Nem
sempre se tem total controle da vida, algumas vezes o destino implacável nos
leva para caminhos surpreendentes, às vezes bons, outras nem tanto.
Rachel abriu os olhos. Apesar de já ser dia, as cortinas escuras não permitiam a entrada de luz. O quarto enegrecido como sua alma, as paredes frias como seu corpo e como aquele dia de inverno, brancas como sua pele onde o sangue ia secando, o coração quase sem pulso, entregando os pontos em busca de alívio.
Rachel abriu os olhos. Apesar de já ser dia, as cortinas escuras não permitiam a entrada de luz. O quarto enegrecido como sua alma, as paredes frias como seu corpo e como aquele dia de inverno, brancas como sua pele onde o sangue ia secando, o coração quase sem pulso, entregando os pontos em busca de alívio.
Pelo
chão e sobre a cama inúmeras cartas, todas com a mesma letra, a dela. O papel
derramando seus sentimentos. Por anos ela lhe escrevera, sem nunca enviar uma
carta e, mesmo que quisesse, que tivesse coragem, não saberia o endereço a ser
colocado no remetente, não fazia a menor ideia de onde poderia estar o seu
grande amor.
Vivera
todos aqueles anos escondendo a verdade, calando no peito aquele sentimento que
rugia como uma fera tentando se livrar das grades que lhe cercavam. Seus
demônios escondidos no escuro de sua alma, nas trevas de um passado nunca
esquecido, mas o qual ela acreditava nunca ser remexido novamente. Até aquele
último mês, um outubro de estranhas descobertas. Ele surgiu de repente, e da
mesma forma todo aquele amor enlouquecedor voltara lhe arrebatando em cheio,
abalando aquela nova mulher que lutara para reerguer. Rachel sentia-se fraca,
perdida, a vida não tinha mais sentido. Em um dia de contato ele se tornara
novamente o ar essencial pra que ela se mantesse de pé, e então, ela sabia que, não podia
tê-lo. O destino se encarregara de tornar seus sonhos, uma impossibilidade. Não
poderia sentir seu calor em um abraço, olhar nos olhos dele, ter seus lábios em
um beijo.
Olhou
as cartas espalhadas, “tudo pra você”. Não queria esconder aquilo dele, mas não
poderia simplesmente lançar seu amor nas mãos de Seth. Só de pensar em seu nome
as lágrimas caiam numa torrente incontrolável. Queria guardar a luz que
irradiava daquele que foi seu primeiro e único verdadeiro amor, não queria
fugir, queria que ele lhe dissesse algo, que a fizesse acreditar que sim, era
possível! Queria que ele a salvasse.
Abriu
uma fresta na cortina, observou o mundo lá fora. Pegou a última carta, escrita
durante aquela madrugada. Ali, tentara expressar todo aquele amor, e como lhe
era impossível aceitar que teria que seguir sem ele, que seus caminhos não se tornariam
um só, que não se olhariam ainda uma última vez, que não haveria um beijo de
adeus. A respiração difícil, as mãos gélidas, o coração num pulsar vagaroso e
ainda mais fraco.
As
cortinas então se fecharam, pela última vez. Nenhuma luz.
-
Tenho que deixar você ir, meu destino é o inferno.
Deitou
sobre os papéis, a alma envolvida por seus demônios. Eles venceram...
-
Me levem daqui...
Sussurrou
o nome dele mais uma vez, o corpo já sem vida ainda carregava uma marca daquele
amor, a tatuagem feita há tanto tempo, logo que a vida se encarregou de
separá-los, a estrela que representava toda a luz que ele trouxera para Rachel
e, dentro dela, bem no centro, um “S”. Seth fora a razão pela qual ela passara
por tantas adversidades, tantas rasteiras da vida... a cada luta vencida,
acreditava que ele estaria esperando por ela, um sorriso no rosto lhe
transmitindo a certeza de que dali por diante, tudo ficaria bem. Agora, ela não
poderia mais...
O
silêncio no quarto, apenas quebrado pelo vento lá fora, embalava aquele
momento. A última carta ainda ali, próxima de suas mãos, junto com duas cartelas
vazias de algum medicamento. A vida seguia lá fora, a morte dormia ali dentro.
Inspirado
na canção Demons da banda Imagine Dragons

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