Hoje
tinha tudo pra ser um “dia daqueles”. Depois de uma noite sem dormir, numa
crise alérgica absurda, que ainda não passou, e um dia cheio de obrigações
(sim, nas férias!). Levantei-me com a pior cara possível e não fiz questão de
escondê-la com maquiagem. Vesti qualquer roupa, a primeira que apareceu, peguei
minha bolsa, mil papéis e tudo o mais que iria precisar e fui me irritar ainda
mais (se é que fosse possível), dirigindo até os lugares todos que necessitava
ir. Quase acabando a etapa das tarefas da manhã, entrando no carro para ir almoçar,
escuto alguém me chamando, aquela voz familiar, há muito ausente dos meus
dias... me virei e de longe vi seu sorriso...
sempre tão contagiante, e não consegui deixar de sorrir também.
Ele
fora um daqueles casos raros de namorados (pra mim o único), com quem consegui
continuar “sendo só amigos”. Tivemos um relacionamento há muitos anos (nossa,
muitos mesmo) e que foi incrível. Não me lembro de nenhuma briga, as minhas
lembranças estão carregadas das nossas gargalhadas, das brincadeiras, da aposta
pra ver quanto tempo ficávamos nos beijando sem parar (contávamos o tempo pelas
músicas que íamos ouvindo). Acredito que não tenhamos ficado um único dia sem
nos encontrarmos, vivíamos colados, envolvidos em momentos de diversão e
paixão.
Bom...
então ele veio ao meu encontro e me deu aquele abraço que toca a alma, quente,
demorado e cheio de um carinho que o tempo nunca será capaz de nos roubar. Retribuí
e o abracei forte, olhos fechados, aspirando seu cheiro e numa vontade de nunca
mais sair dali... pela demora, acho que também era a vontade dele. É engraçado
pensar como que, de um dia para o outro, um possível amor ou paixão deu lugar
para uma bela amizade. Na época, nossas diferenças e ideais pesaram para que o
relacionamento continuasse, mas nunca foram um empecilho para que haja uma
festa a cada vez que nos reencontramos. Nunca houve raiva, mágoa ou qualquer
sentimento negativo. Isso porque o carinho que sentíamos um pelo outro, nos
impediu de dizer qualquer coisa que pudesse causar dor, tristeza, lágrimas. Nos
apoiamos por um bom tempo, de maneira mais presente, pois a vida assim
permitiu. Assisti seu casamento, vi seus filhos nascerem e crescerem, e ele
também acompanhou o desenrolar da minha vida. Enfim, cada um seguiu seu
caminho, o que nos afastou fisicamente. Ainda assim, carregamos um ao outro no
coração, num lugar muito especial, e cada vez que a vida nos permite esses
reencontros, eu agradeço por tê-lo conhecido. Por mais que o tempo passe, ele
continua aquele “moleque terrível” com quem eu rolava pela grama brincando de
“lutinha” e jogando futebol, que me obrigava a dançar com ele no meio da rua,
que me jogava pra cima e me pegava de novo nos braços, com quem eu fazia
guerras deliciosas de sorvete, que me escrevia... bilhetes, cartas, músicas...
me levava flores roubadas pelo caminho. Ele continua com os mesmos olhos negros
encantadores, que sorriem junto som seus lábios.
Depois
que conversamos e nos despedimos com mais um longo abraço, comecei a pensar
sobre como algumas pessoas escolhem ser em nossas vidas uma eterna alegria. Nos
deixam boas lembranças, daquelas que quando buscamos nas gavetas da memória,
sempre temos um sorriso nos lábios e suspiros que nos escapam do peito. São
pessoas que, por mais que o tempo esteja frio e cinzento, quando surgem,
brilham mais que o sol, iluminam e aquecem nosso dia, nos fazem sorrir e
derrubam todas as nossas máscaras, tristezas, irritações.
Hoje
tinha tudo pra ser “um dia daqueles”, mas então, quando nos abraçamos, quando
ele envolveu minha alma com tanto carinho, meu dia se tornou o melhor entre os
últimos tantos dias. E quando o vi se afastar, entre os carros, sob o céu azul
sem nenhuma nuvem... eu, com os olhos marejados e um sorriso de alívio, ainda
consegui sussurrar... “Obrigada!”

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