domingo, 3 de agosto de 2014

A outra

Parada na frente do espelho ela tenta se desvendar, se encontrar. Não sabe se daqui em diante será essa na qual se transformou, ou se a de antes voltará para tomar de novo seu lugar. Ela olha... pensa... se assusta. Não consegue ainda processar tamanha mudança, não sabe como em tão pouco tempo, sua alma adquiriu essa nova forma. E mais que tudo isso, ainda não sabe quem prefere... qual é a melhor: se a antiga, intensa e eterna apaixonada,  sem medo de mergulhar de cabeça em lagos rasos, ou se a atual, tão racional, que lhe parece tantas vezes até fria. Ela sabe que precisa cuidar de seu coração, não há espaço para novas feridas. Mas seu novo eu, que veio sem ser convidado, talvez para garantir-lhe a sobrevivência, assusta! Um vazio estranho lhe toma conta, como se nada mais existisse dentro de si, um corpo oco, livre de sentimentos. Nessa nova vida, os dias passam sem sentido, maquinalmente, e nada lhe desperta para o mundo... o olhar sem brilho, a pele fria, o coração que já não bate. Ali, mirando seu reflexo, toca o rosto pálido, antes talvez houvesse lágrimas em seus olhos, mas hoje, nem isso. Da mesma forma que essa outra não consegue sorrir, também não é capaz de chorar. Ela sabe... pedira tanto para ser exatamente assim, agir com a razão, colocar o cérebro no comando, mas agora começara a notar que, a vida não fazia sentido algum sem um pouco de paixão, dor, intensidade. Se questionava como determinadas pessoas conseguiam conviver com essa forma de ser. Em poucos meses ela já sentia falta de quem fora. Começava a preocupar-se com o que poderia oferecer a alguém, se seria um dia capaz de sentir algo mais forte, de ter o amor lhe invadindo a alma, os olhos brilhando novamente, o sangue correndo quente, e o coração pulsando no peito. O passado a havia destruído, e não queria dar a alguém os escombros que ficaram pelo chão. Precisava estar inteira para então partilhar seu todo... precisava de força para reerguer as paredes, mas ao ver tanta destruição a vontade que tinha era de abandonar tudo. Sentia-se fraca, cansada e com um medo inconsciente de uma nova tempestade. Mirou novamente seu reflexo no espelho, a mão no peito procurando o tamborilar da vida que ainda houvesse por ali, mas o que ouvia era seu novo e incômodo silêncio, o frio do corpo e da alma, ou talvez a falta dela. Um nada que tomara conta de tudo. Sentia-se perdida num mundo estranho... Comparando aquela com essa, talvez preferisse voltar... voltar a sentir, a chorar, a sorrir... voltar a ter vida, e algo mais dentro de si, perdera sua alma e talvez fosse tarde demais para reencontrá-la.

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