Eu nasci toda errada... nasci menina
para um pai que queria menino. Atrasei a previsão do parto para surgir no mundo
em um 2 de novembro, é isso aí, no dia de finados! Nasci pra vida no dia em que
se comemoram os mortos. Claro que fazer festa de aniversário pela minha vida em
uma data dessas era um total desrespeito às “regras cristãs”. Fui uma aluna
exemplar, apesar de que, em uma certa idade, isso me custasse o que hoje
chamamos de bullying. Fui boa filha, apesar dos problemas de saúde que tanto
preocupavam minha mãe e de umas poucas rebeldias da adolescência, afinal
ninguém é de ferro. Eu fazia de tudo para ter aprovação, pra ser perfeita, pra
não dar trabalho, já que eu não era um menino, que eu fosse então a menina ideal,
o que no fim das contas não fez diferença nenhuma. Fiz tudo errado quando não desobedeci
às ordens, quando não gritei, esperneei, quando não bati portas, quando não fiz
valer minhas vontades.
Eu queria que tudo isso acabasse. Que fosse
hora de encontrar meus avós do outro lado da vida... queria tanto conhecê-los...
queria que estivessem me esperando pra um abraço, pra me dizer que estão
orgulhosos de mim, que eu cumpri minha missão, que eu posso enfim descansar
desse mundo insano!
Não é fácil aguentar a vida, não é
fácil enfrentar a rotina, não é fácil entender e aceitar que as coisas não são
como queremos e sim como deve ser, como alguém sei lá de onde decidiu que deve
ser, ou como a gente mesmo, sem coragem, aceitou que será. E então a gente
finge que tudo bem, a gente olha pra cima, respira e pede força pra dar conta
do que ainda tem por vir, mesmo sem querer. Há dias que se foram... há dias por
vir... é preciso enfrentá-los, é preciso vivê-los, querendo ou não, encenando feito
atores de uma novela, capítulo por capítulo, até o grande episódio final!

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