Sim... eu procurei por ele nas
redes sociais, e o encontrei. Mas... não! Não tive coragem pra ir além disso.
Não acho que tenha esse direito. Passei horas olhando para aquela foto, senti
falta dos seus cabelos compridos que eu amava, mas encontrei o mesmo olhar que
me encantou no primeiro dia.
Eu ainda me lembro como se
fosse hoje. Aula de história, professor Chico, a sala não estava muito
organizada, pra não dizer que reinava uma bagunça geral. Eu me sentava na
terceira carteira, na fila de frente ao professor, próximo a mim, meus amigos
inseparáveis e com quem eu me divertia muito. De repente o mundo parou, não
havia ninguém mais à minha volta, apenas ele, apesar de toda a barulheira, eu
ouvia só aqueles sininhos famosos tocando, imagino a cara de tonta que eu devo
ter feito e ficado por alguns longos minutos. É engraçado, mas foi exatamente
como se vê nos filmes, tudo acontecendo em câmera lenta... a música celestial,
os feixes de luz, o meu coração explodindo no peito, e a prova de que existe
amor à primeira vista! E então, um amigo fez a maldade de me tirar daquele
mundo dos sonhos. Eu soltei um “que?” assustado e meio irritado, e
imediatamente procurei onde havia uma carteira vazia. O universo conspirava a
meu favor, havia uma logo atrás de mim, e as outras todas longe demais... eu
precisava de sorte e talvez, pela única vez na vida, eu a tive!
Ele passou por mim, que
hipnotizada, acompanhei cada movimento dele. Era tanta energia eclodindo de mim
que eu podia vê-la ao meu redor. Eu precisava fazer alguma coisa, precisava
chamar sua atenção, mas não fazia a menor ideia de como. Enquanto tentava
responder alguns exercícios, pensava numa estratégia, e qual não foi a minha
surpresa quando ouvi um “oi, você tem uma borracha pra me emprestar?”. Uma
borracha... só uma borracha?! Eu já seria capaz de lhe entregar a minha vida! A
borracha foi então para as mãos dele, e eu queria ir junto. Voltou com um
“obrigado” na sua voz que era a melodia perfeita para meus ouvidos, e que eu
seria capaz de passar a vida ouvindo.
Dali por diante, tudo foi tão
rápido, e para mim, tão intenso. O “resto” daquela escola, por sinal enorme,
não existia mais. Nada mais tinha importância... apenas estar ali perto dele,
sentindo sua energia tomar conta de mim. Logo veio a festa de encerramento do
ano... uma brincadeira aqui, outra ali, e o pobre do meu coração vivia uma
disritmia sem fim.
E enfim, aconteceu! Lá, no
famoso cantinho do pátio da escola. Só de lembrar, sinto as pernas bambas como
naquele exato momento. Ele já estava lá, esperando. Eu só precisava atravessar
as enormes portas de madeira, descer os cinco degraus, atravessar metade do
pátio... mais uma vez a efeito da câmera lenta. Meus amigos me empurravam,
rindo, gritando, mas como no primeiro dia em que o vi, não existia ninguém
mais, o mundo estava em stand by... congelado... mudo.
Ali, naquele colégio, ficou
guardado nosso primeiro beijo... o primeiro de muitos, sempre tão apaixonados. Ele
era o garoto perfeito, o sonho de toda adolescente, e eu que não era muito de
“grude” e de coisas “melosas”, me tornei uma boba, totalmente dependente dele.
Estudávamos no período da
manhã, mas quando as aulas acabavam, não queríamos saber de voltar pra casa.
Ficávamos ali, sentados na calçada, debaixo das árvores que ainda estão lá,
como testemunhas de todo o amor que eu senti. Todas as vezes em que passo por
aquele lugar, um sorriso surge em meus lábios, meu coração já surrado pela
vida, ousa bater mais forte, e sempre uma lágrima turva o cenário e salta
displicente dos meus olhos, levando um pedaço dessa saudade.
Éramos companheiros de uma
forma que nunca mais vivi com outro alguém. Eu voltava pra casa quando já
começava a entardecer, e assim que chegava, o telefone denunciava que ele
continuava presente. E ainda que ele não ligasse, que não nos falássemos mais
naquele restante de dia, ele nunca estava ausente pra mim. Sua imagem me
acompanhava sempre, em todos os segundos, em cada sonho, tomando todo meu ser.
Bom, mas a vida nunca
facilitou muito as coisas pra mim. O ano chegou ao fim, ele iria se mudar e
eu... eu queria me acabar junto com o ano. Pra que viver? Nada mais tinha
sentido. Eu não ouviria mais sua voz, não sentiria seus braços me envolvendo,
não teria mais seus beijos e todo o carinho e a proteção que só ele me
transmitia. Não veria mais seus olhos brilhando e olhando pra mim.
Meus dias se resumiam em
segurar a foto dele nas mãos, vagando pela casa e chorando infinitamente. Às
vezes, sentava na cama e ficava horas olhando para o telefone, como se eu fosse
capaz de fazê-lo tocar apenas com a minha vontade, e então ter aquela voz do
outro lado, pra acalmar a minha dor. Um grande pedaço de mim morreu sem ele,
algo que eu nunca mais consegui recuperar.
Ainda nos encontramos por
acaso, numa manhã, enquanto eu acompanhava minha mãe ao banco. Ouvi meu nome em
sua voz que eu amava tanto e... puxa! Como foi difícil segurar a tempestade que
aconteceu dentro de mim. Eu queria abraçá-lo pra nunca mais soltar, eu trocaria
o resto da minha vida pra estar aquele único dia com ele. Mas... de que valem
os sonhos exagerados e ilusórios de uma garota de dezoito anos?!
Essa foi então a última vez em
que pude sentir seu toque em mim... seu toque físico, porque a forma como ele
tocou minha alma, isso nunca se apagou. Todo mundo me dizia que essas “paixões
adolescentes” passam, mas não passou, e não passou porque não era só uma paixão
breve que logo seria esquecida, não pra mim. Era amor. Eu o amava mais a cada
batida do meu coração, ainda que distante, ainda que nunca mais o visse. Eu
sabia do meu amor, mas hoje, bem mais madura, depois de tanto tempo, tenho
ainda mais certeza, porque quando comparo os meus sentimentos em cada
relacionamento que vivi, sei que com ele foi tão mais forte.
Algumas pessoas são para
sempre, alguns amores são para sempre... e ele é um desses que nunca deixará
meu coração, é um inquilino fiel, cativo, pra eternidade. As lembranças daquele
pouco tempo em que estivemos juntos nunca abandonarão a minha memória, estarão
aqui pra me trazer um sorriso cheio de saudade e a certeza de que alguns
momentos valem toda uma vida!
“Amor da minha vida, daqui até
a eternidade” ... “só enquanto eu respirar, vou me lembrar de você” ... “de
janeiro a janeiro, até o mundo acabar”.

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