terça-feira, 6 de maio de 2014

"Eu quero a sorte de um amor tranquilo..."

Eu sei, você também quer! Depois que passamos por toda a turbulência das paixões adolescentes e relacionamentos problemáticos que deixaram profundas cicatrizes, a gente precisa dessa calmaria. Um amor simples, suave como a brisa de outono, leve como a bailarina flutuando ao som de suave música, aconchegante como aquele moletom velho.
Temos a mania de acreditar que a intensidade é uma virtude, o tal “carpe diem” levado ao extremo, mas nada que é exagero faz bem, inclusive o amor. A gente mergulha de cabeça, sem saber se o que temos à frente é um rio raso, cheio de pedras, ou um mar revolto. Estamos cegos para o real, e vemos uma bela lagoa, profundidade ideal, ondas suaves quando sopra o vento. E aí é “se jogar” e “se ferrar”!
O amor precisa ser racional e, mais pensar do que sentir é tarefa difícil. Somos muito mais emoção do que razão, a sociedade nos empurra pra isso, prega que devemos sentir, ouvir o coração, porque se pensamos demais somos pessoas frias, egoístas, insensíveis. Mas quando a gente dá o tal mergulho e quebra a cara, não tem ninguém para nos salvar e às vezes ainda somos obrigados a ouvir “você deveria ter ido com calma, se envolver tanto em tão pouco tempo... isso é loucura!” Raiva, culpa, decepção e mais uma porrada de sentimentos negativos nos invadem.
Um dia a gente cansa, e aí abre os olhos! Vê com um certo espanto no que já se meteu, a gente ri de algumas coisas, chora por outras. E então sabe que, a partir daquele momento, é preciso ser diferente, um novo salto errado pode ser fatal. A gente cansa de aventuras emocionais, da bipolaridade de alguns relacionamentos, da falta de cumplicidade. A gente cansa dos exageros, do vazio, de se entregar, de cuidar do outro sem que haja reciprocidade. E então a gente começa a sonhar e esperar por algo apaziguador... a tal “sorte de um amor tranquilo”. A gente quer alguém pra conversar... falar sobre banalidades, sobre músicas, filmes, livros, um programa de TV, uma notícia que está na mídia, mas também alguém com conteúdo pra um papo mais “cabeça”, que tenha argumentos, que nos faça pensar. Mais que isso, a gente quer alguém que saiba o significado de “conversar”, que não transforme isso em um monólogo. A gente também quer alguém capaz de suportar o silêncio, de conviver bem com ele, de valorizar o som tranquilo do nada. O ruído intenso do mundo muitas vezes nos cansa, o silêncio é essencial, e é triste quando alguém precisa de sons incessantes porque não é capaz de conviver com seu próprio silêncio.
A gente quer e precisa de um porto seguro, porque já passou por muitas tempestades, já navegou à deriva... não que as tempestades não mais ocorrerão, mas quando se aproximarem é reconfortante ter pra onde “correr”... um par de braços que não precisam ser fortes, mas sim capazes de nos enlaçar, nos aquecer, oferecer conforto, calma, paz. É bom ter um ombro pra se recostar, é bom oferecer seu ombro também quando o outro precisar.

Enfim, a gente chega em um ponto em que precisa de cuidado, porque a gente sabe que merece! Queremos oferecer carinho, mas também receber. Você quer ir pra cozinha fazer uma lasanha deliciosa, enquanto seu companheiro te ajuda pegando ingredientes aqui e ali, ou simplesmente sentado ali próximo, conversando sobre o dia de ambos... quem sabe ele pegue o violão e fique brincando, os dedos bailando sobre as cordas (fui longe?!!!). Agora, falando por mim, sempre sonhei com essa cumplicidade, sei que é resquício do relacionamento antigo, em que isso não existia, e é algo que se tornou meio que conto de fadas, difícil demais pra realmente acontecer. Mas será? Será que na minha cozinha essa cena não vai mesmo acontecer? O banho nos cães, a guerra de travesseiros, a brincadeira na rua com a água, enquanto lavamos o carro, o vinho com pizza, a cerveja com bobeirinhas no domingo, sentar sob o sol de outono e curtir a brisa da tarde sussurrando alguma canção. Sorrisos à toa, olhares à toa. Parece tão simples e ao mesmo tempo meio inalcançável. Será que isso existe??? Contou-me uma amiga, durante uma conversa sobre relacionamentos, que certa vez, enquanto ela dormia à tarde, o companheiro com passos leves, foi até o quarto pra fechar a porta, evitando que os cãezinhos fizessem barulho e ela pudesse despertar. Eu pensei na simplicidade daquele gesto, e no grande carinho ali presente. O fato me tocou, me fez refletir, me fez descobrir que eu quero muito alguém que feche a porta... com passos leves... sussurros... carinho... cuidado... eu quero essa sorte, “a sorte de um amor tranquilo”!!!

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