quinta-feira, 25 de março de 2021

Mais uma carta idiota


 

Os dias estão difíceis de serem vividos! Cada minuto é uma batalha travada pra aguentar sem fazer uma loucura. Cada manhã uma espera pela noite, cada noite uma espera por mais um dia. Odeio tudo! A rotina, o trabalho, as pessoas e principalmente eu mesma. Odeio essa vida enfadonha a que tenho me submetido, todos os dias sempre iguais fazendo coisas que não gosto, aturando pessoas que não gosto, vendo o tempo passar e esperando que tudo isso acabe, seja de que forma for. Odeio que todas as vezes em que algo não vai bem, eu me pergunte tantas vezes o motivo do nosso desencontro. Nos últimos dias você tem povoado minha mente com muita frequência e a intensidade de sempre. A cada hora me vejo com o celular na mão, digitando seu nome no aplicativo de mensagens e lendo as conversas de anos atrás. Nossa vida é repleta de lacunas, longas lacunas, longos anos vazios e todas as impossibilidades reunidas.

Eu me odeio por odiar tudo isso porque sei que, como se diz por aí, estou “reclamando de barriga cheia” já que tenho uma vida confortável. Então me bate um arrependimento, um medo, um remorso e tento buscar coisas positivas para me agarrar. Isso não tem funcionado ultimamente. Estou cansada! Estou cansada demais para me agarrar a algo, estou cansada demais e só quero me afundar. Estou cansada, mas não posso... Não posso parar, não posso chorar, não posso fraquejar! Eu preciso ser a rocha na qual tantos se apoiam, eu preciso continuar fazendo as piadas de sempre, tendo as ideias criativas e motivadoras de sempre, me dedicando ao trabalho, sendo fiel, sendo madura, sendo forte, sendo tantas coisas que não quero ser, sendo tantas coisas que não sou, sendo tantas coisas que já fui e jurei não ser novamente.

Volto para nossas conversas, minhas mãos têm vontade de lhe escrever, mas silenciam por medo, porque não quero aparecer em sua vida outra vez e estragar tudo que você conseguiu construir, porque não quero ser “a outra”, porque não quero ouvir a sua história com ela, porque tudo já tem sido demais pra mim! Queria sentar contigo pra tomar um café, olhar seus olhos mais uma vez, segurar suas mãos, ouvir sua voz. Queria dizer tanta coisa! Queria contar todos os sonhos que tive “conosco”, os planos que fiz, as cenas que criei, mas não é justo! Não é justo com a gente de novo!

Não é justo nem mesmo lhe escrever essa carta, mas hoje realmente, foi preciso! Essas palavras precisavam sair de mim, acho que é o pouco que me restou. Meu eu está se esvaindo, indo embora, submergindo sob as ondas do cotidiano, das responsabilidades, do que é correto ser feito e nunca do que tenho vontade de fazer. Eu não me encontro mais em mim, o pouco que me resta do que fui está entrelaçado a você. E “você” é território proibido, é só um sonho, só desejo, só saudade. Você é tudo de bom que ficou e é o que de melhor continuará para sempre dentro de mim.

 

“Hoje a tristeza não é passageira
Hoje fiquei com febre a tarde inteira
E quando chegar a noite
Cada estrela parecerá uma lágrima

terça-feira, 17 de março de 2020

Um fio de vida...


Eu nasci toda errada... nasci menina para um pai que queria menino. Atrasei a previsão do parto para surgir no mundo em um 2 de novembro, é isso aí, no dia de finados! Nasci pra vida no dia em que se comemoram os mortos. Claro que fazer festa de aniversário pela minha vida em uma data dessas era um total desrespeito às “regras cristãs”. Fui uma aluna exemplar, apesar de que, em uma certa idade, isso me custasse o que hoje chamamos de bullying. Fui boa filha, apesar dos problemas de saúde que tanto preocupavam minha mãe e de umas poucas rebeldias da adolescência, afinal ninguém é de ferro. Eu fazia de tudo para ter aprovação, pra ser perfeita, pra não dar trabalho, já que eu não era um menino, que eu fosse então a menina ideal, o que no fim das contas não fez diferença nenhuma. Fiz tudo errado quando não desobedeci às ordens, quando não gritei, esperneei, quando não bati portas, quando não fiz valer minhas vontades.
Eu queria que tudo isso acabasse. Que fosse hora de encontrar meus avós do outro lado da vida... queria tanto conhecê-los... queria que estivessem me esperando pra um abraço, pra me dizer que estão orgulhosos de mim, que eu cumpri minha missão, que eu posso enfim descansar desse mundo insano!
Não é fácil aguentar a vida, não é fácil enfrentar a rotina, não é fácil entender e aceitar que as coisas não são como queremos e sim como deve ser, como alguém sei lá de onde decidiu que deve ser, ou como a gente mesmo, sem coragem, aceitou que será. E então a gente finge que tudo bem, a gente olha pra cima, respira e pede força pra dar conta do que ainda tem por vir, mesmo sem querer. Há dias que se foram... há dias por vir... é preciso enfrentá-los, é preciso vivê-los, querendo ou não, encenando feito atores de uma novela, capítulo por capítulo, até o grande episódio final!

domingo, 31 de dezembro de 2017

Que seja leve!

       

Quero ser um troféu! Me sentir exibida em prateleira que muitos veem mas pertence a apenas um, que esses muitos desejam mas somente um pode ter. Quero estar entre muitas mulheres maravilhosas e receber um olhar cheio de vontade apenas de mim. Não quero ter ciúmes provocados, mas que essa fusão entre nós dois cause ciúmes a todos que ainda não alcançaram algo assim. Quero ao meu redor braços fortes para que me defendam não porque sou frágil, longe disso, mas porque sou segura e bem resolvida e tenho ao meu lado um homem seguro e bem resolvido o suficiente para se impor quando for preciso e deixar claro para o mundo que "ali não"!
Que sejamos, enquanto juntos, como namorados recentes, de olhos brilhando, suspiros soltos, beijos demorados, abraços apertados. Que aquela rotina ruim não chegue! Já temos tantas obrigações no dia a dia, então que o relacionamento não se torne mais uma delas, com hora certa pra tudo e com tudo sempre igual. Que haja tempo pra se caminhar de mãos dadas, observar um ou outro pôr do sol entre beijos, sorrisos e boas histórias pra se contar. Que haja dias de balada e dias de sossego. Dias com os amigos e dias de cumplicidade a dois. Que existam convites especiais, e que um não espere a atitude do outro sempre. Que estando juntos, nenhum seja sozinho, pois a solidão é importante, mas não pra se viver na presença de alguém. Que cada um tenha seus momentos, mas que os momentos de vida lado a lado sejam realmente de companheirismo.
Que ninguém precise carregar o relacionamento sozinho. É pesado demais, doído demais, triste demais, exaustivo demais! Que as coisas do dia a dia sejam realizadas em união, sem tarefas divididas, sem deixar para o outro sempre as mesmas obrigações. Que o homem não seja o provedor e a mulher a dona de casa! Que os gastos sejam divididos e as tarefas de um lar da mesma forma.
Que haja sensibilidade para perceber os dias difíceis pelos quais o outro passa. Que um seja forte quando o outro precisar fraquejar. Que ninguém assuma a figura de “pai ou mãe”, mas que ambos sejam cúmplices e amigos. Que cada um saiba que existe uma mão pra segurar quando for preciso e que não se depare com vazios nos momentos em que mais precisar.
Que exista diálogo e ninguém precise dormir com o coração cheio de tristeza, afinal nunca se sabe se vamos acordar no dia seguinte.
Que, se um dia, não for mais possível sorrir, ter os olhos brilhando, cuidar e ser cuidado, conversar como amigos, amar e ser amado, que tenhamos força para não nos demorarmos onde não há mais espaço para nós. Que quando os dias se tornarem todos iguais, sejamos capazes de buscar novas paisagens. Que quando nosso coração bater cheio de tristeza, consigamos substituí-la por novas alegrias antes que ele se torne machucado demais para bater feliz novamente.
Que tenhamos a capacidade de fazer valer a pena todos os dias recebidos nessa jornada que chamamos de vida!

quarta-feira, 10 de maio de 2017

Procura-se imperfeitos...

Eu não sou um amontoado de folhas em branco prontas para uma história que vai começar. Também não sou o início do livro, com apenas os primeiros capítulos. Sou daqueles que assustam leitores iniciantes pela quantidade de páginas, mas que fascina os compulsivos que adoram “encher as mãos e os olhos” com quantidade mesmo sem saber ainda da qualidade.
Eu tenho minhas marcas, as que estão por fora e também revelam um pouco de mim, as que estão por dentro e não são tão belas quanto as primeiras, mas que mostram muito de mim. Para alguns isso é defeito grave, para outros é maturidade essencial. Eu já tentei apagá-las por completo e isso fez com que doessem ainda mais, então aceitei que era preciso tempo para a cicatrização e mais que isso, aceitação de que elas são o que sou, o que me tornei e o que ainda estou por ser.
Minhas dores me fizeram compreender o mundo e o próximo de forma mais carinhosa e ter o cuidado de sempre, muitas vezes exagerado, daqueles com quem convivo. Amor é cuidado... cuidado demonstra verdadeiro amor. Sempre guardei meus problemas para depois a fim de auxiliar com os problemas de outros, muitas vezes abandonei sonhos para ajudar a construir outros e isso me custou muitas decepções e talvez alguns arrependimentos, cuidei de dores alheias e fingi que as minhas nem existiam e hoje tenho total consciência de que não devo me abandonar em favor de ninguém, mas também sei que nada é tão difícil pra mim quanto isso. Eu queria tanto ser daquelas pessoas alheias a tudo, que passam pela vida sem olhar para os lados, que, se amam, não demonstram, daquelas pra quem “tanto faz, tanto fez”. Meu coração tantas vezes é um fardo pesado demais para carregar e eu doaria esse amontoado de sentimentos para o homem de lata realizar seu sonho sem nem pensar. Vai me dizer que é triste viver assim? Eu sinceramente não sei... Mas sei que não é nada fácil administrar tudo o tempo todo... não é fácil cuidar de tanta coisa... cuidar de tantos... É exaustivo quando a gente transborda amor e deseja que transbordem com a gente.
Amanheci mais uma vez me sentindo tão sozinha no mundo, querendo que alguém pegasse no colo essa dorzinha chata que vai aqui dentro, embalando como se faz com os bebês. Aquela sensação de que está tudo errado outra vez não quer passar.
Hoje saí pro mundo querendo encontrar almas gêmeas à minha, não para que se completem, mas para que eu enxergue no outro um pouco do que sou. Queria sentar num parque, sob esse sol gostoso de outono com alguém que também tenha histórias para contar, e que goste de contá-las... eu sempre gostei de ouvir! Queria me espantar com experiências parecidas e também com outras diferentes das minhas, mas não menos difíceis. Queria contar um pouco desse amontoado de coisas que não quer ficar quieto aqui dentro e ouvir que “tá tudo bem assim” que os momentos difíceis nos fazem melhores e que existem no mundo pessoas capazes de lidar com isso, de cuidar para que nossas cicatrizes não doam como já doeram quando feridas abertas.

Hoje eu daria meu coração e meu lugar para o home de lata... e iria para a terra de Oz em busca de um pouco de paz e descanso... a vida às vezes é demais para o que damos conta!

sábado, 24 de dezembro de 2016

Amor fácil

Amanheceu... é domingo! Ainda não sei se realmente estou acordada ou sonhando, porque nas repetidas vezes em que abro meus olhos sonolentos é você que ele veem bem aqui ao meu lado na cama. Tem sido assim há uns meses... Meus textos de domingo são sempre tristes, aquele vazio que bate, uma melancolia, histórias se repetindo na mente... mas esse não. Pela primeira vez nesses muitos anos os domingos tem sido leves, cheios de risadas, daquela preguiça gostosa, de sorvete, de paz!
Outras regras também foram quebradas... minhas redes sociais estão cheias de fotos de nós dois e na maioria das vezes nem penso muito para postá-las, não vem aquele medo e a insegurança que sempre foi minha companheira. No meu dedo há uma aliança de compromisso e além de me sentir uma adolescente olhando para ela, também me sinto feliz pela maneira como foi parar ali.
Desde o primeiro beijo até hoje foram 380 dias, nos quais estivemos juntos 379 deles! É realmente uma loucura, mas eu nunca gostei tanto de ser louca! Apesar de um ano ter se passado, ainda parece que estou sonhando e vivo torcendo para não acordar mais. Cada dia com você é especial, não importa o que aconteça nele.
Eu queria encontrar palavras para explicar a sensação que é quando me aninho em seus braços todo início de noite, mas eu realmente não consigo... É algo que vai além de qualquer emoção.
Apesar de estarmos juntos todos os dias, em cada um deles eu tenho saudade e espero ansiosa pra te encontrar, pra te ouvir contar alguma coisa sobre o dia, pra olhar e seus olhos, segurar suas mãos, te abraçar, pra te ouvir cantar alguma música, não importa qual, pra simplesmente estar com você.
Eu sei que você não faz ideia do quanto é especial e um homem incrível. Eu, que aprendi a ser “durona”, sinto vontade de me tornar de “cristal” só pra ser cuidada por você, com toda essa segurança que você também não sabe que me faz sentir.
Você é o melhor companheiro do mundo! E que baita sorte eu tenho por compartilhar meus dias com alguém assim. Foi realmente o melhor presente que já recebi da vida nesses anos todos.
Acredito que a gente ame algumas pessoas durante a vida. Às vezes a gente pensa que é amor, mas lá na frente descobre que se enganou. Às vezes a gente ama alguém porque estava nos planos para essa vida ajudar ou ser ajudado e, quando essa “missão” termina, é preciso deixar o outro seguir, nem sempre ao nosso lado. Às vezes os caminhos de cada um não seguem pela mesma estrada, na mesma direção. Às vezes não estamos maduros o suficiente para partilhar a vida com alguém. Às vezes ainda estamos muito feridos para começar um novo amor. Às vezes viver o amor é difícil e a gente vai descobrir então que era porque haveria o dia em que seria fácil. Amar você é tão fácil, tão mágico, tão assustadoramente tranquilo e ao mesmo tempo sem perder a emoção da paixão. É tão diferente de tudo que já vivi que foge ao meu poder descrever tudo o que é! É tão mais do que eu poderia imaginar...

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Aos gatos escaldados...

Sempre surgem para aqueles que já foram casados ou viveram com alguém por um tempo algumas brincadeiras relacionadas ao assunto... “hummm vai casar de novo”, “gato escaldado tem medo de água fria”, “aprendeu a lição né?”, “insistir no erro é burrice”, “já pagou os pecados nessa vida” e por aí vai. Nós que já passamos por um relacionamento assim que por motivos adversos chegou ao fim, acreditamos que realmente é “um pouco impossível” entrar nessa outra vez.
Relacionamentos não são coisas fáceis, não na maioria. Vez ou outra conhecemos casais raros em que a vida conjunta flui tão em harmonia, cada um carregando partes iguais dessa partilha. Mas, para mim, e posso estar enganada, sinto que há muitos que carregam um peso bem maior, chegando em um momento em que a força se esvai.
Como mulher ainda sinto, e muito, as regras das construções sociais dos relacionamentos na época de minhas avós e mãe. Não sei o que falta para que a mudança ocorrida em alguns raros se torne a mudança de todos. Não sei se falta maturidade e que talvez homens mais velhos estejam mais “dispostos” a partilhar a rotina de um relacionamento, não conheço muito o universo dos “mais velhos”. Não sei se falta vivência para que cada um saiba que em alguns dias, trabalhar o dia todo, chegar em casa e ainda ter que se preocupar com os afazeres da casa é exaustivo. Talvez as mães que desejam para seus filhos um bom relacionamento devessem auxiliar um pouco aí e não acostumar os filhos a ter tudo sempre pronto e acreditando que deve ser sempre assim. Em tempos modernos e tão difíceis tornou-se necessário que todos tenham um trabalho com renda para conseguir sobreviver. Como já escrevi outras vezes, muitas mulheres precisaram sair para o mundo do trabalho, o que era socialmente visto como função do homem. Então, onde formos hoje em dia, lojas, empresas, repartições públicas e tudo o mais, veremos mulheres trabalhando e isso não despertará a nossa atenção e espanto pois já se tornou corriqueiro, necessário, rotina. Porém, todas as vezes em que vemos um homem limpando a casa por exemplo, passando roupas ou cozinhando, achamos “bonitinho” e damos parabéns por ser esse exemplar raro. Por que tanta resistência? Por que tanta dificuldade em entender que é preciso mudar isso?
Eu não tive relacionamentos de partilha por igual. Tive parceiros filhos de mães que sempre fizeram de tudo. Nenhum sabia o que era preparar um almoço, colocar as roupas na máquina de lavar, passar um “paninho” no chão. Nenhum sabia o quão difícil era pensar todos os dias no que fazer pra comer, almoço e jantar, o que tinha em casa e o que era preciso comprar no mercado. Nos dias em que eu estava absurdamente cansada não ouvi um “vai pra casa descansar que eu vou fazer/comprar algo para comermos”, “vais assistir TV e relaxar que eu coloco a roupa na máquina”. Ao contrário, estar cansada significava aguentar o outro de cara feia porque, sabe-se lá por qual razão, eu não tinha esse direito. Nunca recebi uma mensagem perguntando se “precisa de algo pra hoje?” ou mesmo com atitude, coisa tão em falta, num “estou levando uma pizza, não se preocupe com nada hoje”. Afinal, eu também quero me afundar na cama ou sofá depois de um dia de trabalho e não ter mais absolutamente nada pra fazer. Não é possível que as pessoas ainda não perceberam que isso é necessário, que não é ajuda não, faz parte do dia a dia de quem se propôs a ter uma vida a dois, seja namoro, seja casamento, seja lá o que for.

Por isso, somos sim o gato escaldado! Por isso tantas pessoas depois de um “casamento” prometem nunca mais embarcar nessa outra vez. É difícil, mas não me parece impossível. Não totalmente desacreditada, desejo e quero crer que assim como as mulheres se adaptaram às novas exigências sociais, os homens também um dia se adaptem a elas. Quem sabe as jovens que estão por aí tenham ao lado reais companheiros e que isso não pareça bonitinho e digno de palmas, mas sim que se torne parte da vida de todos. Que a união verdadeira e o companheirismo e respeito pelo outro deixem de ser raridades. Precisamos de amor, mas só ele não constrói nem sustenta relacionamentos, é preciso mais, é preciso disposição (e muita) pra se viver os dias não tão fáceis e assim aproveitar aqueles que se tornarão as melhores lembranças. 

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Eu não sou...

Eu não sou a companheira que você sonhou para o seu filho... não agora... talvez teria sido há uns 15 anos atrás. Não sou mais aquela jovem de coração intacto. Eu vivi! E a vida me moldou no que ou hoje, essa louca tatuada que, apesar de pequena, tenta se mostrar grande e forte, o que nem sempre é. Me parece que vivi muitas vidas nos últimos dez anos, diferentes cidades, diferentes e muitos lares, decepções, fracassos, abandonos. Descobri traições e aprendi que por mais tempo que possamos viver com uma pessoa, ainda corremos o risco de não conhecê-la. Sim... eu já tive uma vida a dois, um “casamento” ainda que não “no papel”, e... quem quer para um filho querido alguém com tanta bagagem?
Hoje minha vida é muito pouco do que sonhei porque foi preciso recomeçar... do zero, e pra quem já passou dos 30 é angustiante descobrir-se no início novamente. Talvez eu não possa oferecer a ele algumas coisas e talvez essas coisas sejam importantes e essenciais. Isso me dá medo, me assusta, me faz sentir incapaz e pensar que eu realmente sou toda errada pra ele.
Mas sabe, talvez lá no fundo eu não seja tão ruim. Primeiro porque o amo profundamente e jamais seria capaz de fazer qualquer coisa que pudesse deixá-lo triste, decepcionado e sofrendo. Não tenha dúvidas de que eu daria a minha vida por ele sem pensar por um segundo se quer e que faria qualquer coisa para vê-lo sempre feliz.
Todas as vezes que olho para ele penso que gostaria que as coisas tivessem acontecido de uma maneira diferente para mim, porém sei que cada dor sentida me fez um pouco melhor e hoje me orgulho do que sou. Fui “criada para casar”, cozinho bem, lavo, passo, limpo como as melhores donas de casa e tenho essa mania de querer cuidar de tudo e de todos, o que sempre me dizem que é um erro e eu nunca vou acreditar que seja verdade, penso que as pessoas que caminham ao nosso lado merecem o melhor que podemos oferecer.
Sou sincera e profundamente fiel. Nunca escondo meus sentimentos nem minha história daqueles que caminham comigo. Meu passado construiu quem sou hoje, as coisas positivas e as negativas também. Ele me proporcionou mais tranquilidade pra levar a vida e mais controle das situações. Hoje sei muito bem o que quero e o que me faz feliz, não tenho vergonha em expor o que sinto, não preciso da aprovação das pessoas. Mas ele também me trouxe um medo e uma insegurança que me incomodam e sobre os quais muitas vezes não tenho controle. Eu sei que ele não vai entender isso por não ter passado por determinadas situações que eu espero que ele nunca tenha, sei que para ele será uma “besteira da minha cabeça” e sei que esse descaso vai me doer bastante.

         Eu sei que ele é único e muito especial, não se o que já viveu, diferente de mim ele nunca conta, mas isso não é importante. Sei que é o filho mais amado do mundo e por isso sei que eu não sou ideal pra ele. Se eu pudesse, voltaria no tempo e construiria uma vida totalmente diferente para esperá-lo chegar, pediria lá no céu mais um tempinho pra voltar aqui pra Terra pra que eu tivesse mais tempo quando nos encontrássemos, mas algumas coisas estão fora do meu alcance. Então eu só peço à vida que eu consiga fazê-lo feliz enquanto ainda tenho tempo com ele, enquanto ainda posso estar em seus dias, enquanto ele ainda não percebeu que é bem provável que eu não sou a companheira que ele sonhou...