roubadas pelo caminho. Ele continua com os mesmos olhos negros encantadores, que sorriem junto som seus lábios.
Depois que conversamos e nos despedimos com mais um longo abraço, comecei a pensar sobre como algumas pessoas escolhem ser em nossas vidas uma eterna alegria. Nos deixam boas lembranças, daquelas que quando buscamos nas gavetas da memória, sempre temos um sorriso nos lábios e suspiros que nos escapam do peito. São pessoas que, por mais que o tempo esteja frio e cinzento, quando surgem, brilham mais que o sol, iluminam e aquecem nosso dia, nos fazem sorrir e derrubam todas as nossas máscaras, tristezas, irritações.

Hoje tinha tudo pra ser “um dia daqueles”, mas então, quando nos abraçamos, quando ele envolveu minha alma com tanto carinho, meu dia se tornou o melhor entre os últimos tantos dias. E quando o vi se afastar, entre os carros, sob o céu azul sem nenhuma nuvem... eu, com os olhos marejados e um sorriso de alívio, ainda consegui sussurrar... “Obrigada!”

domingo, 22 de junho de 2014

Pra nunca mais...

Hoje é domingo... mais um domingo daqueles, depois de uma semana cheia de lembranças suas. Vi a noite de sábado terminar, acompanhei a madrugada e, quando o sol nasceu me vi sentada, encolhida, naquele mesmo lugar, como se o tempo não tivesse passado, como se de repente você fosse aparecer para me abraçar e acabar com esse pesadelo. A noite me destruiu... não dormi... senti uma necessidade doída de te ouvir, de ter você cantando pra mim, lembrei de cada uma dessas vezes e até ouvia sua voz distante, mas não tinha seu calor ao meu lado. Vi seu sorriso brilhando enquanto aqui, sozinha, meus olhos derramavam incessantes lágrimas. Olhei para as minhas mãos vazias, implorando pra tocar você, deslizar por suas costas, brincar com seus pelos, enroscar em seus cabelos.
Sabe... parece que isso não vai passar nunca, eu já usei todas as técnicas... já tentei te excluir completamente dos meus dias, já tentei sentir raiva, lembrando das coisas que você me disse e que me magoaram profundamente. Já te imaginei com ela, já me obriguei a rever nossas fotos, nada resolveu. Enfim entendi que terei que conviver com essa dor e, encontrar algo pra aliviar todo esse amor que ainda mora dentro de mim.
Eu ainda tenho os olhos marejados quando passo pelo local do nosso primeiro encontro, e sempre revejo toda a cena... como dói! Eu ainda não consigo ouvir algumas músicas que me trazem você de uma maneira tão forte... e infelizmente essas algumas são tantas! E... eu sonho com você. São sonhos estranhos, nos quais nunca conversamos. É sempre igual... estamos abraçados, como num reencontro, um abraço que dura um longo tempo. Eu sinto seu calor, eu posso te tocar, mas... eu nunca sinto seu toque em mim...
Nesse tempo que passou, que passei sem você, descobri que, apesar de não ser mais uma jovenzinha, ainda sou capaz de despertar desejos, e existem homens por aí que ao menor sinal positivo meu, estariam me esperando no altar. Apesar disso, e dos convites que recebi, eu não consegui ir adiante. Em cada vez que eu buscava uma desculpa para não marcar um possível encontro, eu me sentia uma idiota, mas sabia que não seria capaz de estar com outra pessoa, e talvez isso durasse por um longo tempo. Sozinha, pude me analisar e também pensar em nosso relacionamento. Calando meu coração e pensando apenas com a razão, eu notava que não era mesmo “pra ser”, que meu amor não seria capaz de apagar as diferenças e problemas que você enxergava em um possível futuro. E, por mais que meu único pedido, por muitos dias, fosse para que houvesse uma volta, eu agora sabia que não seria capaz de conviver com você e as suas incertezas. Ainda que não fosse a minha vontade, era preciso seguir sem você, sem sua presença física, porque as lembranças nunca irão me abandonar, e... esse amor... eu também acredito que não.
Num dia desses, apareceu um alguém. Ele é o sonho de consumo de qualquer mulher. Atraente, inteligente e muito carinhoso. Ele está me reconstruindo! Como já disse, apesar de não ser mais uma jovenzinha, ele tem planos de um futuro comigo, e não tem pressa. Pra ele, é cedo, temos tempo! Ele me ouve com toda atenção, grava tudo o que eu digo, dá importância para as mínimas coisas que me acontecem. Ele sabe quando estou mal só de ouvir minha voz, e se faz presente o tempo todo, arruma um jeitinho de não me deixar só, mesmo quando não pode estar comigo. Ele me protege, por mais que eu não precise de proteção. Quer cuidar de tudo e em especial, de mim. Talvez ele seja pra mim, o que fui pra você... um porto seguro, uma certeza, alguém que sempre estará ali pra segurar minha mão, pra me animar, pra me dizer que tudo vai dar certo, pra me mostrar um futuro. Eu queria tanto amá-lo! Mas, ainda não dá. Sinto raiva de mim, sinto raiva dele por não ter surgido antes, sinto raiva de você por ter se fixado em meu coração, tomando todo o meu amor pra si. Me sinto mal por estar com ele, ainda gostando tanto de você, mesmo que ele saiba de tudo. Muitas vezes, estou jogada na cama, chorando, despedaçada, e chegam mensagens dele, carregadas de amor. Eu praguejo contra o mundo e meu destino injusto. Não me sinto merecedora de tudo o que ele tem me oferecido. Um tudo de sentimentos bons, porque pra mim, isso sempre foi o que realmente importa.
Ele diz que me ama... todos os dias... mas eu ainda não consegui ir além do “eu te adoro”. Algumas vezes ele me chama da mesma forma que você costumava sussurrar em meus ouvidos, e que me deixava louca. Quando isso acontece, meu coração dispara, meu mundo desaba, meus olhos se enchem de lágrimas, e eu preciso tirar forças nem sei de onde pra não deixar que ele perceba. Ele tem sido tão paciente... eu queria tanto não ver tanto amor em seus olhos e a admiração que sente por mim. Por mais que ele saiba de tudo, de nós, eu me sinto como se o traísse. Todos os dias eu peço a um “Deus”, a uma força maior que nos governa, às energias todas que nos envolvem, pra que eu consiga amá-lo, pra que eu seja capaz de desconstruir o meu amor por você e construir meu amor por ele, mas, sinceramente, não sei se consigo... ele insiste em tentar...
Bem, na verdade, hoje... eu só vim pra me despedir. Essa é a última vez que lhe escrevo. Você não verá mais nada que se remeta a um “nós” que, na verdade, não existe mais. Textos, poemas, músicas... nada! Você não sabe, mas eu lhe escrevi em todos esses dias. Como num diário, conversei com você, contei sobre as coisas do meu cotidiano. Em cada página, de cada dia, bem no final, eu lhe perguntava “E você? Como foi o seu dia?”. Minha pergunta nunca teve resposta. Ainda assim, todos os dias eu sentirei vontade de lhe falar, de te ouvir, de sentir seu corpo, encaixe perfeito com o meu. Todos os dias guardarei isso, trancarei a sete chaves cada pensamento, cada desejo, cada lágrima, cada saudade...
Eu não preciso dizer mais nada, eu sei que te amo, e você também sabe. Assim como você, preciso ignorar esse amor! Preciso acabar com ele, antes que ele acabe ainda mais comigo, mas tenho quase certeza... de que irei fracassar!
Pra terminar, saiba que de longe, estarei torcendo pelo seu sucesso, para que você consiga realizar cada sonho e construir o futuro que tanto almeja... eu sei que será recompensado pelo seu esforço, acredito que terá dias de glória!
Fico por aqui, vou tentar sobreviver, como dizem meus amigos “você não nasceu gostando dele, vai passar, deixe o tempo cuidar disso”...
Fique bem, seja feliz, e saiba novamente, que ainda te amo, com a mesma intensidade que você viu em meus olhos nas vezes em que eu te disse isso...

Adeus...

domingo, 18 de maio de 2014

"Assim caminha a humanidade..."

De repente, um misto de raiva e rebeldia me invadiu. Momento ideal pra soltar umas verdades, que podem ser absolutas somente pra mim e mais ninguém.
Cá estamos nós em uma sociedade que nem moderna é mais, e sim “pós-moderna”. Já estamos além, enquanto que, na real, tudo vai no mesmo. Bem, analisando do lado feminino, vejo algumas mudanças! E ainda não sei precisar o quanto são realmente boas.
Hoje podemos vestir calças (Ufa! Odeio saias!), podemos mostrar o corpo sem que seja um espanto (será?), temos direito ao voto, podemos ler, dançar, fazer nossos “rituais” sem sermos queimadas na fogueira. Invadimos o mercado de trabalho, sem contudo deixar de realizar algumas tarefas que nossas mães e avós faziam. Nos tornamos multitarefas e “multiatarefadas”. Abandonamos a ignorância e passamos a estudar cada vez mais. Com a mente aberta, vencemos certos paradigmas e passamos a aceitar essa tal modernidade. Mas... algumas situações me fazem pensar quanto o mundo está realmente preparado para a “mulher moderna”, e em especial os homens. Sim, esses carinhas que vivem por aí reclamando que as mulheres só querem saber de compromisso, casamento, filhos. Que nós não somos capazes de dar tempo ao relacionamento, curtir o momento, deixar rolar. Será que esses mesmos reclamões estão prontos para ouvir uma mulher dizer que não quer nada sério, “é uma noite e nada mais”? Bom, afirmo com conhecimento de causa e, sem nenhum medo de errar que a maioria não! E quando eu digo a maioria, não é algo como um pouco mais que 50%, é exatamente um pouco menos que 100%.
Nós somos vistas como as ciumentas e possessivas, mas a realidade não é bem essa. Poucos homens estão preparados para não exercer a posse sobre uma mulher, ou sobre várias! E vemos isso por toda parte. Nas novelas que invadem tantas casas pelo país afora, quantos casos temos de personagens masculinos que possuem duas famílias, sem que uma saiba da outra e quanto disso existe quando trocamos para uma mulher? Alguém se lembra de alguma novela em que uma mulher mantinha duas famílias dessa mesma forma? Minha memória pode me trair, porque eu sinceramente não me lembro!
Estamos cercados por filmes e livros eróticos e, em quantos deles as cenas quentes envolvem mais de um homem dando prazer a uma única mulher? Poucos, infelizmente! E se formos para fora da ficção então, encontrar um cara que tope dividir sua mulher com outro, mesmo que ela não seja sua, e mesmo que apenas sexualmente, é algo raro! Mas lógico que esses mesmos homens ficam enlouquecidos ao se imaginarem com duas ou mais gostosonas prontas para lhes dar prazer. Bem, estamos em desvantagem!
E a coisa vai só piorando, ao ponto de se chegar naquele cara que se deita nu na cama, olha pra mulher ali na sua frente e lança sensualmente: “faz comigo o que quiser”. Por favor, queridos! Isso acaba com qualquer libido, principalmente numa primeira transa. Sem dúvida essa  mesma mulher irá adorar bancar a dominadora, numa bela roupa preta, botas de salto, um chicote nas mãos... pronta pra te algemar e proporcionar momentos incríveis, mas... de primeira ela quer ver o seu poder, sua pegada! Então, seja um leão faminto devorando sua presa!
E ainda tem a história do “ligar no dia seguinte”, ou antes mesmo de existir “um dia”. A gente às vezes se contorce de vontade ligar para aquele tal, ou mandar uma mensagem básica de “Oi! Td bem?” Lutamos e vencemos! À custa de unhas e dedos roídos, mas resistimos. Eles não! A maioria não possui controle algum. Você encerra um dia de trabalho e quase cai dura ao pegar o celular na bolsa e se deparar com 12 chamadas perdidas, 18 mensagens de texto e 3 de voz! Alguém morreu! Mas não, ele só queria dizer “oi”.
“Uma noite e nada mais” é conversa pra boi dormir. Se foi bom (pra ele!!!) ele vai querer repetir a dose, é claro! E vai insistir! Se você não puder essa semana, quem sabe na outra? No mês que vem? Nas férias? Que tal viajar no reveillon?
Uma mulher bonita e bem resolvida sozinha, sem dúvida deve ser “a chata”. Um homem gato, e solteiro, com certeza é “o cara” e está pegando todas!

Enfim, nós mulheres estamos prontas pra esse “pós-modernismo”! Nos reciclamos, colocamos um pouco de lado o sentimentalismo, abandonamos a ideia de uma vida como nos contos de fadas e encaramos a realidade de frente! Passamos por cima de todos os tabus. Também saímos pra caça, também queremos “só sexo”, não vamos esperar uma ligação no dia seguinte, aliás se ambos nem mesmo se lembrarem do nome um do outro e notarem que nem trocaram telefone, melhor ainda! Precisamos de diversão às vezes, sem envolvimento, só prazer, puro e selvagem! Sim... também temos instintos, desejos, fantasias. Não é sempre que o coração manda no cérebro e no corpo feminino! Demos passos rápidos demais! E agora, o que nos resta é sentar e esperar. Aguardar os que vem lá atrás, já que “assim caminha a humanidade, com passos de formiga e sem vontade”. Alguma bebida pra esperar???

A vida lá fora...

Hoje é domingo... e eu odeio os domingos. Hoje é domingo e eu terminei agorinha de ler mais um livro daqueles que me fazem odiar ainda mais dias como hoje... domingos, frios, cinzentos, vazios e ao mesmo tempo tão cheios de você.
Estou aqui na cama, o livro fechado, alguns filmes do lado, uma poesia idiota escrita no caderno... uma que rabisquei agora e que diz sobre essa tentativa incessante de arrancar você de mim. Ainda não abri as janelas, não quero ver o dia... ainda não sai do quarto, não quero ver a vida...
O celular vibra sobre a mesa, eu já nem olho mais, sei que não é você e já estou cansada de inventar desculpas pra todas as pessoas que, de repente, acham que estou à procura de alguém. Talvez seja Deus testando o poder desse meu amor, ou talvez ele esteja tentando me ajudar e... coitado... não estou colaborando!
- Pego um avião pra te ver...
- Tô saindo daqui, chego aí em três horas...
- Te pego em casa...
- Puxa... só uma bebida...
Não... eu simplesmente não consigo! Não sei mais o que fazer! Eu não me reconheço, não me controlo! A vontade de estar com você toma conta de tudo. Dói... e não é uma dorzinha que passa. Ela me devora todos os dias, todas as noites...
Nada faz sentido e eu enlouqueço mais a cada minuto. Já tentei todas as estratégias pra fazer esse amor dormir dentro de mim... mas ele permanece desperto, se fazendo presente, gritando pra mim que não vai embora. Eu tenho que lutar pra não fazer uma besteira e te impor um pouco da minha presença... Meu anjo tem trabalhado tanto... com certeza tentou mudar meu rumo, quando notou que eu dirigia até sua casa. Sem dúvida gritou em meus ouvidos que eu não deveria fazer aquilo... Mas lá estava eu com uma caixa de livros de todas as disciplinas pedidas no vestibular e mais o meu note velho... bem no portão da tua casa... Bom, ele venceu... eu não segui em frente, mas os livros ainda estão no carro, aquele monte de balas também estão, e as milhares de lembranças... mais fortes do que nunca!
Tentei sentir raiva, criei mentiras... não adiantou. Por mais que eu tenha entendido que tem que ser assim... aceitar e conviver com isso é tão difícil. Eu sei que... ela é exatamente perfeita pra você... e mesmo que uma pontada de ciúmes chegue ao meu coração, eu não consigo pedir nada além de que você seja sempre feliz. Eu não desejaria jamais que você sentisse um pedacinho se quer dessa dor que eu tenho sentido, da vontade que surge todos os dias de dizer que eu te amo, de como minhas mãos anseiam em te tocar de novo, como meu corpo frio necessita do seu abraço, meus lábios do seu beijo, meus ouvidos de sua voz. A cada dia eu preciso mais de você... a cada dia eu digo ao meu desejo que “é impossível”.

E assim, o domingo vai passando... as janelas fechadas, a vida lá fora. Meus olhos se fecham também... a vida... lá fora...

terça-feira, 13 de maio de 2014

Pra sempre... amor...

Hoje faz um mês... um exato mês que meus lábios estão congelados sem encontrarem mais os seus, que o meu corpo está vazio e frio, sentindo a falta de contato com o seu calor. Faz um mês que meus ouvidos ansiosos não ouvem o som da sua voz, e que meus olhos não brilham, transbordando de alegria e paixão ao acompanhar sua chegada.
Cada dia que passou daquele domingo 13 (numerologia???), foi uma batalha contra a tristeza. Não houve um só dia me que você não estivesse em meus pensamentos. Não houve uma noite em que você deixou de ser o primeiro em minhas orações, e nem uma só manhã que eu não lhe desejasse um ótimo dia.
Não sei precisar se um mês é pouco ou tanto... Foi pouco pra amenizar a dor, foi nada pra transformar o amor em apenas uma boa lembrança, e ainda não foi o suficiente pra esgotar as lágrimas que caíram em cada um desses dias. Foi tanto pra passar sem você, pra acordar a cada novo dia sabendo da sua ausência. Foi muito pra te saber tão perto e tão longe, pra conviver com esse silêncio, pra olhar para o meu vazio. Foi uma eternidade pra controlar meu impulso todos os dias, ao me deparar com coisas que poderiam te interessar e sentir uma necessidade pulsante e incômoda de lhe falar. Foi muito tempo pra ouvir inúmeras músicas que me traziam momentos nossos e não me desesperar. Aliás, me pareceu muito, muito tempo de luta extenuante para me manter no controle.

Essa noite eu sonhei com você... um presente pra esse um mês... não que isso não houvesse ocorrido antes, você já esteve em outros sonhos, mas essa noite foi tão especial, foi tão real. Você estava comigo... éramos nós de novo... eu provei seu beijo... seu abraço... eu pude sentir sua pele, seu calor, seu corpo, seu coração batendo. Seu sorriso estava ali tão perto... sua voz de novo ecoando por meus ouvidos. Infelizmente eu acordei, mas ainda podia te sentir, minhas mãos ainda pareciam estar te tocando, minha boca ainda guardava um beijo recente, meu corpo tinha ainda um pouco do seu calor. Não deu tempo de te falar, a saudade que no sonho era tanta quanto a real não deixou espaço para palavras... e quando eu abri os olhos e me vi de frente com a realidade de mais um dia, eu sussurrei o que nossos beijos me impediram de dizer... fechei meus olhos já banhados pelas recorrentes lágrimas e abri meu coração... eu te amo... te amo tanto e sei... no próximo 13 esse amor ainda estará aqui...

domingo, 11 de maio de 2014

Chronos impostor!

Direcionamento, essa é a palavra! Sem dúvida nenhuma, os grandes nomes das mais variadas áreas, souberam direcionar seus sentimentos, dúvidas, angústias, frustrações, medos, para algo realmente produtivo. Essa história de deixar o tempo passar, que ele tudo cura e apaga, é ilusão! O tempo não cura algumas feridas, não apaga alguns amores, algumas perdas, dores... ele pode até amenizar, mas acabar com tudo... nunca! Essa ideia provavelmente foi criada pelo deus Chronos, querendo se tornar mais importante e invocado do que os demais. Ele nos persuadiu com esse falso poder e aí, passamos uma vida inteira esperando o “tempo apagar”, e quando nos damos conta, a vida acabou e o tempo não apagou.
Mas e aí, fazer o que? Existem algumas opções. A primeira e já dita, é ficar esperando que alguma mágica aconteça e de repente nossas angústias, dores, dúvidas, não existam mais. A gente coloca a vida no pause e se fecha pra tudo que ela possa nos oferecer, esperando o senhor deus do tempo então fazer o seu trabalho. Em segundo, há a possibilidade de fingir que todas essas “coisinhas” não existem. É como aquele dedo quebrado que lateja quando faz frio, mas que você nem liga porque daí a um tempo passa. Mas... o frio volta, a dor volta, e constantemente você convive com aquele incômodo, o ignorando. Isso é o que a maioria de nós faz. A gente sai de casa com o coração partido, nada faz sentido... mas então colocamos um falso sorriso no rosto, criamos uma personagem que não existe, não é real, e sai pra vida! Para o resto do mundo você é alegre, feliz, diverte a todos, não sofre, não liga pra nada, é a “doidinha”, o “cara”, um/a adolescente que nunca vai crescer, mas lá dentro, pra você, no seu “eu”, você se sente com 80 anos mal vividos, fatigado e sem forças pra encarar seus problemas e fazer algo por eles e por você mesmo! Bom... e aí, a última e mais difícil opção é exatamente isso! É olhar com carinho e muita atenção para dentro de si mesmo, analisar a fundo cada dor, cada incômodo... entendê-los e aceitá-los. Não adianta negar a existência dos mesmos, não adianta se culpar por eles estarem aí dentro. É preciso silenciar e ouvir o que cada “dorzinha” tem pra dizer. É importante questionar-se, saber o motivo de cada angústia que mora dentro de nós. Isso leva tempo, dá trabalho... às vezes é preciso ir muito longe para entender o motivo de alguns dos nossos comportamentos. Vivemos no presente, mas somos constituídos por nosso passado, e é lá que está o motivo de cada dor, cada tristeza, cada atitude. Está tudo muito bem guardado em nosso inconsciente, que mais parece aquele porão sombrio que temos medo de visitar, cheio de fantasmas, mas que é exatamente o lugar onde mora a nossa essência, nossas lembranças boas ou ruins. Nós somos o que já vivemos! É preciso coragem para descer as escadas, acender a luz e enxergar minuciosamente a trajetória já percorrida. Nossa infância guarda segredos incríveis, os mais importantes e que mais influenciam nossa conduta na vida adulta. Temos que estudar a nós mesmos, de coração e mente abertos para o que possa surgir. E com certeza, surgirão muitas coisas, muito do que você nem imagina que é você mesmo, que constitui o seu “eu” atual.

Mas... o que fazer com essas descobertas? Não tenho dúvidas de que esse é o ponto mais difícil. De posse de tudo o que nos causa tristeza, angústia, insegurança e algumas atitudes equivocadas, inicia-se uma batalha de titãs! De um lado o “eu consciente” agora conhecedor dos traumas todos, e de outro esses mesmos traumas insistindo em ainda comandar cada situação. É preciso uma dose gigantesca de lucidez, pra perceber quando somos manipulados pelas vivências negativas do passado. E é aí que entra o direcionamento. Ou a gente pira de vez com tudo que descobre sobre si mesmo, ou reúne esses sentimentos e os direciona para algo. Temos claros exemplos disso circulando pela mídia. Pessoas que, por exemplo, passaram por graves problemas de saúde e transformaram o trauma em ajuda ao próximo, criando ONGs, ou buscando nelas desenvolver o voluntariado. Imagino o mesmo com os poetas, compositores, escritores... quando lemos suas obras, nos emocionamos e ficamos nos questionando sobre tamanha inspiração. Provavelmente eles conseguiram direcionar seus sentimentos para essas produções... amores possíveis e impossíveis, saudade, medos, perdas... Cabe a cada um, descobrir o que pode fazer de bom com os resquícios negativos das experiências já vividas. O que não dá é pra simplesmente ficar parado, sem fazer nada, permitindo que os fantasmas do porão continuem a nos assombrar, que nosso “eu” fique dentro das caixas, lacrado, guardado no escuro para que a gente possa fingir que ele não existe. É preciso que sejamos capazes de nos enxergar, para então abrir os olhos para o mundo... e para a vida!

terça-feira, 6 de maio de 2014

"Eu quero a sorte de um amor tranquilo..."

Eu sei, você também quer! Depois que passamos por toda a turbulência das paixões adolescentes e relacionamentos problemáticos que deixaram profundas cicatrizes, a gente precisa dessa calmaria. Um amor simples, suave como a brisa de outono, leve como a bailarina flutuando ao som de suave música, aconchegante como aquele moletom velho.
Temos a mania de acreditar que a intensidade é uma virtude, o tal “carpe diem” levado ao extremo, mas nada que é exagero faz bem, inclusive o amor. A gente mergulha de cabeça, sem saber se o que temos à frente é um rio raso, cheio de pedras, ou um mar revolto. Estamos cegos para o real, e vemos uma bela lagoa, profundidade ideal, ondas suaves quando sopra o vento. E aí é “se jogar” e “se ferrar”!
O amor precisa ser racional e, mais pensar do que sentir é tarefa difícil. Somos muito mais emoção do que razão, a sociedade nos empurra pra isso, prega que devemos sentir, ouvir o coração, porque se pensamos demais somos pessoas frias, egoístas, insensíveis. Mas quando a gente dá o tal mergulho e quebra a cara, não tem ninguém para nos salvar e às vezes ainda somos obrigados a ouvir “você deveria ter ido com calma, se envolver tanto em tão pouco tempo... isso é loucura!” Raiva, culpa, decepção e mais uma porrada de sentimentos negativos nos invadem.
Um dia a gente cansa, e aí abre os olhos! Vê com um certo espanto no que já se meteu, a gente ri de algumas coisas, chora por outras. E então sabe que, a partir daquele momento, é preciso ser diferente, um novo salto errado pode ser fatal. A gente cansa de aventuras emocionais, da bipolaridade de alguns relacionamentos, da falta de cumplicidade. A gente cansa dos exageros, do vazio, de se entregar, de cuidar do outro sem que haja reciprocidade. E então a gente começa a sonhar e esperar por algo apaziguador... a tal “sorte de um amor tranquilo”. A gente quer alguém pra conversar... falar sobre banalidades, sobre músicas, filmes, livros, um programa de TV, uma notícia que está na mídia, mas também alguém com conteúdo pra um papo mais “cabeça”, que tenha argumentos, que nos faça pensar. Mais que isso, a gente quer alguém que saiba o significado de “conversar”, que não transforme isso em um monólogo. A gente também quer alguém capaz de suportar o silêncio, de conviver bem com ele, de valorizar o som tranquilo do nada. O ruído intenso do mundo muitas vezes nos cansa, o silêncio é essencial, e é triste quando alguém precisa de sons incessantes porque não é capaz de conviver com seu próprio silêncio.
A gente quer e precisa de um porto seguro, porque já passou por muitas tempestades, já navegou à deriva... não que as tempestades não mais ocorrerão, mas quando se aproximarem é reconfortante ter pra onde “correr”... um par de braços que não precisam ser fortes, mas sim capazes de nos enlaçar, nos aquecer, oferecer conforto, calma, paz. É bom ter um ombro pra se recostar, é bom oferecer seu ombro também quando o outro precisar.

Enfim, a gente chega em um ponto em que precisa de cuidado, porque a gente sabe que merece! Queremos oferecer carinho, mas também receber. Você quer ir pra cozinha fazer uma lasanha deliciosa, enquanto seu companheiro te ajuda pegando ingredientes aqui e ali, ou simplesmente sentado ali próximo, conversando sobre o dia de ambos... quem sabe ele pegue o violão e fique brincando, os dedos bailando sobre as cordas (fui longe?!!!). Agora, falando por mim, sempre sonhei com essa cumplicidade, sei que é resquício do relacionamento antigo, em que isso não existia, e é algo que se tornou meio que conto de fadas, difícil demais pra realmente acontecer. Mas será? Será que na minha cozinha essa cena não vai mesmo acontecer? O banho nos cães, a guerra de travesseiros, a brincadeira na rua com a água, enquanto lavamos o carro, o vinho com pizza, a cerveja com bobeirinhas no domingo, sentar sob o sol de outono e curtir a brisa da tarde sussurrando alguma canção. Sorrisos à toa, olhares à toa. Parece tão simples e ao mesmo tempo meio inalcançável. Será que isso existe??? Contou-me uma amiga, durante uma conversa sobre relacionamentos, que certa vez, enquanto ela dormia à tarde, o companheiro com passos leves, foi até o quarto pra fechar a porta, evitando que os cãezinhos fizessem barulho e ela pudesse despertar. Eu pensei na simplicidade daquele gesto, e no grande carinho ali presente. O fato me tocou, me fez refletir, me fez descobrir que eu quero muito alguém que feche a porta... com passos leves... sussurros... carinho... cuidado... eu quero essa sorte, “a sorte de um amor tranquilo”!!!

domingo, 27 de abril de 2014

Pelo direito de ser balzaquiana!

- Tenho 33...
- Nossa! Não parece!
Mas eu quero! Eu quero que pareça! Quero meu direito de ter 33, com todos os tombos que levei e tudo que aprendi. Quero cada degrau que subi até aqui, cada ano vivido, todos os sonhos alcançados e os que ainda estão por vir.
Quero, como hoje consigo, sair pela rua de bermuda jeans, uma blusinha qualquer, cabelo preso sem nem ligar pra onde vou, sem me importar com a opinião de ninguém. Quero acordar arrasada depois de uma noite mal dormida e sair como um urso panda (olheiras enormes!) para o trabalho porque não tenho a menor vontade de esconder a minha tristeza numa falsa alegria. Ou ainda quero acordar depois dessa mesma noite e decidir que não vou trabalhar, que vou ficar na cama o dia todo debaixo de um cobertor, assistindo todas as bobeiras da TV aberta, porque agora, aos 33, depois de muita luta, eu simplesmente posso me dar esse luxo!
Quero sentar num boteco de esquina, sem glamour nenhum, e beber uma cerveja estupidamente gelada com as amigas e rir até não aguentar mais, tomar café da tarde juntas, assistir um filme no cinema numa tarde de domingo, parar o carro e admirar o entardecer lindo de outono, porque a tranquilidade dos meus 33 me permite! Eu não preciso ir pra balada quatro dias na semana, eu não enlouquecerei se ficar em casa, curtindo um descanso merecido durante um fim de semana ou feriado.
Eu quero a capacidade de me refazer, me reconstruir, que hoje eu tenho... notar que não me desespero mais com cada plano que dá errado. Quero engordar porque passei uma fase comendo todas as besteiras possíveis, e emagrecer porque, de repente, sei lá, nada me desperta o desejo de comer... tudo parece tão sem graça.
Quero ouvir as maravilhosas músicas antigas, de todos os ritmos, e não saber nenhuma das que estão nas paradas de sucesso atualmente! Quero usar minhas camisetas de bandas de rock, com meu All star preto e meu jeans velho, porque é assim que me sinto bem. Quero deixar meus sapatos de salto guardados, mofando, porque eu simplesmente os odeio! Muito pior que isso, quero (e faço sempre!) colocar aquele cd de mil anos atrás, com as melhores músicas do “É o tcham” e dançar feito uma louca, porque ainda sei TODAS as coreografias! E daí eu me sentir “a nova loira do tcham” aos 33?!!! Mesmo que na terceira, talvez quarta música eu já esteja morta, sem ar, com as pernas latejando, totalmente descabelada, mas feliz, muito feliz! E... é bem isso... eu quero ser feliz com pouco, porque aos 33 eu sei o que realmente é importante. Eu sei que é preciso algum conforto pra se viver, mas também sei que em alguns momentos, o que pode nos salvar não é o dinheiro, e sim o carinho de bons amigos, os braços de um doce amor, e algum pouco de fé, seja ela direcionada para o que for.
Quero ter meus 33, tão despreocupados, tão livres de “pré-conceitos”, de “pode ou não pode”, e o conhecimento que tenho do meu corpo e de tudo que sou capaz de fazer com ele, e que nem imaginava antes dos 30! Quero notar que o tom da minha voz é cada vez mais baixo, porque meus argumentos estão fortalecidos, que meus passos não são mais tão apressados porque aprendi a valorizar meu tempo, não correndo feito louca, pra realizar mil tarefas, mas sabendo priorizar o que realmente vale a pena, e sempre deixando um pouquinho de carinho por onde passar, oferecendo um abraço a quem possa precisar, deixando um sorriso quando é o que tenho pra oferecer.
Quero ter ao meu lado, quem note tudo isso... e não queira que eu seja algo que não sou. Quero ter meus momentos de “adolescente desvairada”, mas também de mulher... de mulher madura, calma, às vezes cansada. Quero aos 33, oferecer meu colo e também ter um porto pra ancorar nos dias de tempestade, porque hoje eu sei o quanto isso é valioso.

Enfim, quero ser quem sou... com cada ano somado, com o passado que trouxe valiosas lições, mas já ficou pra trás, com o presente de cada dia, vivido com toda a sabedoria, e com o futuro, incerto, sem planos, mas que está lá, me esperando, e onde sei, chegarei ainda melhor! 

domingo, 20 de abril de 2014

Renascer!!!

Páscoa... ressurgir, reconstruir, renascer. Quantas vezes na vida não passamos por momentos de renascimento?!!! E para que o novo nasça, é preciso que o velho morra, é preciso desapego e, nem sempre estamos preparados pra isso.
Às vezes olhamos o terreno ali, cheio de entulhos pra serem retirados e nos sentimos sem força pra fazer a “limpeza”. Outras o terreno está completamente vazio, o que não torna mais fácil a coragem para o início da construção. De repente chove, é preciso parar, e a gente nunca sabe a intensidade da chuva e quanto tempo irá durar. Sem ânimo, alguns constroem sem esmero e, um dia, tudo simplesmente desmorona! A base precisa ser sólida e isso leva tempo... necessita de muita paciência... e coragem extrema!
O primeiro passo é perceber que não dá pra ficar parado, não dá pra ficar esperando um milagre sem tomar algumas atitudes. É preciso se afastar do antigo e mergulhar de cabeça no novo, perceber as recaídas se aproximando e não permitir que elas mudem o curso da nossa reconstrução. Temos que aceitar os ciclos... inícios e finais, sem prolongar ou adiar o momento em que as duas pontas se encontram e o ciclo se fecha. É preciso cuidado pra não ficar preso ali dentro, perdendo toda uma vida que há do lado de fora.
Não há tarefa mais difícil e complexa que renascer, porque nunca é o que desejamos... mas sim o que precisamos, uma necessidade! Dói abandonar o “eu antigo” e tudo o que havia junto com ele, é triste perceber que é o único caminho, a gente sempre fica adiando o encontro com o novo, mas chega um momento em que não dá, é preciso aceitação, encarar a realidade, é preciso vencer!
Se você está aí, adiando o seu momento, hoje é o dia ideal! Se não há mais o que fazer, se um ciclo realmente se encerrou, aceite o ponto final, não coloque reticências pensando que de repente a história possa continuar, não passe longo tempo na vírgula, ela é apenas uma pausa rápida. Encerre, sinta a tristeza, não deixe de viver sua dor, mas não a prolongue por muito tempo! Comece outro parágrafo, vire a folha, troque o livro. Há tanto pra se viver... comece logo a sua reconstrução, busque o seu renascer com força, coragem, paciência, carinho...
Eu posso, você pode... a gente só precisa querer!


Esse não era o texto de hoje... é domingo e... no último domingo eu via um ciclo se fechar sem que fosse meu desejo... sentei no mesmo banco... olhei pro mundo e decidi vencer mais um dia... um de cada vez... com cuidado, atenção, carinho, fazendo o que sei fazer de melhor... plantando alguns sorrisos por aí!!! Bora renascer!!!