O
telefone tocou no mesmo criado mudo cor de marfim da casa de meu pai. As duas
camas de solteiro no quarto espaçoso. A cortina marrom com as singelas imagens
de uma garota. Minha mãe já de pé organizando a casa, enquanto eu, sonolenta,
me enroscava ainda mais nas cobertas. “Telefone... pra você.” O sorriso brotava
em meu rosto amanhecido... era ele! O seu bom dia me fazia estremecer, meu
coração saltava e eu me sentia a pessoa mais feliz do mundo. Sempre vinha algo
do tipo “Anda sua preguiçosa, levanta dessa cama e vem pra escola!” É algo tão
presente pra mim que às vezes parece que o telefone vai tocar novamente e eu
poderei ouvi-lo... e ainda que na realidade isso não ocorra, as lembranças são
tão vivas dentro de mim que chego a ouvir perfeitamente sua voz. E então, por
mais que o sono tentasse me dominar, ele sempre perdia. Eu saía da cama com
aquele sorriso bobo, cantarolando “amor da minha vida... daqui até a
eternidade...”, me arrumava rapidamente e seguia até o “nosso lugar”. Eu ainda
sinto seus cabelos entre meus dedos... o gosto dos seus beijos, o calor de seus
abraços... eu ainda sou louca por ele... completamente! E... eu o amo tanto...
Sete
meses... e foi com essa imagem que amanheci.
Como
o tempo passa rápido! Hoje faz sete meses que o “Nossa, quanto tempo...”
brilhou à 1h18 da madrugada de uma sexta, na tela do meu note. Depois de 16
anos esperando por algum contato, uma notícia, um “oi”, aconteceu! Aquela chama
que nunca deixou de trepidar em mim se tornou um incêndio incontrolável. Não
sei precisar o quanto isso foi bom... ou ruim. Foi bom ouvi-lo novamente,
revê-lo e ainda uma vez ter seus lábios nos meus. Mas a dor da impossibilidade
também voltou com tudo. Meus dias não possuem mais sentido algum, não tenho
vontade fazer absolutamente nada, me sinto completamente perdida! Sei... não dá
pra continuar assim porque viver se tornou um martírio. Não posso passar os
dias olhando as fotos dele e esperando que o destino ou a vida decida ser
“boazinha” comigo e transforme meu conto de fadas em realidade. Não posso
continuar chorando todas as noites no silêncio do meu quarto. Preciso parar com
a mania doentia de dirigir até nosso lugar e ficar ali, olhando pro nada,
revivendo momentos que nunca mais voltarão. Não posso nutrir essa esperança
porque não há esperança alguma pra mim... pra nós! Tenho que tomar novamente as
rédeas da minha vida e seguir por novos caminhos, novos objetivos. Eu preciso
encontrar razões que me tragam vontade de amanhecer a cada dia. Não, eu não sei
como... mas essa não é a primeira vez que tudo se desmorona... aliás já devo
ter título de “doutor” em reconstruções.
Comecei
esse texto com um sentimento de saudade, de amor profundo, mas agora uma
revolta me invadiu e eu não consigo deixar de sentir raiva de tudo... do mundo,
da vida, desse tal destino, de mim! Eu só queria poder viver esse amor, e é
difícil aceitar que seja algo impossível. É ainda mais difícil ter que dizer
adeus, mas é a única opção... Sete meses... mais alguns dias e também serão do
nosso encontro real, daquele beijo que revivo todos os dias, da vontade de
pedir pra que ele não fosse...
Espero
começar uma nova contagem a partir daqui... vou tentar viver! A vida tem me
oferecido tantas coisas e só consigo dizer não e pedir por ele... Não dá pra
ser assim. Não posso escolhê-lo já que eu não sou a escolha dele! Não dá mais
pra viver com a presença constante da sua ausência doendo em mim. Preciso
juntar meus cacos novamente e afastar suas raízes tão fixas em meu coração...
Tenho que me curar desse vício... transformar esse amor em algo que não seja
tão destrutivo.
Com
lágrimas despencando de meus olhos e o coração sangrando, eu começo...
“primeiro dia de uma vida sem você”...
Adeus!
Dia
1...

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