Parada na frente do espelho ela tenta
se desvendar, se encontrar. Não sabe se daqui em diante será essa na qual se
transformou, ou se a de antes voltará para tomar de novo seu lugar. Ela olha...
pensa... se assusta. Não consegue ainda processar tamanha mudança, não sabe
como em tão pouco tempo, sua alma adquiriu essa nova forma. E mais que tudo
isso, ainda não sabe quem prefere... qual é a melhor: se a antiga, intensa e
eterna apaixonada, sem medo de mergulhar
de cabeça em lagos rasos, ou se a atual, tão racional, que lhe parece tantas
vezes até fria. Ela sabe que precisa cuidar de seu coração, não há espaço para
novas feridas. Mas seu novo eu, que veio sem ser convidado, talvez para
garantir-lhe a sobrevivência, assusta! Um vazio estranho lhe toma conta, como
se nada mais existisse dentro de si, um corpo oco, livre de sentimentos. Nessa
nova vida, os dias passam sem sentido, maquinalmente, e nada lhe desperta para
o mundo... o olhar sem brilho, a pele fria, o coração que já não bate. Ali,
mirando seu reflexo, toca o rosto pálido, antes talvez houvesse lágrimas em
seus olhos, mas hoje, nem isso. Da mesma forma que essa outra não consegue
sorrir, também não é capaz de chorar. Ela sabe... pedira tanto para ser exatamente
assim, agir com a razão, colocar o cérebro no comando, mas agora começara a
notar que, a vida não fazia sentido algum sem um pouco de paixão, dor,
intensidade. Se questionava como determinadas pessoas conseguiam conviver com
essa forma de ser. Em poucos meses ela já sentia falta de quem fora. Começava a
preocupar-se com o que poderia oferecer a alguém, se seria um dia capaz de
sentir algo mais forte, de ter o amor lhe invadindo a alma, os olhos brilhando
novamente, o sangue correndo quente, e o coração pulsando no peito. O passado a
havia destruído, e não queria dar a alguém os escombros que ficaram pelo chão.
Precisava estar inteira para então partilhar seu todo... precisava de força
para reerguer as paredes, mas ao ver tanta destruição a vontade que tinha era
de abandonar tudo. Sentia-se fraca, cansada e com um medo inconsciente de uma
nova tempestade. Mirou novamente seu reflexo no espelho, a mão no peito
procurando o tamborilar da vida que ainda houvesse por ali, mas o que ouvia era
seu novo e incômodo silêncio, o frio do corpo e da alma, ou talvez a falta
dela. Um nada que tomara conta de tudo. Sentia-se perdida num mundo estranho...
Comparando aquela com essa, talvez preferisse voltar... voltar a sentir, a
chorar, a sorrir... voltar a ter vida, e algo mais dentro de si, perdera sua
alma e talvez fosse tarde demais para reencontrá-la.

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