Um
dia a felicidade bateu à porta dela. No primeiro “toc”, a madeira rangeu e se
afastou, cansada que estava das idas e vindas, de ser aberta com carinho, mas
fechada com batidas secas e fortes. Ninguém atendeu, e então ela entrou
sorrateira, o trazendo pela mão... era ele... o príncipe tão esperado, que
surgia agora para salvar sua princesa. Cabelos negros, voz segura, sorriso doce
e modos requintados. Chamou por ela, mas não recebeu resposta. Subiu um lance
de escadas e então seus olhos pousaram naquele corpo frágil e pálido, que
repousava em lençóis brancos, ao lado de uma janela em que o vento soprava,
esvoaçando uma fina cortina. Mais uma vez chamou e... nada.
Aproximou-se
e tocou seu rosto, o corpo frio, mas que ainda escondia um sopro de vida. No
chão, mechas de cabelos, sem dúvida eram dela, cortados tão displicentemente.
Logo ao lado, uma maçã que ainda retinha a marca de batom onde a mordida fora
dada. Onde a mão dela repousava, gotas de sangue e um ponto vermelho no dedo.
Deu a volta na cama e observou cristais partidos em algo que lhe parecia um
sapatinho. Sua princesa passara por cada dor, de cada conto de fada. Fora
“salva” inúmeras vezes por príncipes que ao final, nem mesmo serviriam para o papel
de sapo.
Mais
uma vez ele a contemplou. Se aproximou e, seguindo a regra, depositou um doce
beijo em seus lábios de um rosa que se esvaía a cada segundo. E então ela se
mexeu, abriu lentamente os olhos tão sem brilho, deu um suspiro profundo, entre
um gemido, como se lhe doesse respirar, e pousou nele o seu olhar. Um leve
sorriso tomou conta de seus lábios, tão desacostumados daquilo. Seu coração
quis pulsar forte, ainda que corresse o risco de ter os cacos novamente se
descolando em mil pedaços. Porém, ali, em seu agora príncipe, ela sentiu uma
confiança há tanto quebrada, não tinha medo.
A
felicidade, parada na porta, queria entrar, mas ainda não havia espaço pra
ela... dor, tristeza, decepção, frustração, arrependimento tomavam conta de
tudo.
Sentada
na cama ela chorava... se revoltava contra o mundo e consigo mesma, porque era
só dela a culpa por cada pedaço do seu coração não saber mais como bater.
A
felicidade se retirou, partiu em busca de uma nova protagonista, mas avisou que
talvez, um dia, voltasse. Mas ele, o príncipe, ainda ficou por ali, tentando
acalmar aquela princesa que há muito perdera seu encanto. Num fio de voz, entre
lágrimas e soluços, ela lhe disse:
-
Eu te esperei... pedi à vida que me proporcionasse esse encontro, esse momento,
mas o destino impiedoso e com a minha permissão, te trouxe tão tarde. Em cada
decepção eu pedia pra que você fosse o próximo... mas nunca era, e sempre vinha
um novo erro. E então, agora que você veio, o meu “felizes para sempre” já
passou, e eu o perdi. Eu sonhei inúmeras vezes que você me salvava, mas enquanto
você não vinha, era eu quem precisava salvar alguém e agora, novamente essa
função é minha, eu preciso me salvar de mim mesma...
Dizendo
isso, ela caiu novamente em um sono profundo, como se dormir por cem anos
aliviasse tanta dor, trouxesse o esquecimento. Como se, quando acordasse, não
houvesse mais nada além do seu príncipe real, e ela fosse capaz de lhe oferecer
todo o amor que tanto gostaria.

Nunca desista... de nada nessa vida que valha a pena lutar. E, principalmente, não desista do amor! Nunca é tarde demais pra recomeçar... Porque na verdade não existe o começar nem o terminar, somente o fazer...
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