sábado, 25 de maio de 2013

Sábado não combina com saudade


Hoje é sábado (...) e justamente hoje, a saudade decidiu vir bater à porta do meu quarto para me acordar. Chegou de forma sorrateira, acordou-me e não me deixou mais. O sol está brilhando lá fora e a saudade está aqui; queimando meu peito. Mas hoje é sábado. O dia mais esperado da semana. Sábado não é dia de sentir saudade. Não combina de jeito nenhum.
Sábado é dia de muita coisa: de praia com os amigos; de tomar cerveja bem gelada; de comer caranguejo e lamber os dedos. De comer ginga com tapioca. De ver o sol se por na Ponta do Morcego. Sábado é dia de andar descalça pela praia, enquanto as ondas beijam meus pés. É dia de acordar tarde; de fazer compras; de ir ao cabeleireiro; andar despreocupadamente, sem se importar com o relógio. Decididamente, sábado não é dia de sentir saudade.
É dia de fazer faxina: na casa e na alma. É dia de ir à livraria e procurar aquele livro especial; ir ao caixa eletrônico e consultar o saldo bancário; dia de pagar contas e acertar as contas; fazer a feira do mês; ir à feira do Alecrim comprar frutas e verduras; sábado é dia de comprar CD e DVD; assistir filme depois do almoço; dormir sem hora para acordar. É dia de manicura e pedicura. De cuidar de unha encravada.

Dia de fazer trabalhos escolares; de revisar matérias; corrigir provas; de arrumar os livros na estante; arrumar as gavetas, os armários e as despensas. É dia de arrumar os pensamentos; lavar as roupas; os cabelos; as sandálias e o tênis. Mandar os cachorros para o banho, tosa e depois levá-los para caminhar na praça. Decididamente, sábado com saudade não combina.
É um dia ideal para curtir cultura inútil: assistir Luciano Huck e Rodrigo Faro na TV; ler Contigo e Tititi. Dia de tomar banho de bica, de piscina ou de cachoeira. É dia de visitar amigos queridos; de dirigir sem um lugar definido para chegar; de se perder em pensamentos; é dia de fazer planos: de viagens; de férias; de aula. Planos para o futuro.
Sábado é dia de boemia. De juntar amigos para uma cantoria, numa folia ou simplesmente para jogar conversa fora. É dia de fofocar, contar piada. Dia de alegria, churrasco ou feijoada. Dia de bom humor; é proibido estresse no trânsito e preocupação com a hora. Afinal, sábado não é dia de trabalhar. É dia de “malandrar”. Não é dia de bater ponto. Portanto, sábado não é dia para a saudade.

Dia de fazer juramento, portanto, somente hoje não me aborrecerei; não me preocuparei; serei gentil e amável com todas as formas de vida; trabalharei duro e honestamente; agradecerei por todas as bênçãos recebidas. Sábado é dia de cuidar do espírito; rezar para Nossa Senhora e para o anjo da guarda.
É dia de banhos demorados; de cuidar do corpo, com óleos, cremes e hidratantes perfumados; ficar cheirosa, dengosa, sentir-se estrela. Vestir roupa nova. Sábado é dia de se atrasar: perder a hora de acordar, a hora do café, do almoço e do jantar. Dia de esquecer o relógio num canto qualquer. Ora, sábado não é dia de compromissos formais. Isto significa que não é dia para sentir saudade.

Sábado é dia de agitar-se; correr na esteira, na praia ou na academia. Sair para pedalar, nadar, badalar, se mostrar, ou simplesmente para “biritar”. É dia de passear no shopping; marcar encontro com as amigas na cafeteria; comer pizza com guaraná; camarão com vinho tinto só pra variar. É dia de ler jornais e revistas para se informar, ou apenas ler gibis, voltar a ser criança e se divertir.
Mas, a saudade que me acordou neste sábado, tem nome e sobrenome; identidade e CPF; endereço fixo e profissão; conta bancária, cartão de crédito; certidão de nascimento; carrão da hora... Porém descobri a duras penas, que a saudade, assim como a raiva, o ressentimento, a mágoa, a tristeza, o medo e o desejo de vingança, passa; tudo vira cinza; tudo é transformado em pó; tudo fica para trás. Enfim, tudo é esquecido. Saudade, na minha vida não há mais lugar pra você. Vade retro; xô, passa fora. Vai embora e deixa-me viver...

- Nadja Lira 27/04/2013

sexta-feira, 24 de maio de 2013


Tomara
Que você volte depressa
Que você não se despeça
Nunca mais do meu carinho
E chore, se arrependa
E pense muito
Que é melhor se sofrer junto
Que viver feliz sozinho

Tomara
Que a tristeza te convença
Que a saudade não compensa
E que a ausência não dá paz
E o verdadeiro amor de quem se ama
Tece a mesma antiga trama
Que não se desfaz

E a coisa mais divina
Que há no mundo
É viver cada segundo
Como nunca mais.

                Vinícius de Moraes

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Uma fábula sobre a fábula


 
Allah Hu Akbar! Allah Hu Akbar!

Deus criou a mulher e junto com ela criou a fantasia. Foi assim que uma vez a Verdade desejou conhecer um palácio por dentro e es­colheu o mais suntuoso de todos, onde vivia o grande sultão Haroun Al-Raschid. Vestiu seu corpo apenas com um véu transparente e pou­co depois chegou à porta do magnífico palácio. Assim que o guarda apa­receu e viu aquela bela mulher sem nenhuma roupa, ficou desconcer­tado e perguntou quem ela era. E a Verdade respondeu com firmeza:
- Eu sou a Verdade e desejo encontrar-me com seu senhor, o sul­tão Haroun Al-Raschid.
O guarda entrou e foi falar com o grão-vizir. Inclinando-se diante dele, disse:
- Senhor, lá fora está uma mulher pedindo para falar com nosso sultão, mas ela só traz um véu completamente transparente cobrindo seu corpo.
- Quem é essa mulher? - perguntou o grão-vizir com viva curiosi­dade.
- Ela disse que se chama Verdade, senhor - respondeu o guarda. O grão-vizir arregalou os olhos e quase gaguejou:
- O quê? A Verdade em nosso palácio? De jeito nenhum, isso eu não posso permitir. Imagine o que ia ser de mim e de todos aqui se a Verdade aparecesse diante de nós? Estaríamos todos perdidos, sem ex­ceção. Pode mandar essa mulher embora, imediatamente.
O guarda voltou e transmitiu à Verdade a resposta do seu superior. A Verdade teve que ir embora, muito triste.
Acontece que...
Deus criou a mulher e junto com ela criou a teimosia. A Verdade não se deu por vencida e foi procurar roupas para vestir. Cobriu-se dos pés à cabeça com peles grosseiras, deixando apenas o rosto de fora e foi direto, é claro, para o palácio do sultão Haroun Al-Raschid.
Quando o chefe da guarda abriu a porta e encontrou aquela mu­lher tão horrivelmente vestida, perguntou seu nome e o que ela queria.
Com voz severa ela respondeu:
- Sou a Acusação e exijo uma audiência com o grande senhor des­te palácio.
Lá se foi o guarda falar com o grão-vizir e, ajoelhando-se diante de­le, disse:
- Senhor, uma estranha mulher envolvida em vestes malcheiro­sas deseja falar com nosso sultão.
- Como é que ela se chama? - perguntou o grão-vizir.
- O nome dela é Acusação, Excelência.
O grão-vizir começou a tremer, morto de medo:
- Nem pensar. Já imaginou o que seria de mim, de todos aqui, se a Acusação entrasse nesse palácio? Estaríamos todos perdidos, sem exceção. Mande essa mulher embora imediatamente.
Outra vez a Verdade virou as costas e se foi tristemente pelo cami­nho. Ainda dessa vez ela não se deu por vencida.
E isso porque...
Deus criou a mulher e junto com ela criou o capricho.
A Verdade buscou pelo mundo as vestes mais lindas que pôde en­contrar: veludos e brocados, bordados com fios de todas as cores do arco-íris. Enfeitou-se com magníficos colares de pedras preciosas, anéis, brincos e pulseiras do mais fino ouro e perfumou-se com essência de rosas. Cobriu o rosto com um véu bordado de fios de seda dourados e prateados e voltou, é claro, ao palácio do sultão Haroun Al-Raschid.
Quando o chefe da guarda viu aquela mulher deslumbrante como a Lua, perguntou quem ela era.
E ela respondeu, com voz doce e melodiosa:
- Eu sou a Fábula e gostaria muito de encontrar-me, se possível, com o sultão deste palácio.
O chefe da guarda foi correndo falar com o grão-vizir, até esque­ceu de ajoelhar-se diante dele e foi logo dizendo:
- Senhor, está lá fora uma mulher tão linda, mas tão linda, que mais parece uma rainha. Ela deseja falar com nosso sultão.
Os olhos do grão-vizir brilharam:
- Como é que ela se chama?
- Se entendi bem, senhor, o nome dela é Fábula.
- O quê? - disse o grão-vizir, completamente encantado. – A Fábula quer entrar em nosso palácio? Mas que grande notícia! Para que ela seja recebida como merece, ordeno que cem escravas a espe­rem com presentes magníficos, flores perfumadas, danças e músicas festivas.
As portas do grande palácio de Bagdá se abriram graciosamente, e por elas finalmente a bela andarilha foi convidada a passar.
Foi desse modo que a Verdade, vestida de Fábula, conseguiu conhe­cer um grande palácio e encontrar-se com Haroun Al-Raschid, o mais fabuloso sultão de todos os tempos.

Regina Machado
 

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Nas curvas da vida...


E a vida vai dando suas voltas e a gente rodopia junto. Uma vez cá, outra vez lá, escapando pelas curvas, voltando para o caminho, escolhendo novos destinos, novas estradas, alguns atalhos, o caminho mais longo, misterioso... louco! Não há um percurso certo, não tem como ligar o GPS e indicar um destino, pois este ainda não existe, ninguém tem certeza absoluta de onde vai estar daqui a algum tempo e isso é o fantástico da vida! Não se ver obrigado a seguir as placas... Analisar as opções ou seguir por instinto e assim, sinuosamente, avançar... devagar ou correndo... em linha reta ou escolhendo as curvas... sem pesos extras, só mesmo o essencial. Gastar os sapatos, afrouxar os cadarços, encontrar surpresas, se desfazer do que já não serve mais. Dançar, cantar, sorrir pelo caminho, chorar se isso deixar a alma mais leve. Colher as flores dos que as deixaram plantadas pelo caminho... jogar as sementes para que novas flores alegrem os próximos viajantes.

Rodopiar, voar, sonhar, amar, se deixar levar...

A vida é deliciosa, saboreie sem moderação!!!

domingo, 12 de maio de 2013

Mãe...


“Deus não pode estar em todos os lugares e por isso fez as mães.”

                                                                                                                                            Ditado judaico

sexta-feira, 10 de maio de 2013

O meu professor de Literatura - Cláudia Lage


Às vezes, eu costumava matar aula no colégio para ir ao cinema, outras vezes, vejam só, para ir à biblioteca da escola mesmo. Foi estranho quando, um dia, o meu professor de literatura da época me encontrou numa dessas vezes entre as estantes, procurando um livro. Naquela hora, na minha turma, era a aula dele. Por algum motivo, ele precisou deixar a sala e ir à biblioteca rapidamente. Teve um espanto ao me ver ali. Não sei se porque eu matava a sua aula, ou porque fazia isso na biblioteca, com um livro nas mãos. Ele me olhava e olhava o livro. Ia e voltava com os olhos, perplexo. Eu não soube, por um instante, se devia justificar a minha ausência na sala ou o fato de ter escolhido um lugar cheio de livros para faltar à aula de literatura. Quando enfim comecei a gaguejar alguma coisa, ele se afastou, transtornado, e saiu, mas não antes de olhar mais uma vez o livro que eu tinha nas mãos, com evidente ressentimento.
Eu havia cometido algum delito grave para aquele professor. O fundo em meu estômago dizia isso. Não podia ser só a aula. Outros alunos também a matavam de vez em quando, e ele depois lhes chamava a atenção com uma seriedade divertida e irônica. Nada de perplexidades constrangidas. Olhares graves e ressentidos. Aquela reação perturbadora ele havia reservado apenas para mim. Mas, tampouco, devia ser a biblioteca, ou era? O livro suava em minhas mãos, assumindo talvez a culpa. Levei-o para casa, apertando-o em meu peito. Éramos cúmplices, nós dois, de um ato horrível e misterioso contra o professor. Naquela noite, tive pesadelos. Os olhos do professor tomavam inteiramente o seu rosto, e me enfrentavam indignados e ofendidos.

Na aula seguinte, tentei me comportar da melhor maneira possível. Não passei o tempo olhando para a janela, como costumava fazer, em busca de um horizonte qualquer. Nem me distraí com rabiscos, desenhos e frases inúteis no caderno. Fixava o professor com atenção exagerada, tentando absorver e compreender tudo o que ele dizia sobre o estilo de época Arcadismo, anotando bucolismo e pastoralismo com caligrafia exemplar, e assentindo com a cabeça toda a vez que seus olhos passavam por mim e não me viam. Ao contrário do meu pesadelo, o professor não me olhava mais. Era dessa forma retraída que ele lidava com o ressentimento. Eu, por outro lado, assumia todas as culpas na medida em que ele silenciosamente me acusava. No corredor, evitava cruzar comigo, e se me via no pátio lendo um livro, como eu gostava de fazer, mudava de direção como se estivesse diante de um obstáculo intransponível. Era sempre à noite, na escuridão da insônia, que eu ruminava as atitudes do professor e repassava a matéria. Romantismo: nacionalismo, exaltação do eu. Realismo: racionalismo, crítica social. Não sei por que, naquele dia, eu achei que ele tremera um pouco durante a aula, a voz rasgando a garganta, ao dizer, crítica social.
Semanas depois, eu percebi: o professor não fazia mais a barba, engordava, e, como se não tivesse mais nada a fazer, envelhecia. Se antes não era alegre nem triste, agora não era, simplesmente. Entrava na sala de aula resignado, dizia algumas coisas, escrevia outras, para depois desaparecer. A sua apatia era tão grande que um dia ele deve ter se esquecido que sua presença era aguardada e realmente desapareceu. “Viajou”, explicou a diretora, como se o fato de alguém ir de um lugar para o outro explicasse tudo. E assim os anos se passaram sem notícias do professor.

Nos encontramos anos depois, por acaso, numa livraria. Eu a frequentava sempre, e não sabia que, desde que entrei pela primeira vez ali, era observada pelo professor. Já sentia o livro suando em minhas mãos, quando ele me cumprimentou, perguntando se eu era eu, a sua aluna. Sim, confirmei. Ele me olhava e olhava o livro, como nosso constrangido encontro na biblioteca da escola. De repente, me abraçou, com uma gratidão que eu não pude entender. Mas, em seguida, o professor foi de uma claridade imprevista, de fechar os olhos. Uma de suas alegrias era me ver ali em sua livraria, ele disse. E sorriu, confirmando, sim, sou livreiro. E pegando um livro, levou-o ao peito. A capa sobre o coração, enquanto ele confirmava a satisfação de ver que eu continuava a gostar de ler, apesar de suas aulas. Aquele dia na biblioteca ressurgiu então entre nós. Me ver matar a aula de literatura para ler foi a gota d’água para o professor. Havia passado a noite anterior preparando uma aula de literatura, elencando, não poetas e escritores, seus textos e suas poesias, mas características, datas e nomes que os alunos não podiam deixar de saber, porque ia cair na prova, porque estava no currículo do semestre. Às vezes, conseguia uma aula ou outra para os textos, mas era pouco, muito pouco. Até me ver na biblioteca, o professor me julgava uma aluna desinteressada e desinteressante, daquelas que não se avista o futuro. Não me imaginava abrindo um livro, como podia supor que eu era uma leitora? Mas eu era, e, para ele, havia sido como um marido, que sempre considerara a esposa frígida, descobrir que ela tem um amante. Eu, que já tinha idade e altura para sorrir dessa imagem, sorri, profundamente feliz. O professor abraçava o livro, apaixonado. Contou que um dia, se levantou da cama, se arrumou para ir trabalhar, saiu de casa, mas, em vez de ir à escola, foi para uma livraria. No dia seguinte, pediu demissão. Juntou dinheiro, conseguiu um empréstimo e abriu uma pequena livraria, que se expandira em outras. “Eu queria estar perto dos livros”, explicou. “Antes, eu achava que podia ser professor de literatura impunemente”, disse. O professor entrara na escola cheio de esperanças de mudar o modo em que é feito o ensino da literatura, de driblar, dia a dia, o sistema. Mas foi ao contrário, era o sistema que estava, pouco a pouco, mudando o professor, encurralando-o numa sala escura. “Até te ver na biblioteca, eu não tinha a real consciência da dimensão do que eu fazia. A cada aula, eu matava um livro. A cada aula, um leitor morria.”

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Devolva-me!!!


O mesmo dvd, mais uma vez... inundando o quarto com a batida que eu nem mesmo gosto. Ainda não sei explicar essa fascinação que veio de repente. Das vinte e três músicas, vinte contam histórias que de alguma forma me fazem lembrar você, me fazem sonhar com um nós tão distante, que talvez só exista na minha cabeça, nos meus insanos pensamentos. As frases acompanhadas pelo ritmo levam lágrimas aos meus olhos que ainda não estão secos da última decepção, que ainda se encontram vermelhos e cansados, mas que talvez tenham encontrado em você um refúgio, a ilusão de um abraço forte e aconchegante, um porto seguro num momento de tempestade. Por vezes fecho os olhos e me imagino em seus braços, dançando juntos pela vida, passos leves, sorriso no rosto, em um belo dia de outono, como o de hoje, o de ontem, da semana passada... desses que tem embalado meus devaneios... alguns momentos reais de alegria, outros tantos de espera, de dúvida... Uma vontade louca de prever o futuro, de que as horas voem, para que eu possa descobrir o que vai acontecer... para que eu possa viver meus sonhos, ou então aceitar que eram realmente apenas sonhos. E mais medo, e sempre o medo... escondido em um cantinho aqui dentro, crescendo e tomando conta de mim a cada oportunidade que surge. Sabe... aquele medo? Aquele de outro dia, de outro texto... que eu pensei fosse forte, fosse o máximo. Não era! Ainda havia mais, muito mais. Hoje eu senti que talvez aquilo fosse apenas o começo e que pode existir mais. Me senti fraca para lutar com meu ‘eu adolescente’ que insiste em dar as caras e se apoderar do meu ‘eu mulher’, cautelosa, sensata, e com alguma bagagem de experiência nas costas. De repente isso tudo foi embora como num sopro do vento, que não contente em levar tudo o que eu tanto precisava, ainda trouxe uma grande dose de loucura. Eu me sinto estranha, não me reconheço mais. Essa tamanha necessidade de falar com você, estar próxima, ouvir sua voz. E eu que achava que não fosse mais viver isso, e eu que pensava ter espantado todas as ‘borboletas do meu estômago’... que engano! Estavam todas aqui em seus casulos, só esperando o momento de despertar. E como despertaram!!! Ensandecidas... Não querem mais dormir, ficaram por tanto tempo paralisadas e agora bailam aqui dentro o tempo todo... E nessa confusão toda, não sei se as acompanho nesse louco bailar ou se disparo contra elas algum veneno e acabo com tudo isso!!! É tão bom, mas (e novamente) dá tanto medo...

domingo, 5 de maio de 2013

Requerimento - Adriana Falcão



Caro Senhor Tempo,                                       
Espero que esta o encontre passando bem, ou melhor, passando o mais devagar possível.
Por aqui vai-se indo, como o Senhor quer e consente, meio rápido demais para o meu gosto, e quando vi já era dezembro.
Foi-se mais um ano.
E com ele foram-se uma quantidade incalculável de amores, cores, idades, alguns amigos, não sei quantos neurônios, memórias, remorsos, desvarios, cabelos, ilusões, alegrias, tristezas, várias certezas (se não me engano, treze), algumas verdades indiscutíveis, umas calças que não fecham mais e aquele vestido de que eu gostava tanto.
Foi-se o meu gosto por vitrine.
Foi-se quase todo o meu vidro de perfume.
Foi-se meu costume de imaginar asneiras à noite.
Foi-se meu forte instinto de acreditar no que me dizem.
Foi-se meu açucareiro de porcelana.
Que pena.
Foi-se o tempo em que uma simples farra não significava necessariamente uma condenação sumária no dia subsequente.
Foi-se a poupança.
O troquinho da gaveta.
Foi-se aquele antigo projeto.
Foram-se exatamente nove vírgulas, seis por cento de todas as minhas esperanças.
Será que o Senhor não se cansa, seu Tempo?
Não pensa em tirar umas férias, dar uma pausa, respirar um pouco? Não lhe agrada a idéia de mudar o andamento? Diminuir o ritmo? Em vez de tic-tac, inventar uma palavra mais comprida para compasso, mantra, ícone, diagrama?
Me diga sinceramente: para que tanta pressa?
Anda difícil acompanhar seus passos ultimamente.
Não precisa dar meia-volta, eu não espero tanto. Eternidade? Não. Só queria sua amizade.
Mas já é dezembro.
Foi-se mais um ano.
E o Senhor passou voando, rebocou os meus momentos, foi desbotando minhas lembranças, carregou mais doze meses inteiros levando cada instante meu de carona.
Tentei voltar atrás em algumas decisões. Já era tarde.
Não deixei nada para amanhã. Mesmo assim não fiz sequer metade do que pretendia. Imaginei várias maneiras de estancar os dias, segunda, terça, quarta, quando via já era quinta. Sexta. Sábado. Domingo. Pronto.
Pensei em fuga. Será que existe algum lugar deste mundo onde as horas não me encontrem? Fiquei meses trancada em casa. Foi inútil. Lá fora, o Senhor continua passando.
E já passou mais um pouquinho.
Calma, Tempo! Espere só um minutinho para eu explicar melhor meu ponto de vista.
Nem todo mundo é pedra, concorda? Dito isso, imagine então quantos pobres mortais sofrem da mesma agonia diária: giros e mais giros nos ponteiros, os cantos dos cucos, as denúncias das sombras, os grãos de areia escorrendo (parece até hemorragia crônica), tudo escapulindo, descendo, subindo, o frenesi dos dígitos, um, dois, três, quatro, cinco, cem, o Senhor vai tirar o pai da forca? Está fugindo de alguém? De quem? De mim? De ontem?
Eu conheço de cor suas obrigações.
Estou convencida de suas utilidades.
Não fosse o Senhor, não existiriam saudade, retrato, suvenir, antiguidade, história, época, período, calendário, outrora, passatempo, novidade, creme anti-rugas, disputa por pênaltis, antepassado, descendente, dia, noite, nada, não existiria sabedoria, eu sei disso.
Não tome como queixas minhas palavras, por favor não tome.
Aqui vai apenas uma súplica.
Ah, se o Senhor fosse mais indulgente, mais piedoso, mais pensativo, se fosse baiano, menos estressado, mais manso, menos rigoroso, um bon-vivant, e se distraísse aí pelo caminho, e se deixasse apreciar as paisagens, e sofresse um devaneio, e ficasse de bobeira, esquecido das horas, divagando.
Escute aqui, seu Tempo, que tal deixar passar o resto e parar quieto um pouco?


sábado, 4 de maio de 2013

Perdoe-se!!!


Perdão... palavra forte, da famosa família das terminadas em ‘ão’, assim como coração, paixão, desilusão... Tão bonita de se falar, da boca pra fora, mas enormemente difícil de se sentir realmente. Pra mim, escorpiana nata, perdão era como as fadas, príncipes e princesas dos contos maravilhosos, lindo, mas que existia somente na imaginação. Nunca me vi praticando o perdão, ao contrário disso, sempre fui uma adepta das boas vinganças, aquelas bem planejadas e melhor ainda executadas, que trazem aquele gostinho delicioso quando colocadas em prática. Porém, só agora, depois de um bom tempo, de passar por tanta coisa, consegui entender realmente o sentido do perdão.

Pra se perdoar o próximo, primeiro é preciso aprender a difícil tarefa de perdoar a si mesmo. Porque por um bom tempo, nos culpamos por qualquer problema que aconteça em nossas vidas. Pendências no trabalho, dificuldades no relacionamento, e até mesmo aquele cansaço, que acaba por desencadear alguma dor ou problema de saúde. Primeiro culpamos o outro, e depois a nós. E enquanto não aprendermos que tudo isso faz parte da vida e principalmente do que nos faz amadurecer e nos tornar fortes, continuaremos a buscar culpados. Não consigo precisar as muitas vezes em que fiz isso a mim mesma, procurando o que havia feito de errado, ou mesmo o que eu possuía de errado para que as coisas simplesmente não saíssem da maneira como eu gostaria. Foi há muito pouco tempo atrás que entendi que as adversidades nos preparam e nos fazem valorizar as coisas simples e que realmente nos fazem felizes. É tarefa árdua não se culpar, e é difícil chegar nesse estágio, mas podemos e devemos ao menos nos perdoar se cometemos algumas falhas e ainda, nos perdoar por termos pensamentos de culpa. Hoje um sinalzinho toca quando inicio com a autopunição e de imediato procuro mudar minha postura. Mais que isso, consigo imaginar que exista realmente o perdão e que em breve eu realmente conseguirei colocá-lo em prática, não apenas dizer ‘sim, claro, eu sou capaz de perdoar’, mas realmente sentir isso. Já avancei, pois me perdoo pelo que julgo ter feito erroneamente, e então, é possível seguir em frente, sem mais um peso para carregar pela estrada da vida. Aprenda a não se culpar, a não buscar culpados para as adversidades da vida e principalmente diga para si mesmo de peito aberto e coração pulsando: “eu me perdoo... sempre!!!”

De repente... você!!!




Você é um sonho bonito, e que eu não desejava sonhar agora. Com o coração e a vida tão vazios... você não me deu tempo para curtir o nada! Chegou tão de repente nos meus pensamentos e ocupou-os todos! E o vazio morreu tão cedo, prematuro... Sua presença tão constante me assusta e eu sinto um medo que nunca senti antes. Medo do que possa acontecer, mas um medo ainda maior de que nada aconteça. De que essa vontade louca por seus braços, por seus beijos, nunca seja saciada. E eu... que queria tanto ficar vazia por um bom tempo, não sentir nada, absolutamente nada!!! Agora, não sei o que faço e isso me faz mal. Não sei se continuo nessa loucura e vejo aonde isso vai dar ou se tento (na certeza de não conseguir) esquecer tudo e fingir que nada aconteceu aqui... dentro de mim. Quando me achei, você fez com que eu me perdesse novamente, eu... tão cansada de estar perdida, custando tanto a me encontrar. Me assusto ao pensar nas loucuras que ainda serei capaz de fazer nesse total descontrole. Quantas marcas mais... quantas músicas, sonhos, surpresas! Eu não quero viver isso de novo, eu não estou preparada pra isso! Ainda mais notando aos poucos que talvez eu novamente seja a ‘mais forte’. E eu agora quero ser frágil, encontrar quem me proteja, quem tome as decisões, quem me leve pela vida...

Hoje... hoje esse medo está ainda maior, tomou conta de mim completamente... Hoje eu queria um tempo pra chorar, longe daqui, longe de tudo, pra pensar quem sabe... se eu conseguisse realmente pensar em algo que não fosse você!
Te ver o tempo todo só faz piorar, me leva a sentir seus braços me envolvendo, sua voz em meus ouvidos sussurrando meu nome. Um nó na garganta, lágrimas que não querem mais ficar escondidas... dói tanto!
Eu só queria fugir, não pensar, não sentir...

 
 
“Das coisas que eu gosto, você é a que eu menos gosto de gostar”