Eu não
sou um amontoado de folhas em branco prontas para uma história que vai começar.
Também não sou o início do livro, com apenas os primeiros capítulos. Sou daqueles
que assustam leitores iniciantes pela quantidade de páginas, mas que fascina os
compulsivos que adoram “encher as mãos e os olhos” com quantidade mesmo sem
saber ainda da qualidade.
Eu tenho
minhas marcas, as que estão por fora e também revelam um pouco de mim, as que
estão por dentro e não são tão belas quanto as primeiras, mas que mostram muito
de mim. Para alguns isso é defeito grave, para outros é maturidade essencial. Eu
já tentei apagá-las por completo e isso fez com que doessem ainda mais, então
aceitei que era preciso tempo para a cicatrização e mais que isso, aceitação de
que elas são o que sou, o que me tornei e o que ainda estou por ser.
Minhas
dores me fizeram compreender o mundo e o próximo de forma mais carinhosa e ter
o cuidado de sempre, muitas vezes exagerado, daqueles com quem convivo. Amor é
cuidado... cuidado demonstra verdadeiro amor. Sempre guardei meus problemas
para depois a fim de auxiliar com os problemas de outros, muitas vezes
abandonei sonhos para ajudar a construir outros e isso me custou muitas
decepções e talvez alguns arrependimentos, cuidei de dores alheias e fingi que
as minhas nem existiam e hoje tenho total consciência de que não devo me
abandonar em favor de ninguém, mas também sei que nada é tão difícil pra mim
quanto isso. Eu queria tanto ser daquelas pessoas alheias a tudo, que passam
pela vida sem olhar para os lados, que, se amam, não demonstram, daquelas pra
quem “tanto faz, tanto fez”. Meu coração tantas vezes é um fardo pesado demais
para carregar e eu doaria esse amontoado de sentimentos para o homem de lata
realizar seu sonho sem nem pensar. Vai me dizer que é triste viver assim? Eu sinceramente
não sei... Mas sei que não é nada fácil administrar tudo o tempo todo... não é
fácil cuidar de tanta coisa... cuidar de tantos... É exaustivo quando a gente
transborda amor e deseja que transbordem com a gente.
Amanheci
mais uma vez me sentindo tão sozinha no mundo, querendo que alguém pegasse no
colo essa dorzinha chata que vai aqui dentro, embalando como se faz com os
bebês. Aquela sensação de que está tudo errado outra vez não quer passar.
Hoje
saí pro mundo querendo encontrar almas gêmeas à minha, não para que se
completem, mas para que eu enxergue no outro um pouco do que sou. Queria sentar
num parque, sob esse sol gostoso de outono com alguém que também tenha
histórias para contar, e que goste de contá-las... eu sempre gostei de ouvir!
Queria me espantar com experiências parecidas e também com outras diferentes
das minhas, mas não menos difíceis. Queria contar um pouco desse amontoado de
coisas que não quer ficar quieto aqui dentro e ouvir que “tá tudo bem assim”
que os momentos difíceis nos fazem melhores e que existem no mundo pessoas
capazes de lidar com isso, de cuidar para que nossas cicatrizes não doam como
já doeram quando feridas abertas.
Hoje eu
daria meu coração e meu lugar para o home de lata... e iria para a terra de Oz
em busca de um pouco de paz e descanso... a vida às vezes é demais para o que
damos conta!

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