sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Escolhas

A vida é um jogo de azar... ou de sorte. Desde que, ainda na infância, passamos a ter consciência dos nossos atos, somos levados a fazer escolhas e a conviver com as consequências das mesmas. Até uma determinada idade, essas escolhas pouco irão influenciar em nosso futuro... que roupa vestir, que lanche levar pra escola, o que assistir na TV, e outras coisas do tipo. Mas então o futuro começa a entrar em jogo. Decidir uma profissão pra seguir e buscar formação nesta, analisar opções de trabalho, iniciar/continuar/terminar relacionamentos, ir... ficar... Chegamos então em um ponto da vida que, em cada esquina, surge um leque imenso de opções.
Escolher dá medo porque, inevitavelmente, ao optar por algo, se está excluindo o restante. Quando se escolhe um caminho e segue-se nele por um longo tempo, muitas vezes não dá pra voltar e optar por outro. A gente se sente num labirinto, parado, observando atentamente as portas abertas sem saber por qual seguir... é preciso ter sorte!
Infelizmente não dá pra prever o futuro, dar uma espiadinha lá na frente pra saber se é por ali que devemos ir. De repente a gente segue por um caminho por longos anos, acredita que foi a escolha certa, mas então, quando já percorreu quilômetros, descobre que a saída não é por ali. Dá raiva! A gente se culpa, sente uma profunda frustração “Eu sabia! Devia ter escolhido a outra opção! Claro que isso não daria certo!” O fracasso bate na porta... tudo o que se construiu, cai por terra e é preciso recomeçar! De onde tirar forças? E se fizer novamente uma escolha errada?
É inevitável! Sempre que uma das opções que seguimos se mostrar inadequada, cairemos no mesmo poço do arrependimento, sentiremos a mesma vontade de voltar no tempo e fazer tudo diferente... acontece que não dá! Não somos o personagem do excelente filme “Questão de tempo”, que até uma determinada época da vida, poderia voltar no tempo e “consertar” o que julgava não ter saído “de acordo”. Temos que conviver com as consequências de nossas escolhas e, alguns arrependimentos talvez nos acompanhem até nossos últimos dias. O que pode amenizar um pouco essa sensação de fracasso é pensar que, nada nos garante que a outra opção, a que não foi escolhida, realmente seria melhor, o caminho ideal, a porta que nos levaria até o fim do labirinto. De repente seria um caminho ainda mais tortuoso, difícil, desgastante, e que nos levaria a “lugar nenhum”. Vai saber?!!!
O que podemos fazer é sempre avaliar a caminhada, pensar se ela nos dá prazer e alegrias, apesar das dificuldades, dos obstáculos. Observar se nos traz conhecimento, se nos faz amadurecer e nos tornamos pessoas melhores. Porque nenhum caminho é fácil de ser percorrido, mas quando este nos faz mais tristes, cansados, desanimados de prosseguir, sem perspectivas e ausente de sonhos, algo está errado. É preciso parar, refletir. Algumas vezes ter coragem de assumir que, mesmo depois de tantos quilômetros, não é por ali! Porque quanto mais à frente se vai, mais difícil é o retorno e a busca por uma nova estrada.
Não dá pra acertar sempre, mas em todas as vezes, podemos absorver algum aprendizado, que nos fará mais preparados para a próxima etapa. Nada é em vão... há um propósito para tudo. Não é uma questão apenas de destino, afinal a vida não nos obriga a escolher esse ou aquele caminho, mas, independente de por onde seguimos, nunca será tempo perdido. Jamais saímos de uma situação sem nada levar dela...
As dúvidas estarão sempre presentes, e isso é ótimo, pois não nos permite acomodar. Uma vida de certezas é uma vida sem sonhos, estagnada, chata! Nossos caminhos são montanhas russas, é preciso aproveitar os “altos” e neles se fortalecer, para que, no momento dos “baixos” saibamos ter paciência, fé e a certeza de que é preciso também passar por ali. Ninguém chega no topo da montanha sem começar a caminhada lá de baixo.

Enfim... que tenhamos essa coragem e essa sabedoria sempre... de duvidar, abandonar o que não nos faz mais bem e nos arriscar em novas jornadas... Para nós todos... sorte!!!

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Só um menino

Ele era só um menino... ainda perdido em  seu mundo egoísta, em seus dramas de quem está começando a vida, e pouco sabe das dores que ainda irá enfrentar, das reais mazelas sociais.
Ele era só um menino, preocupado em gritar sua solidão aos quatro cantos do mundo, quando na verdade ainda não estava pronto para partilhar um relacionamento, uma vida, sonhos, momentos...
Ele era só um menino, ocupado demais com seus problemas, envolvido demais em suas conquistas, perdido entre tantas dúvidas e incapaz de aceitar suas certezas.
Ele era só um menino, daqueles que ainda precisam afirmar sua imagem nas redes sociais em busca de um olhar... só um menino à procura de atenção, de ouvidos capazes de receberem suas histórias, seus sonhos, sua inquietude, de mãos para afagarem seu rosto de barba ainda falha, de colo para acolher suas fraquezas, de um corpo para lhe dar prazer. Mas, por ser só um menino, ainda não sabia ouvir, suas mãos estavam ocupadas demais para oferecer carinho, seu colo indisponível e que ainda não era capaz de acolher um outro alguém.
Ele era só um menino que não tinha ideia da força de um verdadeiro amor, porque simplesmente ainda não havia amado.
Só um menino, incapaz de avaliar suas atitudes, suas palavras, e usá-las para o bem, um menino que não conseguia perceber que essa sua inconsequência causava dor, arrancava lágrimas de olhos que ansiavam por vê-lo sempre bem.
Ele era só um menino e, ainda assim... eu me apaixonei... me apaixonei exatamente por sua meninice. Eu lhe ofereci meus ouvidos, mãos, colo, lhe entreguei meu corpo, meus dias, minhas esperanças, meu coração.
Mas, ele era só um menino com meu coração nas mãos e, sem querer, num momento de descuido, suas mãos cederam... meu coração foi ao chão.
Ele era só um menino, e eu, perto da sua juventude inconsequente, senti os anos pesarem em meus ombros, em meus dias, em minha vida. Por ser um menino, ele me fez sentir velha, incapaz, imprestável. Pra ele a vida era um começo e pra mim já era o fim, ele tinha sonhos pra realizar, enquanto a mim não era nem mesmo dado o direito de sonhar.
Ele era só um menino, em busca de uma garota... e eu... eu já não era mais uma garota...

Ele ainda é um menino, ainda envolvido em suas inquietudes, ainda em busca da sua garota... e eu... eu nem mesmo sei o que sou, mas sei que ele continua sendo o “meu menino”.

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Tarde demais para um conto de fadas...

Um dia a felicidade bateu à porta dela. No primeiro “toc”, a madeira rangeu e se afastou, cansada que estava das idas e vindas, de ser aberta com carinho, mas fechada com batidas secas e fortes. Ninguém atendeu, e então ela entrou sorrateira, o trazendo pela mão... era ele... o príncipe tão esperado, que surgia agora para salvar sua princesa. Cabelos negros, voz segura, sorriso doce e modos requintados. Chamou por ela, mas não recebeu resposta. Subiu um lance de escadas e então seus olhos pousaram naquele corpo frágil e pálido, que repousava em lençóis brancos, ao lado de uma janela em que o vento soprava, esvoaçando uma fina cortina. Mais uma vez chamou e... nada.
Aproximou-se e tocou seu rosto, o corpo frio, mas que ainda escondia um sopro de vida. No chão, mechas de cabelos, sem dúvida eram dela, cortados tão displicentemente. Logo ao lado, uma maçã que ainda retinha a marca de batom onde a mordida fora dada. Onde a mão dela repousava, gotas de sangue e um ponto vermelho no dedo. Deu a volta na cama e observou cristais partidos em algo que lhe parecia um sapatinho. Sua princesa passara por cada dor, de cada conto de fada. Fora “salva” inúmeras vezes por príncipes que ao final, nem mesmo serviriam para o papel de sapo.
Mais uma vez ele a contemplou. Se aproximou e, seguindo a regra, depositou um doce beijo em seus lábios de um rosa que se esvaía a cada segundo. E então ela se mexeu, abriu lentamente os olhos tão sem brilho, deu um suspiro profundo, entre um gemido, como se lhe doesse respirar, e pousou nele o seu olhar. Um leve sorriso tomou conta de seus lábios, tão desacostumados daquilo. Seu coração quis pulsar forte, ainda que corresse o risco de ter os cacos novamente se descolando em mil pedaços. Porém, ali, em seu agora príncipe, ela sentiu uma confiança há tanto quebrada, não tinha medo.
A felicidade, parada na porta, queria entrar, mas ainda não havia espaço pra ela... dor, tristeza, decepção, frustração, arrependimento tomavam conta de tudo.
Sentada na cama ela chorava... se revoltava contra o mundo e consigo mesma, porque era só dela a culpa por cada pedaço do seu coração não saber mais como bater.
A felicidade se retirou, partiu em busca de uma nova protagonista, mas avisou que talvez, um dia, voltasse. Mas ele, o príncipe, ainda ficou por ali, tentando acalmar aquela princesa que há muito perdera seu encanto. Num fio de voz, entre lágrimas e soluços, ela lhe disse:
- Eu te esperei... pedi à vida que me proporcionasse esse encontro, esse momento, mas o destino impiedoso e com a minha permissão, te trouxe tão tarde. Em cada decepção eu pedia pra que você fosse o próximo... mas nunca era, e sempre vinha um novo erro. E então, agora que você veio, o meu “felizes para sempre” já passou, e eu o perdi. Eu sonhei inúmeras vezes que você me salvava, mas enquanto você não vinha, era eu quem precisava salvar alguém e agora, novamente essa função é minha, eu preciso me salvar de mim mesma...

Dizendo isso, ela caiu novamente em um sono profundo, como se dormir por cem anos aliviasse tanta dor, trouxesse o esquecimento. Como se, quando acordasse, não houvesse mais nada além do seu príncipe real, e ela fosse capaz de lhe oferecer todo o amor que tanto gostaria.