domingo, 11 de maio de 2014

Chronos impostor!

Direcionamento, essa é a palavra! Sem dúvida nenhuma, os grandes nomes das mais variadas áreas, souberam direcionar seus sentimentos, dúvidas, angústias, frustrações, medos, para algo realmente produtivo. Essa história de deixar o tempo passar, que ele tudo cura e apaga, é ilusão! O tempo não cura algumas feridas, não apaga alguns amores, algumas perdas, dores... ele pode até amenizar, mas acabar com tudo... nunca! Essa ideia provavelmente foi criada pelo deus Chronos, querendo se tornar mais importante e invocado do que os demais. Ele nos persuadiu com esse falso poder e aí, passamos uma vida inteira esperando o “tempo apagar”, e quando nos damos conta, a vida acabou e o tempo não apagou.
Mas e aí, fazer o que? Existem algumas opções. A primeira e já dita, é ficar esperando que alguma mágica aconteça e de repente nossas angústias, dores, dúvidas, não existam mais. A gente coloca a vida no pause e se fecha pra tudo que ela possa nos oferecer, esperando o senhor deus do tempo então fazer o seu trabalho. Em segundo, há a possibilidade de fingir que todas essas “coisinhas” não existem. É como aquele dedo quebrado que lateja quando faz frio, mas que você nem liga porque daí a um tempo passa. Mas... o frio volta, a dor volta, e constantemente você convive com aquele incômodo, o ignorando. Isso é o que a maioria de nós faz. A gente sai de casa com o coração partido, nada faz sentido... mas então colocamos um falso sorriso no rosto, criamos uma personagem que não existe, não é real, e sai pra vida! Para o resto do mundo você é alegre, feliz, diverte a todos, não sofre, não liga pra nada, é a “doidinha”, o “cara”, um/a adolescente que nunca vai crescer, mas lá dentro, pra você, no seu “eu”, você se sente com 80 anos mal vividos, fatigado e sem forças pra encarar seus problemas e fazer algo por eles e por você mesmo! Bom... e aí, a última e mais difícil opção é exatamente isso! É olhar com carinho e muita atenção para dentro de si mesmo, analisar a fundo cada dor, cada incômodo... entendê-los e aceitá-los. Não adianta negar a existência dos mesmos, não adianta se culpar por eles estarem aí dentro. É preciso silenciar e ouvir o que cada “dorzinha” tem pra dizer. É importante questionar-se, saber o motivo de cada angústia que mora dentro de nós. Isso leva tempo, dá trabalho... às vezes é preciso ir muito longe para entender o motivo de alguns dos nossos comportamentos. Vivemos no presente, mas somos constituídos por nosso passado, e é lá que está o motivo de cada dor, cada tristeza, cada atitude. Está tudo muito bem guardado em nosso inconsciente, que mais parece aquele porão sombrio que temos medo de visitar, cheio de fantasmas, mas que é exatamente o lugar onde mora a nossa essência, nossas lembranças boas ou ruins. Nós somos o que já vivemos! É preciso coragem para descer as escadas, acender a luz e enxergar minuciosamente a trajetória já percorrida. Nossa infância guarda segredos incríveis, os mais importantes e que mais influenciam nossa conduta na vida adulta. Temos que estudar a nós mesmos, de coração e mente abertos para o que possa surgir. E com certeza, surgirão muitas coisas, muito do que você nem imagina que é você mesmo, que constitui o seu “eu” atual.

Mas... o que fazer com essas descobertas? Não tenho dúvidas de que esse é o ponto mais difícil. De posse de tudo o que nos causa tristeza, angústia, insegurança e algumas atitudes equivocadas, inicia-se uma batalha de titãs! De um lado o “eu consciente” agora conhecedor dos traumas todos, e de outro esses mesmos traumas insistindo em ainda comandar cada situação. É preciso uma dose gigantesca de lucidez, pra perceber quando somos manipulados pelas vivências negativas do passado. E é aí que entra o direcionamento. Ou a gente pira de vez com tudo que descobre sobre si mesmo, ou reúne esses sentimentos e os direciona para algo. Temos claros exemplos disso circulando pela mídia. Pessoas que, por exemplo, passaram por graves problemas de saúde e transformaram o trauma em ajuda ao próximo, criando ONGs, ou buscando nelas desenvolver o voluntariado. Imagino o mesmo com os poetas, compositores, escritores... quando lemos suas obras, nos emocionamos e ficamos nos questionando sobre tamanha inspiração. Provavelmente eles conseguiram direcionar seus sentimentos para essas produções... amores possíveis e impossíveis, saudade, medos, perdas... Cabe a cada um, descobrir o que pode fazer de bom com os resquícios negativos das experiências já vividas. O que não dá é pra simplesmente ficar parado, sem fazer nada, permitindo que os fantasmas do porão continuem a nos assombrar, que nosso “eu” fique dentro das caixas, lacrado, guardado no escuro para que a gente possa fingir que ele não existe. É preciso que sejamos capazes de nos enxergar, para então abrir os olhos para o mundo... e para a vida!

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