Não nascemos psicologicamente
“estragados”... não escolhemos ter esse ou aquele defeito. Não pedimos pelos
tombos que enfrentamos pela vida para depois dizermos orgulhosos que nos
levantamos, ainda que com todas as cicatrizes. Chegamos ao mundo como uma folha
em branco e ali recebemos tudo o que cada um nos escreve, as coisas boas e
também as ruins. E, como na folha, ainda que a gente apague o que nos parece
“errado” e escreva algo por cima, a marca fica.
Ela não escolheu ser a louca
ciumenta que vasculha tudo de seus parceiros e fantasia absurdos. Algum garoto
imaturo é que lhe despertou essa insegurança ao lhe esconder suas reais
intenções, ao mentir por tantas vezes e usá-la da forma que quis e pelo tempo
que lhe interessou.
Ele não escolheu ser o cara
durão e insensível que pega todas e não se apega. Que não sente, que não chora,
afinal essa frescura toda de emoções não é coisa de homem. Seu pai lhe ensinou
assim. Não queria um “maricas” em casa.
Ela não optou por tamanha
insegurança quanto ao futuro, quanto a construir planos, a sonhar... Na
verdade, desde que iniciara aquele namoro ela sonhava... pensava no casamento
no campo numa tarde de outono, nas viagens, nos domingos de preguiça, nos
cachorros que teriam, no quão especial seria dividir a vida com ele. Mas então
seus planos desmoronaram quando ela notou que não havia divisão e ela tinha que
cuidar da vida dos dois. Seus planos ruíram quando não teve o casamento no
campo, nada além de comprar uma aliança, quando as viagens não aconteceram...
quando a vida não aconteceu. Cada flash de um futuro se tornou passado quando
ela abandonou aquela relação na qual há muito já fora abandonada. Ela já passou
dos 30 e começar do zero é angustiantemente triste e dolorido. Planejar?
Sonhar? Pensar num futuro? Pedir aos céus para que ela não esteja escolhendo
outro caminho errado? Ela está cansada...
Ela não tem “status de
relacionamento” nas redes sociais, evita fotos em que esteja com o namorado.
Apesar de todas as coisas lindas que escreve pensando nele, não quer que
ninguém mais saiba, não quer mais que desfaçam de suas palavras. Ela tem medo!
Medo de precisar excluir as fotos, medo de observar os comentários quando ele
voltar a ser “solteiro”, medo de que exista uma “outra” que observa tudo isso e
dá risadas do amor que ela verdadeiramente sente. Ela já passou por isso uma
vez e não deseja um replay.
Ele é calado. Enquanto a
recente esposa fala sem parar sobre os acontecimentos do dia, ele apenas ouve.
Ela o abraça apertado, ele retribui, ela o beija, ele retribui. Ela diz que o
ama e ele responde que também. Ela pergunta sobre o fim de semana e ele diz que
tanto faz. Eles se desentendem, ela chora, ele dorme. Ela é intensa e sente
falta de que ele seja também... Ele já foi, mas ouviu que “você me sufoca”,
“você fala demais”, “você sempre quer decidir tudo”, até que chegou no “é
melhor darmos um tempo” e ele descobriu que enquanto tirava o seu tempo, a
outra parte se divertia por aí. Ele não quer errar de novo, não quer se
entregar tanto de novo, não quer sentir de novo!
Ela adorava escrever. Desde a
escola participava de vários concursos literários e ganhara vários prêmios. Ela
sempre lhe escrevia... cartas, cartões, bilhetinhos de amor. Passava horas
suspirando e arrancando as mais belas palavras do coração para entregar a ele.
Na maioria das vezes ele nem abria o envelope, deixava jogado em algum canto...
ela recolhia e guardava... o envelope intacto... todos os seus sentimentos ali
desfeitos como se nada fossem. Hoje ninguém sabe... mas ela adorava escrever!
Ela é extremamente
perfeccionista. Faz de tudo para agradar a todos. Nos seus relacionamentos
cuida de tudo. Tenta parecer bonita e mais jovem, faz cursos dos mais variados,
cozinha bem, cuida da casa como a mãe sempre fez, sabe bordar, tricotar,
costurar. Comprou o kama sutra para também agradar na cama, afinal isso está em
primeiro lugar na lista masculina não é? Ela precisa do reconhecimento que
sempre buscou do pai na infância mas nunca teve, ainda que fosse a filha
exemplar.
Ela desconfia de tudo, mesmo
que lute intensamente para não demostrar tanto. Coisas insignificantes se
tornam um pesadelo para ela. Tantas vezes passa as madrugadas pensando e
imaginando fatos que provavelmente jamais ocorrerão e não passam de fantasias
absurdas da sua mente doentia. Ele a traiu... longos anos vivendo apenas para
aquele homem, abandonando seus sonhos para ajudar a realizar os dele. Enquanto
ela morria de trabalhar fora e em casa, eles passavam os dias juntos. Enquanto
ela vestia uma roupa especial e o aguardava com um jantar carinhosamente
preparado, ele ia para a cama com a outra, chegava em casa, comia feito um leão
e dormia até o outro dia. Ela esperava que então, ao amanhecer, eles pudessem
se amar, mas ele precisava ir... para o trabalho, para a academia... pra tantos
lugares menos para o lar que ela lutou para que existisse. Ela queria um
filho... ele estava ocupado demais com a outra.
“Você faz tudo errado!”
“Eu não sou bom o suficiente para você.”
“O problema não é você, sou
eu!”
“Vamos dar um tempo...”
“Eu te amo, mas...”
Quem escolheria passar por
situações tão dolorosas? Que mulher escolheria se tornar a “louca” quando já
foi sensata, tranquila e segura? Que homem optaria por se tornar o frio sem
sentimentos que pega todas mas está sempre sozinho, perdido em noites com
mulheres que nem lhe interessam pelo fato idiota de provar sua masculinidade? Quem
escolheria carregar dores, traumas e cicatrizes? Quem escolhe lutar todos os
dias para mudar a pessoa que se tornou e que não deseja mais ser?
É exaustivo tentar reduzir as
marcas que nos deixaram, notar que escolhemos o caminho errado e que só
descobrimos depois de muito caminhar e que agora, estamos perdidamente sem
rumo. Os erros nos fazem aprender. As cicatrizes são provas de que
sobrevivemos, mas elas não são capazes de mostrar o tamanho do estrago lá
dentro. É bonito termos resistido aos temporais, mas só cada um sabe a luta que
é e será para que haja o mínimo sinal de reconstrução.
