domingo, 3 de agosto de 2014

Mais sobre o amor...

O amor verdadeiro (se é que existe falso amor), quando o coração se abre e se entrega, esse não escolhe quando acontecer. Você não ama alguém pelo que a pessoa possui, não escolhe classe social, modelo de carro, casa ampla com piscina, conta bancária... e isso é o que há de mais bonito nesse sentimento. Ama-se alguém sem motivos concretos, ama-se o olhar, o toque na pele, a voz que acaricia os ouvidos e a alma. E isso vem do que cada um é, e não do que possui, tanto materialmente, quanto psicologicamente. Isso porque lá dentro, somos como potes em que vamos acumulando experiências. Há pessoas que ainda são potes vazios, o que não impede de serem amadas por quem já possui algum conteúdo, porém não são ainda capazes de oferecer algo em troca. Mas nem isso o amor vê, ele acontece! É fácil “amar” quem está bem, num momento feliz, quem está estruturado. É fácil se ligar em alguém pronto. Há quem decida esperar a tempestade do outro passar para então “amar”, e coloco a palavra entre aspas porque isso jamais será amor. Você ama quando enfrenta junto o que há também de ruim, você sorri euforicamente com cada conquista do outro, e vê nele a admiração pelas suas (que na verdade é o que mais vale). Você passa a se inteirar de assuntos que interessam ao outro e que você não tem conhecimento algum, porque aquilo também é parte do que você ama. E vê que o outro faz o mesmo, assiste um filme que você adora, pra poder conversar sobre ele, ouve uma canção melosa que você vive ouvindo e até repete o refrão, só pra te agradar.

Esse amor, que para mim é o único, não acaba, nunca deixa de ser, não diminui de intensidade. Quando se ama quem alguém é, por mais que o tempo e a distância se façam presentes, o amor não abandonará o coração. Quando você ama alguém, passará a vida desejando o bem para aquela pessoa, rezando em silêncio para que seus sonhos se realizem, e que tudo sempre corra bem. Isso porque ninguém perde a essência do que se é. Materialmente nossa vida passa por inúmeras transformações, ganhamos e perdemos o tempo todo. Podemos em um dia ter a vida dos sonhos, a casa ideal, carro luxuoso, e condições para ainda mais, e então, dali a pouco, tudo se desmorona. Quem “ama” o que o outro tem possui um “amor” em constante risco. Quem ama o que o outro é, ama a segurança de algo que não vai desmoronar. A paixão, que sempre acompanha o amor, principalmente no início dos relacionamentos, essa sim pode ceder, diminuir, se tornar esporádica, vindo à tona em alguns momentos, mas o amor, o carinho e a admiração que se nutre por alguém, aquela coisa gostosa que aquece o coração, isso nunca se vai. E não se restringe a uma pessoa só, o “grande amor de uma vida”... somos capazes de muito mais que isso! E de amar algumas pessoas durante toda a vida, mesmo que já não estejam presentes em nossos dias. Mas... entender o amor leva tempo, e vivê-lo mais ainda. É preciso um pote cheio de experiências. É preciso saber o que não é amor, para então descobrir o que verdadeiramente é, porque o amor também é comparativo. Você só consegue precisar o quanto ama ou amou alguém quando passa por experiências que colocam os sentimentos à prova. Algumas vezes levamos anos em inúmeros momentos e relacionamentos, para perceber que, lá atrás, com aquele alguém, era amor! E será para sempre... Vemos tantas histórias de reencontros, pessoas que tiveram seus caminhos separados, mas permaneceram unidas pelo coração. E então, um belo dia, a vida oferece a chance de retomar esse amor. Questão de sorte? Destino? Quem sabe? Como se diz por aí “coisas do amor”. E copiando o poeta Renato Russo, em uma de suas tantas canções que tratam sobre o amor “Quem inventou o amor, me explica, por favor?!” E você... sabe explicar? Sabe sentir? Sabe viver o amor? Está pronto para recebê-lo? É capaz de também oferecer? Afinal, de que vale um coração no peito, se ele não for capaz de passar pelas arritmias descompassadas de quem ama?

A outra

Parada na frente do espelho ela tenta se desvendar, se encontrar. Não sabe se daqui em diante será essa na qual se transformou, ou se a de antes voltará para tomar de novo seu lugar. Ela olha... pensa... se assusta. Não consegue ainda processar tamanha mudança, não sabe como em tão pouco tempo, sua alma adquiriu essa nova forma. E mais que tudo isso, ainda não sabe quem prefere... qual é a melhor: se a antiga, intensa e eterna apaixonada,  sem medo de mergulhar de cabeça em lagos rasos, ou se a atual, tão racional, que lhe parece tantas vezes até fria. Ela sabe que precisa cuidar de seu coração, não há espaço para novas feridas. Mas seu novo eu, que veio sem ser convidado, talvez para garantir-lhe a sobrevivência, assusta! Um vazio estranho lhe toma conta, como se nada mais existisse dentro de si, um corpo oco, livre de sentimentos. Nessa nova vida, os dias passam sem sentido, maquinalmente, e nada lhe desperta para o mundo... o olhar sem brilho, a pele fria, o coração que já não bate. Ali, mirando seu reflexo, toca o rosto pálido, antes talvez houvesse lágrimas em seus olhos, mas hoje, nem isso. Da mesma forma que essa outra não consegue sorrir, também não é capaz de chorar. Ela sabe... pedira tanto para ser exatamente assim, agir com a razão, colocar o cérebro no comando, mas agora começara a notar que, a vida não fazia sentido algum sem um pouco de paixão, dor, intensidade. Se questionava como determinadas pessoas conseguiam conviver com essa forma de ser. Em poucos meses ela já sentia falta de quem fora. Começava a preocupar-se com o que poderia oferecer a alguém, se seria um dia capaz de sentir algo mais forte, de ter o amor lhe invadindo a alma, os olhos brilhando novamente, o sangue correndo quente, e o coração pulsando no peito. O passado a havia destruído, e não queria dar a alguém os escombros que ficaram pelo chão. Precisava estar inteira para então partilhar seu todo... precisava de força para reerguer as paredes, mas ao ver tanta destruição a vontade que tinha era de abandonar tudo. Sentia-se fraca, cansada e com um medo inconsciente de uma nova tempestade. Mirou novamente seu reflexo no espelho, a mão no peito procurando o tamborilar da vida que ainda houvesse por ali, mas o que ouvia era seu novo e incômodo silêncio, o frio do corpo e da alma, ou talvez a falta dela. Um nada que tomara conta de tudo. Sentia-se perdida num mundo estranho... Comparando aquela com essa, talvez preferisse voltar... voltar a sentir, a chorar, a sorrir... voltar a ter vida, e algo mais dentro de si, perdera sua alma e talvez fosse tarde demais para reencontrá-la.