Me levantei. Não posso dizer
que acordei porque novamente não dormi. Estou aqui, sentada na cama, olhando
pra chuva lá fora e me sentindo uma fraca! Fracassei por não ser forte o
suficiente, por deixar a depressão me invadir de novo e agora não encontrar um
motivo concreto que me faça sair dela novamente, como da outra vez. Perdi as
contas das crises durante a noite, o ar que não chega aos pulmões, o coração
disparado enlouquecidamente como se fosse explodir, calor, frio, uma dor
imprecisa, os pensamentos fervendo. Vou pra terceira semana, totalmente
decepcionada comigo mesma. Desde a primeira vez ela até tentou me tomar
novamente, mas eu consegui ser mais forte... mas agora... meu Deus! Eu não
estou conseguindo...
Me lembro bem da “primeira
vez”, os sintomas vindo aos poucos, eu insistindo em não enxergá-los, afinal,
“depressão é frescura, coisa de quem não tem o que fazer”, e eu tinha! Acordava
cedo pra preparar o café, o almoço, um lanche pra tarde, o uniforme dele...
Depois saía para o trabalho às 9h e só retornava às 19h voltando para as
tarefas da rotina da casa. Eu tinha muito o que fazer, então, não era possível
que me sobrasse tempo pra deprimir. Ela não precisou de tempo, nem ligou pra
minha vida corrida. Notou minha solidão e decidiu ser minha companhia. Era preciso
uma força extrema pra sair da cama pela manhã, mesmo que não tivesse dormido, o
que ocorria na maioria das noites. Mais força ainda para fazer mínimas coisas,
como colocar a roupa na máquina pra lavar, quando a única vontade era deitar e
chorar. O trabalho conseguia me distrair um pouco e algumas vezes, eu ficava
muito além do meu horário, não queria voltar pro vazio da minha casa. Não, eu
não morava sozinha, tinha um relacionamento, mas ele sempre estava muito
ocupado com o trabalho, dia, noite, finais de semana. Eu não tinha alguém pra
me ouvir, pra me acompanhar nos lugares, era dolorido sair sempre sozinha para
os aniversários, casamentos, festas de confraternização do trabalho. Por um
tempo as pessoas me perguntavam onde ele estava, e a resposta era sempre a
mesma: “trabalhando”. Depois de um tempo, já iam logo afirmando “o fulano está
trabalhando né?”, ao que eu apenas confirmava. E então, nem isso mais. Era
sempre apenas eu! As mesas envoltas pelos casais de amigos, e eu...
Bem, até então eu era “a
forte”, essa era a imagem que a minha vida passava. Fui morar em outra cidade,
distante, sozinha, e no momento em que precisava de apoio, o que ocorreu foi o
contrário, e mesmo longe, era eu quem tranquilizava a todos. Ninguém sabe a dor
que era acordar no domingo sabendo que era dia de partir, chegar lá sozinha,
caminhar os três quarteirões vazios, sombrios, típicos de um domingo à meia
noite, abrir a casa, ouvir o silêncio... a única coisa que eu conseguia fazer
era cair na cama , ligar o rádio no meu programa favorito de flashbacks e
chorar... chorar até que começasse a amanhecer e fosse hora de ir para o
trabalho. Mas isso eu vivia sozinha, internamente. Por fora eu estava bem,
feliz, uma muralha! Ele me ligava e era eu quem dizia que tudo ia ficar bem. Em
uma dessas vezes, ele chorava falando de como tudo estava tão difícil, que não
queria mais viver. Feito louca, eu me enfiava numa roupa e ia pra rodoviária
esperar o próximo ônibus, eu precisava ajudá-lo! E aí, anos depois, pela única
vez em que eu precisei do apoio dele, me deparei com o nada.
Eu piorava e insistia em não
aceitar a doença. O ano era 2011, talvez fosse outubro ou novembro. Então, numa manhã eu saí para o trabalho. Era
longe e eu ia pela rodovia. Eu vivia os dias de forma mecânica, quando percebia
já estava no trabalho ou em casa e nem sabia como. Dirigindo naquela manhã,
totalmente vazia, eu olhei a mureta que dividia a pista, olhei para as minhas
mãos segurando a direção, e me imaginei lançando o carro a toda velocidade bem
ali. Imaginei a pancada na cabeça, a ferragem me esmagando, e sangue... muito
sangue. Daí pra frente tudo era paz, havia acabado enfim, eu estava livre!
Morrer era meu único desejo nos últimos dias e, naquele instante eu planejara e
assistira a minha morte. De repente, eu despertei, foi um choque, “o que eu
estava fazendo?” Logo eu, sempre estudando o espiritismo e sabendo que jamais
encontraria paz se colocasse fim à minha vida! Então eu parei o carro, e
chorei... chorei muito, alto, até
soluçar e sentir minha cabeça toda doer. Olhei para o céu azul de um dia lindo,
do qual eu havia pensado em me livrar, e decidi que já era hora de me resgatar,
reconstruir, voltar a viver. Eu não podia esperar apoio de ninguém, tudo
dependia apenas de mim...
Decidida, fui ao médico, que
me prescreveu um antidepressivo e algumas sessões de terapia depois de me ouvir
entregando milhões de lenços para que eu secasse o turbilhão de lágrimas. No
fim da consulta, me abraçou forte, olhou nos meus olhos e me disse que eu era
uma mulher linda, que devia me afastar do que estava me fazendo mal (eu sabia o
que era, e ele também), e que, com certeza, isso iria me fazer sofrer muito
menos, seria até um alívio.
Não me adaptei ao remédio,
fiquei horrível! Não conseguia olhar para a comida, qualquer que fosse. No
trabalho, eu me sentava na frente do computador e não conseguia me mexer,
passando horas olhando pra tela. No quarto dia não tomei a medicação. Acordei,
calcei meu tênis e fui correr. Voltei bem melhor. À noite, depois do trabalho,
parei na clínica de estética próxima de casa e fiz um pacote de massagens.
Instituí a quinta o dia de sair com as amigas após o trabalho, por mais que não
tivesse vontade. E então eu consegui! A vida estava de volta dentro de mim.
Tudo teria sido mais fácil se tivesse um companheiro, que me abraçasse forte,
fizesse com que eu me sentisse desejada e viva! Eu fui apoio por tanto tempo,
mas quando fraquejei, estava só...Tantas noites desejei que ele me deitasse no
colo e me fizesse um cafuné... mexer em meu cabelo me acalma... mas não, ele
estava cansado, “eu precisava parar com essa frescura, porque ele já tinha os
problemas dele”.
Apesar de tudo, a depressão me
fez enxergar que eu estava oferecendo tudo o que tinha, mas que isso não era
recíproco. Foi quando comecei a abrir os olhos, e eles ainda levaram mais de um
ano para se abrirem por completo.
Agora eu vejo tudo acontecer
de novo, e eu simplesmente estou cansada demais. A tempestade não dá trégua, as
lágrimas também não. Dói, a garganta aperta e eu choro... em casa, no carro, no
trabalho, mas ninguém vê... de novo vou abafando cada sentimento, tudo
exatamente igual, como um filme que a gente não gostou, mas que assiste de
novo. Eu não quero abrir os olhos, não quero um novo dia, mas mesmo assim ele
vem e eu preciso vivê-lo. Eu quero um abraço quente e forte, as mãos mexendo em
meu cabelo... a calma que isso me dá... mas o quarto está vazio, a chuva cai lá
fora, o meu mundo cai aqui dentro...

Puxa vida, Jaque... quanta sensibilidade e delicadeza para algo tão triste e doloroso !!!
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