O amor verdadeiro (se é que existe
falso amor), quando o coração se abre e se entrega, esse não escolhe quando
acontecer. Você não ama alguém pelo que a pessoa possui, não escolhe classe
social, modelo de carro, casa ampla com piscina, conta bancária... e isso é o
que há de mais bonito nesse sentimento. Ama-se alguém sem motivos concretos,
ama-se o olhar, o toque na pele, a voz que acaricia os ouvidos e a alma. E isso
vem do que cada um é, e não do que possui, tanto materialmente, quanto
psicologicamente. Isso porque lá dentro, somos como potes em que vamos
acumulando experiências. Há pessoas que ainda são potes vazios, o que não
impede de serem amadas por quem já possui algum conteúdo, porém não são ainda
capazes de oferecer algo em troca. Mas nem isso o amor vê, ele acontece! É
fácil “amar” quem está bem, num momento feliz, quem está estruturado. É fácil
se ligar em alguém pronto. Há quem decida esperar a tempestade do outro passar
para então “amar”, e coloco a palavra entre aspas porque isso jamais será amor.
Você ama quando enfrenta junto o que há também de ruim, você sorri
euforicamente com cada conquista do outro, e vê nele a admiração pelas suas
(que na verdade é o que mais vale). Você passa a se inteirar de assuntos que
interessam ao outro e que você não tem conhecimento algum, porque aquilo também
é parte do que você ama. E vê que o outro faz o mesmo, assiste um filme que
você adora, pra poder conversar sobre ele, ouve uma canção melosa que você vive
ouvindo e até repete o refrão, só pra te agradar.
Esse amor, que para mim é o único, não
acaba, nunca deixa de ser, não diminui de intensidade. Quando se ama quem
alguém é, por mais que o tempo e a distância se façam presentes, o amor não
abandonará o coração. Quando você ama alguém, passará a vida desejando o bem
para aquela pessoa, rezando em silêncio para que seus sonhos se realizem, e que
tudo sempre corra bem. Isso porque ninguém perde a essência do que se é.
Materialmente nossa vida passa por inúmeras transformações, ganhamos e perdemos
o tempo todo. Podemos em um dia ter a vida dos sonhos, a casa ideal, carro
luxuoso, e condições para ainda mais, e então, dali a pouco, tudo se desmorona.
Quem “ama” o que o outro tem possui um “amor” em constante risco. Quem ama o
que o outro é, ama a segurança de algo que não vai desmoronar. A paixão, que
sempre acompanha o amor, principalmente no início dos relacionamentos, essa sim
pode ceder, diminuir, se tornar esporádica, vindo à tona em alguns momentos,
mas o amor, o carinho e a admiração que se nutre por alguém, aquela coisa
gostosa que aquece o coração, isso nunca se vai. E não se restringe a uma
pessoa só, o “grande amor de uma vida”... somos capazes de muito mais que isso!
E de amar algumas pessoas durante toda a vida, mesmo que já não estejam
presentes em nossos dias. Mas... entender o amor leva tempo, e vivê-lo mais
ainda. É preciso um pote cheio de experiências. É preciso saber o que não é
amor, para então descobrir o que verdadeiramente é, porque o amor também é
comparativo. Você só consegue precisar o quanto ama ou amou alguém quando passa
por experiências que colocam os sentimentos à prova. Algumas vezes levamos anos
em inúmeros momentos e relacionamentos, para perceber que, lá atrás, com aquele
alguém, era amor! E será para sempre... Vemos tantas histórias de reencontros,
pessoas que tiveram seus caminhos separados, mas permaneceram unidas pelo
coração. E então, um belo dia, a vida oferece a chance de retomar esse amor.
Questão de sorte? Destino? Quem sabe? Como se diz por aí “coisas do amor”. E
copiando o poeta Renato Russo, em uma de suas tantas canções que tratam sobre o
amor “Quem inventou o amor, me explica, por favor?!” E você... sabe explicar?
Sabe sentir? Sabe viver o amor? Está pronto para recebê-lo? É capaz de também
oferecer? Afinal, de que vale um coração no peito, se ele não for capaz de
passar pelas arritmias descompassadas de quem ama?

