Eu me lembro como se fosse
ontem... eu adorava lhe escrever. Aliás eu sempre gostei de escrever mesmo que
pra ninguém ler. Passava tardes “brincando de poesia” e até ganhei alguns
concursos com isso. E daí, eu usava minha facilidade com as palavras pra
demonstrar cada sentimento que morava em mim por conta de você. Passava horas
na livraria escolhendo o cartão perfeito e depois colocava nele um pouco de mim
em cada letra que ali se desenhava. Apesar de toda a tecnologia, sinto que cada
palavra que escrevemos ali, no papel, com a tinta e o movimento de nossas mãos,
leva um pouquinho de nós, e nada é mais gostoso do que numa tarde de domingo,
daquelas tediosas, ou numa noite de insônia, pegar aquela caixinha de cartas e
cartões, ler e recordar, porque mesmo que aquelas histórias tenham chagado ao
fim, cada pedacinho de papel só carrega as boas lembranças. Pena que você tenha
perdido meus pedaços, tão mal cuidados, jogados em um canto, perdidos entre as
mudanças...
Eu ainda tenho seus poucos
pedaços aqui, junto com outros de outras pessoas, guardados todos com carinho,
numa caixa espaçosa...
O que eu sei é que até com
isso você conseguiu acabar... minhas palavras vistas com tanta indiferença, o
cartão deixado em qualquer lugar pra se “ler mais tarde, quando sobrasse
tempo”, e eu na expectativa de ouvir você me dizendo que leu, que gostou tanto,
que também sentia aquilo... Como doía ouvir isso... meus pedaços entregues com
tanto amor, esperando o “tempo que sobrasse”, talvez no dia seguinte, na outra
semana, talvez nunca vistos, o cartão nem mesmo aberto, carregando toda a energia
daquelas palavras pra sempre! Com o tempo seus poucos pedaços deixaram de
existir, e os meus tantos, foram ficando primeiramente escassos e depois, não
chegaram mais até você. Eu escrevia... por um bom tempo ainda, eu lhe escrevi,
mas minhas palavras ficaram restritas aos meus cadernos, folhas perdidas entre
as coisas de escola. E aí, acabou... acabou a vontade... eu não tinha mais nada
de mim pra lhe dar, eu ficara com tão pouco!
Demorou tanto pra eu me
reencontrar com a delícia de se brincar com as palavras, foi quase no fim,
quando eu já tinha perdido a minha identidade, numa tarde à toa, sentada com o
notebook, ali no sofá da sala. Uma história se desenrolando na minha mente e
então... caderno, lápis... e eu escrevi! Foi engraçado porque eu nunca havia me
aventurado com contos ou crônicas, ficando só com os poemas e as cartas
(idiotas e não retribuídas) de amor, e de repente lá estava um conto! Os amigos
leram e gostaram... eu estava viva novamente, eu estava me reencontrando ou me
reconstruindo, e agora ainda mais forte e muito melhor! Eu entendi que “sou das
letras”, que escrever pra mim é como respirar e que ninguém, nunca mais me
tiraria esse prazer. Nesse mundo cheio de pressa, emails rápidos, chats por
todas as redes sociais, às vezes nem reconhecemos nossa própria letra! Cresci
num mundo em que nossa “caligrafia” era reconhecida pelos amigos... Claro, a
tecnologia facilita e muito nosso dia a dia, mas mesmo que eu jamais vá receber
um pedacinho do outro, eu sempre vou querer deixar um pedacinho meu para quem
realmente é importante pra mim... fique ele jogado em um canto, esperando
“sobrar um tempo” ou não...

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