quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Aos gatos escaldados...

Sempre surgem para aqueles que já foram casados ou viveram com alguém por um tempo algumas brincadeiras relacionadas ao assunto... “hummm vai casar de novo”, “gato escaldado tem medo de água fria”, “aprendeu a lição né?”, “insistir no erro é burrice”, “já pagou os pecados nessa vida” e por aí vai. Nós que já passamos por um relacionamento assim que por motivos adversos chegou ao fim, acreditamos que realmente é “um pouco impossível” entrar nessa outra vez.
Relacionamentos não são coisas fáceis, não na maioria. Vez ou outra conhecemos casais raros em que a vida conjunta flui tão em harmonia, cada um carregando partes iguais dessa partilha. Mas, para mim, e posso estar enganada, sinto que há muitos que carregam um peso bem maior, chegando em um momento em que a força se esvai.
Como mulher ainda sinto, e muito, as regras das construções sociais dos relacionamentos na época de minhas avós e mãe. Não sei o que falta para que a mudança ocorrida em alguns raros se torne a mudança de todos. Não sei se falta maturidade e que talvez homens mais velhos estejam mais “dispostos” a partilhar a rotina de um relacionamento, não conheço muito o universo dos “mais velhos”. Não sei se falta vivência para que cada um saiba que em alguns dias, trabalhar o dia todo, chegar em casa e ainda ter que se preocupar com os afazeres da casa é exaustivo. Talvez as mães que desejam para seus filhos um bom relacionamento devessem auxiliar um pouco aí e não acostumar os filhos a ter tudo sempre pronto e acreditando que deve ser sempre assim. Em tempos modernos e tão difíceis tornou-se necessário que todos tenham um trabalho com renda para conseguir sobreviver. Como já escrevi outras vezes, muitas mulheres precisaram sair para o mundo do trabalho, o que era socialmente visto como função do homem. Então, onde formos hoje em dia, lojas, empresas, repartições públicas e tudo o mais, veremos mulheres trabalhando e isso não despertará a nossa atenção e espanto pois já se tornou corriqueiro, necessário, rotina. Porém, todas as vezes em que vemos um homem limpando a casa por exemplo, passando roupas ou cozinhando, achamos “bonitinho” e damos parabéns por ser esse exemplar raro. Por que tanta resistência? Por que tanta dificuldade em entender que é preciso mudar isso?
Eu não tive relacionamentos de partilha por igual. Tive parceiros filhos de mães que sempre fizeram de tudo. Nenhum sabia o que era preparar um almoço, colocar as roupas na máquina de lavar, passar um “paninho” no chão. Nenhum sabia o quão difícil era pensar todos os dias no que fazer pra comer, almoço e jantar, o que tinha em casa e o que era preciso comprar no mercado. Nos dias em que eu estava absurdamente cansada não ouvi um “vai pra casa descansar que eu vou fazer/comprar algo para comermos”, “vais assistir TV e relaxar que eu coloco a roupa na máquina”. Ao contrário, estar cansada significava aguentar o outro de cara feia porque, sabe-se lá por qual razão, eu não tinha esse direito. Nunca recebi uma mensagem perguntando se “precisa de algo pra hoje?” ou mesmo com atitude, coisa tão em falta, num “estou levando uma pizza, não se preocupe com nada hoje”. Afinal, eu também quero me afundar na cama ou sofá depois de um dia de trabalho e não ter mais absolutamente nada pra fazer. Não é possível que as pessoas ainda não perceberam que isso é necessário, que não é ajuda não, faz parte do dia a dia de quem se propôs a ter uma vida a dois, seja namoro, seja casamento, seja lá o que for.

Por isso, somos sim o gato escaldado! Por isso tantas pessoas depois de um “casamento” prometem nunca mais embarcar nessa outra vez. É difícil, mas não me parece impossível. Não totalmente desacreditada, desejo e quero crer que assim como as mulheres se adaptaram às novas exigências sociais, os homens também um dia se adaptem a elas. Quem sabe as jovens que estão por aí tenham ao lado reais companheiros e que isso não pareça bonitinho e digno de palmas, mas sim que se torne parte da vida de todos. Que a união verdadeira e o companheirismo e respeito pelo outro deixem de ser raridades. Precisamos de amor, mas só ele não constrói nem sustenta relacionamentos, é preciso mais, é preciso disposição (e muita) pra se viver os dias não tão fáceis e assim aproveitar aqueles que se tornarão as melhores lembranças. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário