Eu sei que, eu nunca vou
conseguir te dizer isso, primeiro porque é tanta coisa e a emoção e a dor me
roubariam tantas delas, e em segundo porque você jamais conseguiria ouvir e
menos ainda entender. Nem mesmo sei porque escrevo... talvez pra tirar um pouco
da dor, aqui sozinha, pra buscar um alívio que eu sei que não virá! Mas e daí?
Já estou tão acostumada em enganar a mim mesma que nem fará diferença.
Bom, isso pode parecer tão
dramático, mas eu não nasci pra ser feliz. Não me dói dizer isso, porque,
apesar dos meus sorrisos serem poucos, eu consigo despertar a alegria de
tantos, me empenho em dar aos outros o que eu gostaria de receber, ou talvez
bem mais. Me importo com a lembrança e os sentimentos que cada um poderá ter de
mim, me sentiria horrível em saber que magoei alguma pessoa, que fui motivo de
dor, raiva, lágrimas... Não foi a vida que me ensinou a ser assim, é algo que
nasceu comigo. Enquanto as crianças choravam querendo brinquedos pelas lojas da
cidade, eu chorava desesperadamente para que minha mãe não gastasse seu
dinheiro com brinquedos para mim. Doía, doía demais... eu via aquele jogo que
uma amiga tinha e que eu adorava e, no dia das crianças, lá ia minha mãe mais
uma vez me levar para escolher o presente, pegar o tal jogo, e ter que então
controlar meu choro devolvendo o presente na prateleira, observando a expressão
das pessoas que não entendiam nada. Foi assim também na escola, sempre! Eu ajudava
a todos e era o ouvido sempre pronto para ouvir um desabafo. E não haveria de
ser diferente em meus relacionamentos. Eu sempre me entreguei sem medo... me
ferrei pra caramba, mas e daí? Não dá pra viver uma vida pela metade! Sei que
da última vez o tombo foi grande e as marcas profundas demais e indeléveis.
Como esquecer? Como apagar da memória a minha própria imagem no auditório da
formatura, segurando nas mãos os sete convites para ele e toda a família, pagos
com tanto esforço com o pequeno salário que tinha que fazer milagres nos anos
de faculdade. Tudo em vão... ele não foi... precisou sair com os amigos. Como
esquecer o som dos fogos de artifício à meia noite, que embalavam a minha
solidão no último dia de um ano, e no primeiro de um outro... As taças e o
vinho sobre a mesa, o telefone na mão esperando ao menos uma ligação que não
veio. Como não pensar que nas noites em que ele estava “trabalhando”, talvez
estivesse com ela, enquanto eu, como uma idiota, ficava em casa esperando um
pouco do que sobrasse pra mim. Não dá! Passe o tempo que passar, é impossível
não me arrepender dos sonhos todos aos quais abri mão pra realizar os dele... e
o que eu tenho agora? Essa dor pra conviver e o meu “eu” pra tentar recuperar.
Por mais que eu vivesse a minha solidão, me sentisse um nada, passasse meses
sem receber um beijo, nunca passou pela minha cabeça procurar isso em outra
pessoa, eu imagino a dor que seria pensar que a boca que me beijava também
beijava outra, as mãos tocavam em outro corpo... eu nunca seria (e nem serei)
capaz disso!
E o que isso tem a ver com a
gente? Quase nada... Acontece que hoje, com você eu tenho muito mais do que
poderia sonhar, posso fazer mil coisas e sempre estarei pensando em você, não
tem espaço pra mais ninguém e, não desejar outra pessoa não é uma obrigação, é
simplesmente porque eu não preciso. Acontece também que, ainda não estou pronta
pra minha solidão “acompanhada” de alguém. Eu preciso de alguma distração para
não enlouquecer. Eu preciso sair para o mundo nesses momentos, por mais que a
minha vontade seja cair na cama e chorar. Eu já me matei uma vez, deixei de
existir completamente e, se eu fizer isso de novo e precisar um dia me
reconstruir, sei que não vai dar!
Hoje... hoje eu precisava de
você! Eu queria te contar do painel de poesia que organizei com os alunos, do
fato super emocionante que ocorreu durante a aula. Eu queria te contar que
ganhei bolo de chocolate na aula de inglês, que numa das salas, morremos de rir
porque um aluno que não é de se esforçar muito, fez um trabalho maravilhoso, e
eu disse pra ele não perder porque meus colegas iriam me matar quando eu lhe
desse uma nota “azul”, e ele teria que comprovar que realmente foi merecido! Eu
queria te contar que o jogo de basquete foi emocionante, e que conversamos com
o Hélio Rubens. Queria falar dos conselhos “sacanas” que dei pra uma amiga, e
de como a gente riu disso. Ahhhhh, eu queria te contar que fui na livraria no
sábado pra tirar xerox, e que comprei um caderno muito engraçado pra você, e
que ele ta aqui do meu lado agora... Mais que tudo isso, eu queria não ligar
pra nada, não sentir nada. Eu queria tanto não querer... mas me desculpa se eu
não consigo!

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