Eu sei, não deveria escrever
isso, mas eu precisava, meio que uma questão de sobrevivência. Talvez desfaça
esse nó na garganta e eu consiga engolir algo (o que também é questão de
sobrevivência), talvez eu me arrependa e me sinta ainda mais idiota, e me culpe
ainda mais. Me culpe por ter saído dos meus propósitos, por ter começado algo
que, provavelmente eu ainda não estava
preparada para viver... o ser humano e essa mania idiota de sempre dar voz aos
sentimentos, colocando o cérebro no mudo. E agora eu to aqui, pensando em como
fazer para seguir, vendo tudo acontecer novamente, só que dessa vez ta doendo,
e é uma dor estranha, que não passa um minuto, um choro que eu seguro porque
sei que se começar não terá fim, e eu não posso parar agora.
Por mais que eu não queira me
levantar da cama, que tenha me lançado nela ontem e saído hoje, depois de
assistir os sete filmes que programei para o nosso fim de semana (eram oito,
mas não tive coragem de assistir o do Steve Jobs), e que nem sei do que tratavam,
pedindo a Deus para dormir e não acordar, é preciso seguir, só não sei pra
onde.
O banho não aliviou a dor, e o
almoço, mesmo fazendo um grande esforço, não passou pela garganta. Entrei no
carro e algumas lágrimas saltaram. Me bateu um desespero, um medo de perder o
controle. Sufoquei a dor, liguei o rádio, mas as músicas me incomodaram. Abri
todos os vidros para sentir o vento numa vontade de simplesmente fechar os
olhos, mas não fiz isso! Eu mantive o controle. Agora estou aqui na sala, os
alunos em silêncio, o som dos trovões lá fora trazendo mais chuva. Como na
semana passada, vou me preocupar com você, vou brigar com São Pedro que mandou
a chuva justo na hora que você terá que sair de moto, todas as vezes vou pedir
a Deus pra te proteger.
Como em todos os dias, vou
acordar e, antes mesmo de abrir totalmente os olhos, vou olhar pro celular
esperando sua mensagem de bom dia, mas ela não virá. Vou chegar no trabalho,
abrir meu armário para organizar os materiais das aulas ainda aguardando sua
ligação, mas o telefone não vai mais tocar a nossa música, aquela do Skank que
é só sua. Vou me arrastar para a sala, vou engolir o choro. Eu sei que não vai
adiantar, depois de três anos juntos, esses anjinhos me conhecem tão bem, e
hoje, quando entrei na sala, notei seus olhares, até que veio a pergunta “tá
doente professora?”. Eu suspirei, meus olhos se encheram de lágrimas, e fazendo
um esforço danado, eu disse que era só a rinite de sempre. No intervalo, uma
das minhas amigas me perguntou como eu estava, não por conta de nós, porque ela
não sabe, mas dos problemas de saúde, eu disse que hoje não estava muito bem e
ela me abraçou... eu não aguentei e chorei, e de novo deu medo de não conseguir
parar. Ninguém sabia o que dizer, eu vi o olhar assustado de cada amigo, tão
acostumados a verem meu sorriso, minhas brincadeiras, e em tantos anos nunca
uma lágrima, e então eu respirei... respirei e respirei... não quero
assustá-los.
Mais tarde vou para o inglês,
e mais uma vez o telefone estará mudo. E aí, eu precisarei voltar pra casa. Não
terei vontade de ir rápido pra tomar banho e te esperar, você não irá. Eu não
ficarei sabendo como foi seu dia, se terá prova, trabalho, se precisa estudar,
se melhorou ainda mais aquele programa, se já está criando outro. A sua voz
ficará ecoando como uma lembrança e só! Eu esperarei seu boa noite, farei todas
as orações que conheço pra tentar dormir, terei sede, calor, frio, falta de ar,
palpitação, vontade de chorar, raiva, terei saudade... Me culparei por ter
começado, depois por ter tido um momento de fraqueza que me deixou carente e
vulnerável, sentirei raiva de mim por ter insistido pra que você ficasse da
forma como fiz, mas é que me bateu um medo de me arrepender depois, por não ter
lutado pelo meu amor, eu engoli meu orgulho, e fiz aquilo tudo, que nunca
imaginei ser capaz de fazer por ninguém.
E então, como agora, eu
pensarei nas quermesses que iríamos, aquelas que você disse na semana passada,
nos filmes no cinema, na pracinha, no carro que a gente ia lavar nos domingos,
brincando com a água, no cachorro que a gente não teve, na sua bancada de
trabalho, no sexo de manhã, à tarde e à noite. Pensarei que não sentirei seu
corpo, seu calor, seus beijos, e nem você sussurrando “gostosa” no meu ouvido.
Não verei você dançando It’s my life do Bom Jovi e nem cantando pra mim. Não
enroscarei meus dedos em seus cabelos, nem beijarei o “pé” do seu ouvido. A
gente não fará amor na sua moto e eu não terei mais você dentro de mim. Minha
vida ficará vazia, meu corpo ficará vazio. Irá doer ainda mais a cada vez que
eu pensar que outra pessoa tem tudo isso.
Eu lerei os textos que te
escrevi, as mensagens no celular, no chat, verei nossas fotos. Pegarei o porta
retratos que fiz com tanto amor e que você não teve tempo de ver, o chocolate
em formato de coração para a Páscoa, que ficará aqui até que eu tenha coragem
de fazer algo, assim como o seu caderno.
Os dias serão longos, as
noites mais ainda, e os domingos insuportáveis, sem filmes, pipoca, sem você!
Eu terei vontade de te ligar, escrever, ficarei parada naquele posto de
gasolina como fiz hoje de manhã, olhando para o lugar onde sua moto estava no
primeiro dia e imaginando você chegando e acabando com tudo isso, o que não
aconteceu hoje e eu sei, não vai acontecer em nenhum outro dia. Enfim, eu terei
que conviver com tudo isso, guardar meu amor que é grande demais pra caber em
qualquer lugar aqui dentro de mim. Eu lerei tudo isso e me sentirei uma idiota,
prometerei a mim mesma mudar, te arrancar na marra do meu coração. Talvez,
depois dessa ressaca, eu vá reatar os antigos casos “ilegais” da minha pós
separação e aí, será ainda pior, porque eu me lembrarei sempre de nós dois, de
como tudo era prefeito, eu não terei prazer, buscarei incessantemente por isso,
e viverei frustrada. Mas aí, acontece que eu não sou mais uma adolescente que
pode passar a tarde pós escola deitada no sofá curtindo uma deprê. É hora de
sonhar novos sonhos e retomar os antigos, mesmo que eu não tenha a mínima
vontade. Mais uma vez... eu preciso dar conta, eu preciso ser forte... eu
preciso! Mas acontece que eu te amo... e amo tanto!!!
Eu não acredito que você vá ler isso, espero que não... mas se acontecer, esqueça...

Um passo de cada vez... só um passo de cada vez...
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