terça-feira, 17 de março de 2020

Um fio de vida...


Eu nasci toda errada... nasci menina para um pai que queria menino. Atrasei a previsão do parto para surgir no mundo em um 2 de novembro, é isso aí, no dia de finados! Nasci pra vida no dia em que se comemoram os mortos. Claro que fazer festa de aniversário pela minha vida em uma data dessas era um total desrespeito às “regras cristãs”. Fui uma aluna exemplar, apesar de que, em uma certa idade, isso me custasse o que hoje chamamos de bullying. Fui boa filha, apesar dos problemas de saúde que tanto preocupavam minha mãe e de umas poucas rebeldias da adolescência, afinal ninguém é de ferro. Eu fazia de tudo para ter aprovação, pra ser perfeita, pra não dar trabalho, já que eu não era um menino, que eu fosse então a menina ideal, o que no fim das contas não fez diferença nenhuma. Fiz tudo errado quando não desobedeci às ordens, quando não gritei, esperneei, quando não bati portas, quando não fiz valer minhas vontades.
Eu queria que tudo isso acabasse. Que fosse hora de encontrar meus avós do outro lado da vida... queria tanto conhecê-los... queria que estivessem me esperando pra um abraço, pra me dizer que estão orgulhosos de mim, que eu cumpri minha missão, que eu posso enfim descansar desse mundo insano!
Não é fácil aguentar a vida, não é fácil enfrentar a rotina, não é fácil entender e aceitar que as coisas não são como queremos e sim como deve ser, como alguém sei lá de onde decidiu que deve ser, ou como a gente mesmo, sem coragem, aceitou que será. E então a gente finge que tudo bem, a gente olha pra cima, respira e pede força pra dar conta do que ainda tem por vir, mesmo sem querer. Há dias que se foram... há dias por vir... é preciso enfrentá-los, é preciso vivê-los, querendo ou não, encenando feito atores de uma novela, capítulo por capítulo, até o grande episódio final!