Cá estou eu em mais um fim de
domingo daqueles... os raios de sol atravessam as árvores, sopra uma brisa
suave que balança as folhas e emite uma música nostálgica, não há uma nuvem no
céu. Muitas pessoas caminham com seus cães, companheiros, crianças, ninguém só.
Domingo é mesmo dia de presença, de aquecer o coração para iniciar a rotina na
segunda. Sei porém que, assim como eu, outros estão em suas janelas observando
esse mesmo sol, também em suas solidões, e divagando em seus pensamentos.
Hoje penso nos “finais”,
talvez algo triste demais para um dia já triste por natureza, mas eu não
consegui pensar em outra coisa... minha mente, meu corpo, minha alma viviam
esse tema. Fiquei aqui olhando o nada e me questionando o porquê de termos
tanta dificuldade em lidar com finais. Finais de ciclos, finais de filmes, novela,
relacionamentos... É como se a gente morresse naquele final pra depois tentar
renascer, fazer do ponto uma vírgula e seguir adiante. A gente tem essa mania
de aumentar o parágrafo, continuar até realmente ter esgotado todas as
possibilidades de seguir por ali. A gente apaga tudo e tenta escrever com uma
letra menor pra fazer caber mais coisa, corrige aqui e ali, insiste e pensa
“desistir nunca!”, mas acontece que não dá!
A gente tenta adiar a mudança
pra outra casa, cidade, estado, país... teme a mudança de emprego, mas
principalmente o “the end” nos capítulos das nossas vidas. E aí, quando acaba,
a gente pensa que deveria ter colocado esse ponto final antes, pois teria
evitado algumas dores, algumas lágrimas, algumas decepções, algumas marcas a mais
pra se carregar.
Eu particularmente sofro muito
com todos esses finais, me apego aos bons filmes que assisto, e que nunca quero
que terminem, às séries de TV e livros, desenhos, sagas... Sofro demais, como
professora, ao deixar uma turma produtiva e com a qual criei algum vínculo,
sabendo que não os terei novamente ocupando as carteiras à minha frente. Meus
alunos de Morro Agudo que digam, já que nos separamos há sete anos e eu
consegui reencontrá-los através do meu querido facebook e matar um pouquinho daquela saudade doída,
continuar o parágrafo que eu não consegui colocar um ponto final, e que, no
máximo terá reticências. Quase morri quando tive que me mudar pra Campinas,
encerrando um ciclo e iniciando outro. Mas também vi meu mundo cair quando tive
que voltar.
E assim fui vivendo meus
finais... Me lembro quando o relacionamento com meu primeiro namoradinho chegou
ao fim... de início uma tristeza e um vazio sem tamanho e aí, peguei minha
malinha e me enfurnei no rancho, longe de tudo, chorando dia e noite na
piscina, na rede, na mesa, na grama, na cama (os adolescentes sempre tão
dramáticos!). Quando não havia mais o que chorar, olhei pro mundo que
continuava ali, indiferente à minha dor e avisei “eu to voltando!”. Em casa,
deixei minhas coisas pelo chão e fui parar no salão mais próximo, fazendo a
loucura de cortar meus cabelos enormes, um pouco acima dos ombros. A cada mecha
que ia ao chão, eu desejava que fossem também as tristezas e lembranças. Quando
me vi no espelho, tive um choque, mas era preciso matar a outra.
O mesmo com o amor louco de
colegial. Ahhh... se todos os nossos amores fossem assim... como a gente seria
feliz! Carinho constante, um sempre ao lado do outro, todos os dias, e quando
não fisicamente, pendurados no telefone. Ele me ligava pela manhã, era o meu
despertador... e quando eu chegava na escola, não teve um só dia em que ele não
estivesse me esperando com pães de queijo pra tomarmos café juntos. E não era
só isso! A última aula terminava às 12h10, mas nunca íamos embora. Sentávamos
debaixo das árvores e ficávamos ali até as 16h, meu limite pra voltar pra casa.
E então seguiam seus telefonemas que indicavam o que íamos fazer... tomar
banho, ouvir uma certa música e até fumar um “gudan”, quando eu ouvia seu sopro
do outro lado do telefone enquanto me desesperava em espantar a fumaça de
dentro de casa. Nunca ouve uma briga, absolutamente nenhum desentendimento ou
mágoa pra fazer aquele momento um pouco mais fácil de ser vivido. Terminamos o
Ensino Médio e ele precisou seguir por outro caminho, outra cidade um tanto
distante e que, para nós ainda adolescentes em suas tantas impossibilidades ,
se tornava ainda mais longe. Nos falamos por telefone algumas vezes, mas era
tão doloroso ouvir o choro um do outro e as palavras que não conseguiam sair,
que então pegamos a caneta e juntos, assim como sempre foi, colocamos um
dolorido ponto final em nosso feliz capítulo (sem dúvida esse capítulo merece
ser contado em detalhes... e será em breve!).
Mas alguns “fins” foram mais
tranquilos. Acho que são exatamente aqueles que prolongamos, que esgotamos as
tentativas, que insistimos nas vírgulas e que leva todas as nossas forças.
Tanto que quando acaba não há lágrimas, não há dor, só vazio... Assim foi meu,
até agora, último fim, depois de uma luta exaurível para tentar fazer de um
capítulo, um livro inteiro. Bem... foi um capítulo longo, sentimentos intensos,
trabalho árduo, cicatrizes eternas, profundas. E quando o fim chegou, foi o
“nada”. Sem alarde, sem tristeza, drama ou lágrimas. Sem festa pra comemorar,
sem um porre pra enlouquecer. Nada disso... Foram malas cheias e coração vazio.
Bem... não dá pra escapar, a
vida tem mesmo os seus finais e seus recomeços. Às vezes nem nos recuperamos de
um “the end” e tome outro! Aquela sensação de que a sua vida está toda errada,
de que você é uma incompetente, que nada mais dará certo... que a felicidade
nunca irá ficar por muito tempo. E então você se despede dela, que já estava
mesmo no portão de saída, pois a tristeza tomara seu lugar. Você escreve vagarosamente
a última palavra com as lágrimas incessantes caindo sobre o fim do seu
capítulo. E aí você distancia a caneta do papel, respira, soluça, sente uma dor
insuportável no coração e enfim pousa e repousa o seu ponto ali, no final. É
preciso coragem pra terminar... é preciso coragem pra recomeçar!

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