quarta-feira, 12 de junho de 2013

Eu, modo de usar - Martha Medeiros


Para o novo, que está me flertando, quero dizer, que pode invadir ou chegar com delicadeza, mas não tão devagar que me faça dormir. Não grite comigo, tenho o péssimo hábito de revidar. Acordo pela manhã com ótimo humor mas … permita que eu escove os dentes primeiro.

Toque muito em mim, principalmente nos cabelos e minta sobre minha nocauteante beleza. Tenho vida própria, me faça sentir saudades, conte algumas coisas que me façam rir, mas não conte piadas e nem seja preconceituoso, não perca tempo, cultivando este tipo de herança de seus pais.
Viaje antes de me conhecer, sofra antes de mim para reconhecer-me um porto, um albergue da juventude. Eu saio em conta, você não gastará muito comigo. Acredite nas verdades que digo e também nas mentiras, elas serão raras e sempre por uma boa causa.
Respeite meu choro, me deixe sozinha, só volte quando eu chamar e, não me obedeça sempre que eu também gosto de ser contrariada. ( Então fique comigo quando eu chorar, combinado?).

Seja mais forte que eu e menos altruísta! Não se vista tão bem… gosto de camisa para fora da calça, gosto de braços, gosto de pernas e muito de pescoço. Reverenciarei tudo em você que estiver a meu gosto: boca, cabelos, os pelos do peito e um joelho esfolado, você tem que se esfolar as vezes, mesmo na sua idade.
Leia, escolha seus próprios livros, releia-os. Odeie a vida doméstica e os agitos noturnos. Seja um pouco caseiro e um pouco da vida, não de boate que isto é coisa de gente triste. Não seja escravo da televisão, nem xiita contra.
Nem escravo meu, nem filho meu, nem meu pai. Escolha um papel para você que ainda não tenha sido preenchido e o invente muitas vezes.

Me enlouqueça uma vez por mês mas, me faça uma louca boa, uma louca que ache graça em tudo que rime com louca: loba, boba, rouca, boca …
Goste de música e de sexo. Goste de um esporte não muito banal. Não invente de querer muitos filhos, me carregar pra a missa, apresentar sua familia… isso a gente vê depois … se calhar …
Deixa eu dirigir o seu carro, que você adora. Quero ver você nervoso, inquieto, olhe para outras mulheres, tenha amigos e digam muitas bobagens juntos. Não me conte seus segredos … me faça massagem nas costas. Não fume, beba, chore, eleja algumas contravenções. Me rapte!

Se nada disso funcionar … experimente me amar.

 

sexta-feira, 7 de junho de 2013

O príncipe moderno


Sim... os príncipes existem!!! Não aqueles dos antigos contos de fadas, que levavam cem anos para enfim beijar a bela donzela, já petrificada de tanto esperar na cama da torre mais alta de um castelo. Nem mesmo o que chegou depois da mordida na maçã, e menos ainda aquele que permitiu a fuga da doce princesa, nas badaladas da meia noite, fazendo a coitada, inclusive, perder o sapatinho de cristal.
Hoje em dia, os príncipes não precisam atravessar vales e montanhas, cavalgando e enfrentando perigos, o automóvel é muito mais prático e rápido, além de muito mais confortável. Também não vem envoltos naquelas roupas tão deselegantes; calça legging e botas passaram para o vestuário feminino. No lugar da espada, uma boa garrafa de vinho.
Afinal, atualmente, as mulheres também não se deixam enganar por suas madrastas ou por qualquer bruxa que ande por aí, não ficam em casa limpando e cozinhando para os sete anões e nem perdendo anos de suas vidas em um sono profundo, de cem anos, por conta de uma roca idiota e retrógada. Hoje, as princesas saem para trabalhar, estão por aí na noite, curtindo uma balada, são independentes e não precisam do beijo de determinado príncipe para seguir a vida. Apesar de todas essas mudanças, alguma coisa ainda permanece. Sim... por mais que nós, mulheres, não gostamos de admitir, é fantástico receber certos mimos de um príncipe moderno, aquele belo homem alto, enorme, cabelos sedosos, olhos brilhantes (perdão por expor minhas preferências, mas sou uma mignon que adora um modelo king size), que consegue ao mesmo tempo ter aquela pegada, e também um lado romântico e carinhoso. Tudo bem que é querer demais! Não há muitos por aí, infelizmente, pois se fossem a maioria, viríamos mais mulheres radiantes flutuando por aí.

O certo é que, com o novo estilo feminino de vida, isso faz falta. Se dividir entre o trabalho, a casa, filhos, parentes, amigos, ufa! Realmente não tem sido fácil... e também é preciso pensar na saúde, no corpo, ter uma alimentação controlada, fazer exercícios físicos, unha, cabelo, depilação em dia, pele viçosa e ainda tem que sobrar um tempinho para a diversão, o amor, as paixões, que ninguém é de ferro! Com tudo isso, encontrar em um único exemplar todas as características acima é sorte rara, muito mais difícil que acertar os números da mega sena. E é por isso, que para muitas, não passa de um mito, até que um belo dia... pelas curvas da vida, você se depara com ele. O príncipe moderno tem atitude, coisa que também está em falta por aí, sabe tomar iniciativa sem se abalar com a independência feminina. Também tem o beijo perfeito, aquele que você não quer que termine nunca... ficaria todas as faixas de um CD beijando e ainda colocaria no modo repeat. O seu príncipe moderno tem os braços perfeitos para que você se encaixe ali dentro e sinta-se protegida, como se nada mais existisse fora daquele aconchego. Ele te aquece nas noites de frio como nenhum cobertor seria capaz, faz aquele cafuné gostoso, suas mãos e boca causam arrepios quando tocam em qualquer parte do seu corpo, o que te deixa intrigada pensando em como ele consegue fazer isso. Além de tudo, vez ou outra, tem aquelas atitudes românticas, que hoje se tornaram até engraçadas de se ver, como abrir a porta do carro para você entrar (claro, com aquele sorriso besta, custando a admitir que adorou!), dar a mão para te ajudar em algo, como... sair da banheira de hidromassagem... (vamos ser realistas, não será para atravessar uma poça de água da chuva, e é muito melhor assim!). Quem sabe, em dias especiais, não cozinhe algo para você ou mesmo traga o jantar pronto, depois de lhe enviar aquela mensagem dizendo “o jantar hoje é por minha conta”. Talvez esteja lhe aguardando com duas taças para tomar aquele vinho que substituiu a espada (que boa troca!). E, mais que tudo isso, o seu príncipe lhe fará se sentir uma princesa, a mais bela, e às vezes a mais frágil, só para cuidar de você, se esquecendo por alguns instantes que você talvez seja mais forte que ele.

É difícil admitir, mas quem não gostaria de encontrar um príncipe desses por aí e se sentir a princesa do castelo? Não para furar o dedo na roca e dormir, nem para morder a maçã envenenada ou perder os sapatos correndo à meia noite, mas simplesmente por ter a possibilidade de alguns minutos de fragilidade nos braços do seu “salvador”.
E mesmo que ele não venha na sua imponente carruagem, ou no seu forte e magnífico cavalo branco, talvez de repente, você encontre uma flor, dessas roubada por aí, deixada no vidro do seu carro, ou na porta da sua casa, e vai tentar novamente esconder a alegria que isso lhe trouxe e a vontade de se beliscar pra ver se não é mesmo um sonho, se você não caiu em um conto de fadas por acaso!

Se você já esbarrou com um príncipe assim por aí, sabe bem do que estou falando, mas se ainda não teve esse prazer, não se desespere! Mas também não vá ficar trancada na torre mais alta do castelo, esperando por um beijo mágico. A magia está em viver, e a vida está do lado de fora, assim como o seu príncipe. Portanto, calce seus sapatinhos (que não precisam ser de cristal), pegue sua própria maçã (é saudável e faz bem para a voz, coisa de professora), faça um belo corte nos cabelos (nada de estilo Rapunzel) e vá para os bailes da vida. Dance, divirta-se e quem sabe o seu exemplar de príncipe, aquele que é o seu tamanho e se encaixa perfeitamente em você, esteja por aí, só aguardando para dar-lhe um doce beijo, que indica o final do conto na ficção, mas que na realidade é apenas o começo de tudo... porque “felizes para sempre” é tempo demais, futuro demais, e a felicidade nem sempre é perpétua e sim fugaz, portanto aproveite os momento mágicos do seu conto, da sua vida, mesmo que seu encontro com o príncipe não dure mais que algumas horas... o encanto nunca acabará!

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Mulher balzaquiana


E um belo dia você acorda balzaquiana (me diverti pensando no que aqueles que não conhecem o termo poderiam imaginar). Não tenho dúvidas que pra toda mulher é um marco! Valsa de quinze anos, habilitação aos dezoito, independência total aos 21... isso não é nada! Naquele dia em que você acordou 30, parece que iniciou uma nova vida. Primeiro pelos quilos a mais... dá a sensação de que eles estavam esperando a meia noite da virada dos 29 para os 30 para se infiltrarem... 80% claro, na barriga! Depois aquela sensação de “Quem sou eu?, Quem eu era?, No que me transformei?”
Apesar de ser a mesma diferença numérica, parece que os 20 da juventude estão muito, muito distantes, e os 40 da grande maturidade logo ali!
O lema que passa a reger as horas de uma mulher de 30 é o “foda-se!”, e a cada ano nessa dezena, ele se intensifica mais. Ciúmes doentios deixam de existir. Sair com um cara só pra fazer sexo (e não amor!) deixa de ser um total absurdo. E não ligar no dia seguinte passa a ser um alívio. Nos 30 a gente descobre que não era bem quem pensava que fosse. Que pode gostar de outras coisas e detestar o que, até então, acreditava  gostar.

Experimentar!!! Tudo... tudo o que der vontade, desde novas bebidas, comidas, companhias, músicas... São tantas vidas em uma só! Às vezes a gente até se perde, tentando se encontrar. São tantos caminhos... que vão dar em tão diferentes destinos. Mas que destino? Pra que pensar nisso? No ponto do 30, tudo é conjugado no presente, não sobra muito tempo pro passado, que quase já foi completamente esquecido... e nem pro futuro, que insiste em bater na porta, sem ninguém pra abrir.
Coisas novas chovem aos litros, muitas delas boas, outras nem tanto. Mas não há tempo para lamentações, nem vontade e paciência para perder tempo com isso.
Aos 30 o sol brilha mais, a lua é muito mais bela, as estrelas são pontos perfeitos de luz, cada nuvem parece de novo um floquinho de algodão, assim como na infância. Tudo parece tão bonito e isso provavelmente pela leveza que se passa a ter. Vestidos esvoaçantes adornam perfeitamente uma mulher de trinta, um gloss nos lábios, a redescoberta... Uma nova mulher nasce ali, ou talvez o termo adequado seja uma mulher “de verdade”, forte, decidida, sem medo de encarar a vida de frente com tudo o que ela tem pra oferecer.

É bem assim... tudo isso, ou só isso. A mulher balzaquiana é acima de tudo livre, não se permite prender, precisa bater suas asas, precisa de voos intensos. E nessa liberdade, vai realizando seus sonhos, que por tanto tempo permaneceram guardados, e vai sonhando outros... vai deixando as amarras de um casulo que se formou novamente em volta de si, vai se tornando de novo a mais colorida e bela das borboletas... E agora, vou também voar, meu casulo já se rompeu, e minhas asas pedem pelo vento, pelo azul do céu, pelo brilho do sol... Voe também... o infinito te espera!!!

domingo, 2 de junho de 2013

Uma mulher entre parênteses - Martha Medeiros


Era como ela catalogava as pessoas: através dos sinais de pontuação. Irritava-se com as amigas que terminavam as frases com reticências... Eram mulheres que nunca definiam suas opiniões, que davam a entender que poderiam mudar de ideia dali a dois segundos e que abusavam da melancolia. Por outro lado, tampouco se sentia à vontade com as mulheres em estado constante de exclamação. Tudo nelas causava impacto!! Consideravam-se mais importantes do que as outras!! Ela, não. Ela era mais discreta. A mais discreta de todas.

Também não era do tipo mulher dois pontos: aquela que está sempre prestes a dizer uma verdade inquestionável, que merece destaque. Também não era daquelas perguntadeiras xaropes que não acreditam no que ouvem, não acreditam no que veem e estão sempre querendo conferir se os outros possuem as mesmas dúvidas: será, será, será? Ela possuía suas interrogações, claro, mas não as expunha.

Era uma mulher entre parênteses.

Fazia parte do universo, mas vivia isolada em seus próprios pensamentos e emoções.

Era como se ela fosse um sussurro, um segredo. Como uma amante que não pode ser exibida à luz do dia. Às vezes, sentia um certo incômodo com a situação, parecia que estava sendo discriminada, que não deveria interagir com o restante das pessoas por possuir algum vírus contagioso. Outras vezes, avaliava sua situação com olhos mais românticos e concluía que tudo não passava de proteção. Ela era tão especial que seria uma temeridade misturar-se com mulheres óbvias e transparentes em excesso. A mulher entre parênteses tinha algo a dizer, mas jamais aos gritos, jamais com ênfase, jamais invocando uma reação. Ela havia sido adestrada para falar para dentro, apenas consigo mesma.

Tudo muito elegante.

Aos poucos, no entanto, ela passou a perceber que viver entre parênteses começava a sufocá-la. Ela mantinha suas verdades (e suas fantasias) numa redoma, e isso a livrava de uma existência vulgar, mas que graça tinha? Resolveu um dia comentar sobre o assunto com o marido, que achou muito estranho ela reivindicar mais liberdade de expressão. Ora, manter-se entre parênteses era um charmoso confinamento. “Minha linda, você é uma mulher que guarda a sua alma.”

Um dia ela acordou e descobriu que não queria mais guardar a sua alma. Não queria mais ser um esclarecimento oculto. Ela queria fazer parte da confusão.

“Mas, minha linda...”

E não quis mais, também, aquele homem entre aspas.